Do vício - heroicamente - à virtude

Todos os cigarros que o mundo fumou até outro dia têm sido apagados das imagens. Mas será possível apagar o passado?

Acredite ou não, mas, quando se ia ao cinema no passado, assistia-se a cenas como estas. Em Estranha Passageira (1942), clássico romântico do cinema americano, Bette Davis pede um cigarro a Paul Henreid. O galã, sensualíssimo, tira do maço e põe lentamente na boca dois Lucky Strikes. Acende-os com um único fósforo, solta a baforada e passa um dos cigarros acesos a Bette. Esta aceita-o com a mão enluvada, leva-o aos lábios e devolve a tragada pelas narinas. O público suspirava.

Quando um filme terminava, a primeira providência a tomar era acender um cigarro, já que, supostamente, não se podia fumar com o filme em andamento. Não se precisava sequer chegar à rua ou mesmo ao saguão. Se o filme fosse com Humphrey Bogart, os rapazes já se levantavam acendendo seus cigarros à moda de Bogart - fazendo uma parede com quatro dedos para proteger a chama do vento -, embora, dentro da sala, raramente ventasse. E, quando Bogart contracenava com Lauren Bacall, sabia-se que teria uma fumadora à sua altura. Mas isto não era vantagem porque, fora do ecrã, eles eram marido e mulher, e fumavam até debaixo do chuveiro.

Marlene Dietrich, Peter Lorre, Ava Gardner, Rita Hayworth, Gloria Grahame, Susan Hayward, James Dean, Sean Connery, Steve McQueen, Charles Bronson e John Travolta foram alguns dos grandes fumadores do cinema. Era raro o filme em que eles não fumassem. Faziam isso mesmo quando o personagem não fumava. Até Fred Astaire - que, como dançarino, era exigente quanto à qualidade do oxigénio que respirava - fumava em seus filmes com Ginger Rogers. No que não havia nada demais porque, na vida real, Astaire era garoto-propaganda dos cigarros Chesterfield. E, em Lua de Papel, deliciosa comédia de Peter Bogdanovich, de 1973, Tatum O'Neal, filha de Ryan O'Neal, deve ter sido a fumadora mais jovem da história do cinema - tinha 10 anos quando fez o filme.

Os cigarros e seus congéneres estavam em todas as telas do passado, inclusive as que exibiam os desenhos de Walt Disney. No primeiro filme que ele produziu, Steamboat Willie (1928), Mickey fumava cachimbo. Em Pinóquio (1940), a raposa João Honesto, o gato Gedeão, o vilão Stromboli e os miúdos da ilha dos Prazeres fumam charutos - o próprio Pinóquio é levado a fumar numa cena. Em Alice no País das Maravilhas (1951), a Lagarta fuma narguilé e produz lindos anéis de fumaça que formam letras. E, em Peter Pan (1953), o Capitão Gancho fuma dois cigarros ao mesmo tempo por uma piteira com duas saídas. Chocado? Não fique - porque Walt Disney também fumava. Aliás, todo o mundo fumava - padres, professores, juízes, ventríloquos, escafandristas, presidentes da República. Sendo assim, por que razão os heróis dos desenhos animados não fumariam? Até os médicos fumavam!

Hoje, nenhuma daquelas cenas seria possível no cinema. A consciência antitabagista venceu. Nos filmes atuais, um casal pode fazer sexo explícito em cena e ninguém se chocará. Mas se, em seguida, o homem acender um cigarro, como se costumava fazer, haverá gente na plateia limpando um pigarro imaginário ou esbravejando.

Em Paris, em 2009, os franceses começaram a aplicar as suas leis antifumo. Um dos primeiros atingidos foi o filme Gainsbourg - Vie Héroïque, sobre o cantor e compositor Serge Gainsbourg, morto em 1991. O affiche do filme não podia ser exposto no metro. Motivo: o protagonista aparecia com um cigarro entre os dedos e o rosto em meio a uma nuvem de fumaça. Se o exibisse, o Metro seria multado em cem mil euros, por "incitação ao consumo de tabaco". Mas como mostrar Serge Gainsbourg sem um cigarro na boca ou longe de uma nuvem de fumaça?

Fumar era a principal atividade de Gainsbourg, exceto - talvez - quando estava fazendo amor com deusas como Brigitte Bardot, Jane Birkin, Catherine Deneuve e Isabelle Adjani, que foram suas namoradas. Algumas correntes filosóficas asseguram que, na verdade, Gainsbourg fumava até quando estava na cama com elas. E elas não se importavam. Talvez até vissem nos seus cigarros um símbolo fálico.

Se Serge Gainsbourg não podia ser mostrado fumando, como os franceses fariam com as imagens de tantas pessoas maravilhosas da sua cultura moderna? O poeta Jacques Prévert, por exemplo, nunca foi fotografado sem um Gauloise no canto da boca. Jean-Paul Sartre e Albert Camus também não. E, como eles, os atores Jean Gabin, Michèle Morgan, Charles Boyer, Yves Montand, Simone Signoret, Jeanne Moreau, Jean-Paul Belmondo. O cineasta Jean-Luc Godard. Os cantores Serge Reggiani, Jacques Brel e Charles Aznavour. Todos fumavam sem parar. Pois, nos últimos anos, sempre que você os viu sem fumar nas fotografias, fique certo de que as fotos foram "editadas" - retocadas para desaparecer com os cigarros. Até o inocente cachimbinho (sempre apagado) de M. Hulot, o personagem de Jacques Tati, foi removido dos affiches de Meu Tio, seu genial filme de 1958. É possível que outros personagens também já tenham sido "corrigidos": o aventureiro Arsène Lupin deve ter perdido a sua piteira; o inspetor Maigret, o cachimbo; e o capitão Haddock, de Tintin, idem.

Eu próprio parei de fumar há quase 15 anos e, hoje, sou a favor de se restringir o fumo em todos os ambientes fechados. Mas sou contra a que se tente "corrigir" o passado. Ao retocar as imagens que nos mostravam fumando, isso não apagará os cigarros que efetivamente fumámos. E, pior, impedirá que se valorize o facto de que cada um de nós, ex-fumadores, passou heroicamente do vício à virtude.

Jornalista e escritor brasileiro, autor de O Anjo Pornográfico - A Vida de Nelson Rodrigues (Tinta-da-China).

Exclusivos