Premium A pergunta

O período entre uma e outra eleição é, no fundo, o tempo que se demora a formular uma pergunta. E a eleição em si o prémio para a melhor resposta.

Depois dos cinco anos em que a cadeira presidencial foi ocupada por dois vices promovidos à pressa, José Sarney e Itamar Franco, e por um titular, Collor de Mello, que caiu dela, tomemos a eleição de 1994 como ponto de partida da redemocratização brasileira.

Naqueles anos, apesar da fome e da desigualdade social serem muito maiores do que hoje e de a corrupção existir em doses ainda mais profundas do que nos anos que se seguiram, embora confortavelmente varrida para debaixo do tapete, a inflação era o problema.

Chegava a quatro dígitos ao ano, obrigava a atualizações hora a hora dos preços dos bens nos supermercados e estrangulava a classe média ao ponto de ainda hoje a palavra, quando proferida, causar um arrepio na espinha dos brasileiros que a ouvem.

A pergunta dos anos anteriores a 1994 foi, portanto, "quem vai dominar o demónio da inflação"? A resposta, dada nas urnas, foi "Fernando Henrique Cardoso". Afinal, embora sociólogo de formação, FHC havia coordenado, enquanto ministro da Fazenda de Itamar, a hábil equipa de jovens economistas que elaborara o Plano Real e acalmado o aumento contínuo e generalizado dos preços.

O governo do presidente eleito - e reeleito - começou a acusar, entretanto, o desgaste natural de anos a fio no poder e a sofrer com o aumento do desemprego.

Quem vai resolver esse novo problema? É aí que o povo, depois de três eleições a deixá-lo em segundo lugar na corrida eleitoral, resolve dar uma oportunidade a Lula, um sindicalista, atividade que costuma perceber de emprego. Como o rival, José Serra, vinha de dentro do governo que causara o problema, a Lula bastou prometer dez milhões de postos de trabalho e escrever uma Carta ao Povo Brasileiro, na qual se comprometia com uma agenda de centro, para vencer.

O governo deu certo, a ponto de merecer não só a reeleição de Lula como a eleição de Dilma Rousseff, que, afinal, respondia apenas à simples pergunta: "Quem vai manter o país relativamente próspero e inclusivo, na senda de Lula?"

No governo dela, além da crise económica, explode a Lava-Jato, operação que em três anos derrubou praticamente todos os políticos com pretensões, como Aécio Neves, cujo capital eleitoral em 2014 parecia fadá-lo ao Planalto em 2018, não tivesse o PSDB, dele, de Serra e de FHC, sido atingido em cheio pela ação policial, mesmo tendo estado na oposição federal como suposto contraponto ao PT.

De 2014 a 2018 geraram-se então perguntas, como, por exemplo, "quem, em Brasília, não está, afinal, envolvido em casos ou suspeitas de corrupção?" - da qual sobraram poucos, não necessariamente os melhores.

Segunda pergunta: "Quem, depois de 13 anos de esquerda, que culminaram com pesada recessão e em que as pautas liberais nos costumes avançaram tão rapidamente, pode, à direita, corresponder aos anseios económicos e sociais da maioria?" - de centro-direita, laico e chamuscado na Lava-Jato, o PSDB não pôde servir de resposta, deixando o caminho livre ao radicalismo de Jair Bolsonaro.

A outra pergunta que surgiu - "mas ele não é machista, homofóbico, louco por armas, adepto da tortura, apoiante da ditadura militar, em suma, um retrocesso civilizacional?" - foi considerada secundária pela maioria dos eleitores, que achou que valia a pena o risco, até porque o primo do norte, os EUA, fez uma escolha comparável e a economia está a crescer.

Para 2022 já se movem as "respostas", na forma do próprio Bolsonaro, do seu superministro da justiça Sérgio Moro, por um lado, e de Fernando Haddad e de Ciro Gomes, por outro.

Mas não se sabe qual é a resposta certa porque a pergunta estará em plena gestação até 2022, não só no Brasil como no mundo.

Essa pergunta pode ser: "Quem nos mantém no trilho do liberalismo económico e do conservadorismo social traçados por Bolsonaro?"

Ou, então, "quem, à esquerda ou na direita moderada, oferece uma alternativa melhor a quatro anos de autoritarismo, de obscurantismo intelectual, de maccarthismo fanático, de neopentecostalismo político, de desmatamento da Amazónia e de perseguição às minorias?".

Seja qual for a pergunta certa, haver espaço para perguntas já será bom.

Em São Paulo

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