O que fazer com os turistas a mais

Chega o verão e voltamos a reparar nas ruas cheias de turistas. Este é um fenómeno tão moderno como interessante. Pode o turismo destruir-se a si próprio? Pode. Mas tem de ser tratado com pinças. O que há de bom e de mau no turismo - e como lidar com ele.

Por estes dias Lisboa permitiu que aviões aterrassem no aeroporto durante toda a noite - violando as leis do ruído. Motivo: os voos trarão adeptos para a Liga das Nações. Por estes dias os funcionários do Louvre fizeram greve, fechando o museu por um dia. Reivindicação: proteger o museu do excesso de turistas para os quais, garantem, não está preparado. "O Louvre está a sufocar", disseram os funcionários. Não é difícil ter essa sensação perante uma Mona Lisa afogada em câmaras e telemóveis.

Recentemente morreram, também sufocados, uma dúzia de turistas nos Himalaias - não conseguiram passar em segurança a zona da morte, assim chamada pela rarefação de oxigénio, porque havia demasiadas filas de turistas a descer. Já sabíamos das praias estragadas na Tailândia e em Maiorca, um navio de cruzeiros a abalroar um pequeno vaporetto em Veneza, Dubrovnik com degraus de pedra desgastados porque não foram feitos para os milhões de pés que os percorrem, o Parque Güell, em Barcelona, com duas horas para entrar. Mas filas no Evereste devia ser um ponto de não retorno - um dia D da reflexão sobre o turismo e o que este fenómeno contemporâneo está a fazer ao mundo como o conhecíamos.

O fenómeno do turismo em excesso fala também da crescente superficialização da vida. Mais importante o que mostramos do que o que somos.

O turismo é um dos mais modernos sinais de um mundo em mudança. Fala de economia, e de várias formas. De uma classe média que começou a crescer no século XIX e hoje é dominante. De como a digitalização embarateceu processos - nomeadamente na aviação, permitindo voos mais baratos (mil milhões de voos low cost, todos os anos) - e mudou a organização das coisas, aluguer de quartos sem ser em hotéis, e de carros sem ser táxis. E de como os mercados se vão adaptando - sendo hoje vários os países completamente dependentes desta indústria que move nove triliões de dólares em todo o mundo.

O fenómeno do turismo fala também de sociologia. De como as experiências ganharam importância face aos valores materiais, de como a mobilidade social passou a ser medida, também, pelo que se conhece e não apenas pelo que se tem. E, se quisermos ir mais longe, de como é antagónica a ideia do medo do outro nos lugares onde vivemos, com as paranoias sobre imigração, e a vontade de o ir ver, lá longe, onde ele mora.

O fenómeno do turismo em excesso fala também da crescente superficialização da vida. Mais importante o que mostramos do que o que somos. Para isso contribui o efeito do olhar externo e a crescente socialização de todas as experiências, nas redes sociais. Ninguém precisa de se deixar fotografar com a Mona Lisa para experienciar o quadro. Dir-se-ia que uma coisa é até impeditiva da outra. Aquele quadro exige um momento de introspeção, de reflexão, de absorção. Aquele quadro exige uma missa, não um concerto pop.

Por isso, demasiada gente quer viajar, como dizia um título da revista 'Atlantic'. O que há a fazer sobre isso, num mundo liberalizado como o nosso? Pouco.

O turismo nefasto é mais uma das consequências laterais das redes sociais. Dos instagrams que nos sentimos obrigados a fazer, em sorrisos em frente à Acrópole. Parte do sentido - e valor - da viagem é o que partilhamos dela. E isso torna-nos ávidos consumidores de imagens e ideias feitas. E, sobretudo, viajantes nunca saciados com mais um carimbo no passaporte das coisas "que temos mesmo de ver". Viajar é o mais recente patamar da sociedade de consumo.

Por isso, demasiada gente quer viajar, como dizia um título da revista Atlantic. O que há a fazer sobre isso, num mundo liberalizado como o nosso? Pouco. Há uma parte que passa por dar "literacia" turística aos que viajam. Haverá também os que se cansarão de estar sempre nos mesmos lugares onde os outros vão, e irão divergir em destinos e modos. Podem também impor-se quotas e taxas ajudando a minorar os efeitos. Mas certamente não é isso que vai preservar histórias e autenticidade.

E é por isso que este é um assunto a ser gerido com pinças e inteligência. É que estas são o santo graal deste negócio: quando tudo for igual a tudo, vai haver alguma vontade de conhecer o novo, que é igual ao que já conhecemos?

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