Luísa Sobral: "Passámos a ser Sandy & Júnior. Preferia que fôssemos Caetano e Bethânia"

A cantautora, que amanhã lança o disco Rosa, fala das histórias que compõem o álbum, que são suas e de todos, do disco que gravou aos 12 anos com Salvador Sobral nos coros e da página já virada da Eurovisão.

Rosa é o quinto álbum de Luísa Sobral, editado nesta sexta-feira. Também é o nome da sua filha, de 6 meses. As letras das canções foram escritas enquanto estava grávida e quase sem voz, consequência da gravidez. Rosa é um disco luminoso cheio de histórias em que cabe muita gente.

Cabe Nádia, a atravessar "o mar Egeu/ escuro como breu/ dois filhos, um abraço/ frio, medo e cansaço", cabe alguém que um dia escreverá uma carta de amor aos filhos da cantautora, cabem aqueles que voltam a encontrar-se já grisalhos e se tornam Dois Namorados, ou aqueles que cresceram como "uma só pessoa" e que a vida separou, embora ele ainda espere sozinho por ela.

Com o irmão, Salvador Sobral, Luísa canta neste disco Só Um Beijo. Falamos também dele, da Eurovisão e de como nos jantares de família de domingo se dá mais atenção ao que aí vem, ao que cada um deles está a fazer, do que àquilo que ficou para trás. Aos 12 anos, Luísa Sobral gravou um pequeno disco que hoje só a sua avó deve ter. Um amigo da mãe disse-lhe então que ela já tinha "noção de estrutura de canção". Ela culpa Bob Dylan, Leonard Cohen, Beatles, João Monge ou Carlos Tê, e o pai, por trás de cada canção, a explicar aos filhos que histórias eram aquelas.

Luísa Sobral apresenta o disco ao vivo a 9 de fevereiro na Casa da Música, Porto, e a 22 de fevereiro no teatro Tivoli, em Lisboa.

Quando é que este Rosa começa a aparecer como tal, como disco?

Este disco foi o mais diferente de todos na composição. Eu compunha sempre as canções enquanto estava em tournée do disco anterior. Mas neste, depois do Festival [da Eurovisão], começaram a pedir-me muito mais canções, então decidi que era a fase para me dedicar mais a escrever para outras pessoas. Sabia que não fazia mal e que a partir do momento em que eu decidisse começar a compor para mim parava de compor para os outros. Foi isso que aconteceu. A primeira canção que escrevi e que ficou no disco foi o single: O Melhor Presente. Comecei a escrever essa canção quando a minha filha [Rosa] fez 3 meses dentro da barriga. Supostamente era para ela e acabou por ser para o meu filho. Depois escrevi o disco todo durante a gravidez.

Este disco é quase um livro de histórias. De onde é que elas vêm?

Algumas são verdade. Bem, algumas são sobre mim.

Há essa divisão, que quem estiver à procura encontra, daquelas que falam da sua vida, como O Melhor Presente, ou Querida Rosa, certo?

Querida Rosa é uma carta de amor que eu gostava que um dia alguém cantasse à Rosa. Sinto isso: quando nós gostamos tanto dos nossos filhos queremos que alguém os ame muito um dia. A mesma coisa com o Benjamin, que seria o nome [da Rosa] se fosse rapaz. Não são cartas de amor minhas.

E as outras histórias?

A Dois Namorados é a historia da mãe de uma amiga minha. Ela contou-me e eu achei a coisa mais bonita do mundo. A Mesma Rua Mesmo Lado não é verdade. Imaginei-a eu. Depois pensei nisto: gosto muito d'O Amor em Tempos de Cólera [de Gabriel García Márquez]. É dos meus livros preferidos. Acho que uma pessoa amar alguém durante a vida toda é das coisas mais bonitas que há. O meu pai chora sempre no fim dessa canção: "Ele ficou sozinho?!" Eu: "Nunca sabes! Eu não disse que ele morreu." E o meu pai: "É a coisa mais triste do mundo. Já viste? Ele ficou sozinho." Pois eu vi, fui eu que escrevi. Por exemplo, a Não Sei Ser fala sobre o problema que eu tive na voz durante a gravidez inteira e que ainda tenho um bocadinho. Fiquei quase sem voz durante esta gravidez. Acho que acontece. Chama-se edema nas cordas vocais. Fiz concertos até ao fim, mas estava sempre muito rouca. E escrevi as canções todas de uma forma que as pudesse cantar. O disco chama-se Rosa porque foi muito condicionado por ela, mesmo dentro da barriga.

Não me considero cantora, eu considero-me uma cantautora. A minha voz é o veículo para eu expressar as minhas palavras. Eu não preciso de ser uma virtuosa, não sinto essa necessidade de ser uma grande cantora

É curioso quase ter ficado sem voz, porque a voz está muito exposta no disco.

E está ainda rouca. Eu podia adiar a gravação e esperar até ficar bem, mas pensei: "Não. Isto tudo fez sentido assim." Eu não me considero cantora, considero-me uma cantautora. A minha voz é o veículo para eu expressar as minhas palavras. Não preciso de ser uma virtuosa, nem sinto essa necessidade de ser uma grande cantora. Quero que as pessoas se emocionem com as coisas que eu digo através da minha voz - porque é o veículo - e não pela minha voz. O produtor também dizia que gostava dessa rouquidão. Eu pensei: "Se tudo se encaixou assim até agora, faz sentido que a voz também seja verdadeira."

Este produtor, Raül Refree, é muito diferente do Joe Henry, que produziu o seu disco anterior. Refree trabalha com a Sílvia Pérez Cruz, por exemplo. Porquê ele? O que trouxe ao disco?

Acho que tudo começou com um concerto que vi da Sílvia, no ano passado no CCB, e que foi dos concertos mais bonitos da minha vida. Eu adoro a Sílvia, é das minhas cantoras preferidas, senão neste momento a minha cantora preferida. Comecei logo com vontade de fazer um disco assim mais despido com as canções. A única diferença aqui é que eu acho que para a Sílvia o mais importante aqui não é a palavra, e para mim é. Adoro os discos da Sílvia e da Rosalía, que o Raül produziu. Sei que ele sabe muito bem trabalhar com cantoras, com o espaço da voz, com o espaço da palavra, com este lado mais despido. Eu vou sempre à procura do produtor que tem mais que ver com o que eu quero fazer naquele momento.

Como é o trabalho de um produtor nos seus discos?

Acho que é essencial num disco, dá uma sonoridade completamente diferente. O produtor é alguém que te vê de fora e vê o todo, o que faz sentido. No início eu disse que podíamos fazer com cordas, e ele que disse não, que já há imensa gente a fazer coisas com cordas. "Vamos fazer uma coisa diferente com um som muito clássico, de sopros." Então escolhemos uma tuba, um fliscorne e uma trompa. Ele disse: "Vamos ter este contraste do clássico com o jazz que há nas tuas harmonias." O Raül não só produziu como tocou na maior parte do disco. É como se fosse a pessoa que está a guiar o carro.

A Luísa decide o percurso e ele guia?

Sim, e eu sou o copiloto. Não passo para o banco de trás. Nunca. Ainda por cima eu, que sou muito controladora. Mas com o Raül foi muito fácil, porque nós temos a mesma maneira de fazer as coisas.

Pensou muito antes de incluir o Salvador Sobral numa das canções, Só Um Beijo?

Pensei um bocado. A certa altura pensei mesmo em não o colocar, e comecei a pensar noutras pessoas. Nunca o pus em nenhum disco meu, e não queria que as pessoas pensassem que era resultado do que se passou, da Eurovisão. E disse-lhe isso, porque eu vou entrar no disco dele também. Lembro-me de falarmos disso ao jantar - fazemos jantares ao domingo - e de a minha família me dizer assim: "Mas o que é que te interessa a ti o que as pessoas pensam? Se é isso que te apetece fazer e se achas que vai ser bonito, o que é que te interessa a ti?" E depois pensei: "Realmente, nunca condicionei a minha vida por causa disso, e vou condicionar agora?" Acho que estava um bocado traumatizada com a coisa toda da Eurovisão e de as pessoas falarem de nós.

"Dos" irmãos Sobral.

Exatamente. Como se fôssemos um. Passámos a ser Sandy & Júnior e eu preferia que fôssemos o Caetano [Veloso] e a Maria Bethânia. Têm duas carreiras e juntam-se quando lhes apetece. É isso que eu sinto que nós somos. Não com essa pretensão de ser igual a eles, mas o objetivo é haver essa separação. Fiquei superfeliz com o resultado [da canção]. Primeiro, é a canção com que a minha mãe só chora. Ela tem o Amar pelos Dois quando lhe ligam, ouve-se bip-bip, e por trás: "Meu bem..." Sentia: "OK, foi composta pela minha filha e é cantada pelo meu filho, já posso pôr no atendedor de chamadas." Porque antes tinha uma minha e o meu irmão ficou furioso. Agora que somos os dois a cantar tenho a certeza de que vai pôr esta no atendedor de chamadas dela.

Cheguei a gravar num estúdio cinco dessas canções com o meu irmão a fazer harmonias, mas com voz ainda de menina, fininha, fininha. Acho que só a minha avó é que tem isso.

Já compunha canções em criança?

Desde os 12, acho. Desde que comecei a tocar guitarra. Assim que comecei senti logo necessidade de escrever algo que fosse meu.

Eram histórias?

Aos 12 anos eu não era bem adolescente, mas, daquelas que eu me lembro, eram mais coisas de adolescente do género de o mundo ser todo diferente de mim e eu não me conseguir enquadrar. Eram assim meio dramáticas, mas a primeira foi aos 12, e era eu a divorciar-me. Era muito inspirada numa canção da Adriana Calcanhotto, Devolva-me. A minha era: "Podes levar os quadros..." Parece um bocado a canção da Ágata, no fundo. Por acaso, era bonito o que eu tocava na guitarra, e eu nem sabia o que era. Durante imenso tempo, inventava coisas da guitarra e não fazia ideia do que estava a fazer, era o que eu achava bonito. Ainda hoje às vezes faço isso. As minhas canções eram todas um bocadinho inspiradas noutras canções de que gostava, agora que penso nisso. Cheguei a gravar num estúdio cinco dessas canções com o meu irmão a fazer harmonias, mas com voz ainda de menina, fininha, fininha. Acho que só a minha avó é que tem isso.

Escrevia para ele? Faziam canções juntos?

Não. Só comecei a escrever para o meu irmão quando ele foi estudar música e me pediu algumas coisas.

Nós falámos da Eurovisão na altura, mas esse período raramente é assunto na nossa família. Temos sempre coisas para mostrar do que vem aí, e não do que aconteceu antes. Quase todos os domingos mostramos coisas uns aos outros

Só quando começou a ficar sério?

Exato. "Não andas aqui a brincar com as minhas canções." [ri-se]

Já conseguiram virar a página da Eurovisão?

Acho que os dois temos muito a noção de que aquilo foi uma coisa que aconteceu, foi muito engraçado, mas que não é a nossa vida. Eu nem sequer fui assim tão afetada por aquilo, positiva ou negativamente, porque na verdade quem deu a cara na maior parte das vezes foi ele. Para ele foi muito diferente, porque não era quase nada conhecido e de repente virou das pessoas mais conhecidas do país. Mexeu um bocado com ele porque nem é muito o género de gostar de lidar com essas coisas. Mas agora cortou o cabelo e ninguém o conhece, por isso está tudo bem. Nós falámos um bocado nisso na altura, mas esse período raramente é assunto na nossa família. Temos sempre coisas para mostrar do que vem aí, e não do que aconteceu antes. Quase todos os domingos mostramos coisas uns aos outros. Por exemplo, pessoas para quem eu escrevo, eles mandam-me a canção e eu mostro. Ou o meu irmão que está a escrever alguma coisa com alguém, mostra. Nós partilhamos muita música nos nossos jantares de domingo.

É sempre descrita como muito meticulosa, muito cuidadosa. Tudo é muito pensado em cada canção?

É muito pensado mas há espaço para a imperfeição. As coisas são cuidadas mas não têm de ser perfeitas. Eu não sou fã da perfeição musical. Por exemplo, a última canção [do disco], Envergonhado, sou eu a tocar e a cantar. É um take, não refiz nada. As partes em que falha a voz ou alguma coisa para mim fazem todo o sentido na emoção e na intenção da canção. E nós gravámos o disco todo assim: eu e o Raül na mesma sala, ele tocava e eu cantava, e se gostávamos ficava aquele take. Nunca procuro uma perfeição musical, mas sou perfeccionista nas outras coisas e exigente com o meu trabalho: como é que vai ser a capa, qual é a fábrica de vinil? Mas não procuro uma perfeição musical porque isso não existe, nem é humano. Acho que depois as outras pessoas ao ouvir também não sentem as coisas quando elas são tão manipuladas para ficarem perfeitas. Acho que, como somos seres humanos imperfeitos, não as sentimos. Prefiro deixar sempre as coisas de uma forma verdadeira, como elas aconteceram.

Ainda faz esse exercício de fazer canções a partir de canções, como diz ter feito em criança, embora agora, claro, de forma madura?

Talvez, sem pensar muito nisso. Por exemplo, houve uma canção que me inspirou imenso para o Amar pelos Dois, com esse mesmo sentimento de altruísmo, de amarmos tanto uma pessoa que não nos importamos que não nos ame, preferimos ficar com ela na mesma: a canção do Sting que se chama Practical Arrangement. É das minhas canções preferidas dos últimos anos, e ele fala disso. Sabe que ela não pode prometer amá-lo, mas não se vai importar, vai amá-la na mesma, tomar conta do filho dela, e eu achei tão bonito tudo o que ele diz. Esse sentimento ficou-me na cabeça. Às vezes acontece-me: há sentimentos e ideias que me ficam na cabeça e depois uso-os em canções. Agora acontece-me inspirar-me em frases. Depois é como um escritor que escreve um livro, não é?

Olhando para trás percebe que é muito formada por canções, como há quem se forme nos livros?

Sim, sim. Tem muito que ver com o meu pai, que ouvia muitos cantautores, muito [Bob] Dylan, Beatles, canções só do Lennon, só do McCartney, e lembro-me de ele me explicar a mim e ao meu irmão as histórias por trás das canções. Acho que isso fez que eu ficasse fascinada com as histórias por trás das canções. A minha mãe também ouvia Leonard Cohen. Então eu ouvia muitos cantautores, em que a palavra era muito importante. Mesmo em português ouvia muitas canções do Rui Veloso, com as letras do Carlos Tê, que são maravilhosas, muitas canções com letras do João Monge, como do Rio Grande, por exemplo. Quando gravei essas canções no estúdio com o meu irmão [aos 12 anos], a minha mãe mostrou a um amigo que na altura estava no mundo da música e ele disse: "A tua filha já tem muita noção de estrutura de canção." Lembro-me de ele dizer isso e eu pensar: "Claro, eu só oiço isso. Eu só sei isso."

Essa compreensão das letras é uma coisa que normalmente está reservada a uma idade mais tardia, quando começamos a pensar no que cantamos.

Exato. E eu também acho que comecei a perceber muito melhor as músicas quando comecei a falar inglês. Nas portuguesas também havia algumas que eu inventava: "Disseste que se eu fosse ao gás." Não acho que fosse a única criança a cantar isto. Ou "o prometido é de vidro". E as letras dos GNR, que eu não percebia naquela altura, nem hoje em dia a maior parte. Fui desenvolvendo uma vontade de perceber.

Eu gosto de escrever assim, para toda a gente. Gosto que toda a gente se possa emocionar com o que eu escrevo. Gosto de escrever com esta poesia do dia a dia. O [João] Monge faz muito isso e de uma forma genial. O mundano torna-se poético

Na canção Envergonhado usa uma expressão muito portuguesa quando canta: "Perdoa então, meu bem, o meu modo abrutalhado."

A minha mãe na altura disse-me para eu não pôr essa palavra: "Não gosto muito que digas 'abrutalhado'." No dia em que eu estava a gravar essa canção mandei uma mensagem ao Miguel Araújo e disse assim: "Olha Miguel, tu és das pessoas em quem eu mais confio na escrita de canções, diz-me se achas mal eu dizer isto. Eu acho graça dizer que sou abrutalhada, porque estou a canção inteira a dizer que não tenho muito jeito com as palavras e que não tenho muito jeito a expressar os meus sentimentos, portanto eu sou essa pessoa que diria abrutalhado. Também tenho estas opções..." E ele disse: "Não, não, acho que devias pôr abrutalhado." OK, o Miguel disse, eu vou pôr. Tentei cantar "abrutalhado" de uma forma levezinha.

Sente que estas são canções que pode cantar em qualquer lugar?

Para mim este não é um disco comercial, mas é um disco muito fácil de ouvir. Não há palavras que as pessoas não saibam o que são. É uma poesia muito fácil. Eu gosto de escrever assim, para toda a gente. Gosto que toda a gente se possa emocionar com o que eu escrevo. Gosto de escrever com esta poesia do dia-a-dia. O [João] Monge faz muito isso e de uma forma genial. O mundano torna-se poético e ele é uma inspiração muito grande para mim. Acho que posso cantar este reportório em qualquer lado.

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