Premium Uma Padaria Portuguesa

Reparo que fechou uma padaria na rua ao lado da minha. Nunca lá entrei mas recordo-me de entrever pela porta um casal idoso e curvado atrás do balcão de mármore. Na montra estão ainda pães de diversas qualidades empilhados numa prateleira de vidro. O sol tem-lhes roubado a cor e parecem agora fósseis ou uma fotografia antiga que o tempo vai apagando. Na verdade são uma e a outra coisa.

Espreito lá para dentro através do vidro sujo e vejo o chão coberto de contas do gás e da luz e folhetos de supermercados. O balcão ainda lá está, assim como os móveis de madeira pintados de verde. Só o casal idoso não.

A pouco e pouco vão fechando as lojas antigas dos Anjos, com senhoras e senhores de cabelos brancos. No seu lugar surgem hostels com nomes estrangeiros ou a palavra Lisboa reduzida a LX (pergunto-me como se pronunciará, na minha cabeça é sempre "lixem-se"), restaurantes asiáticos, lojas de produtos gourmet e até padarias modernas que se esforçam muito por imitar as velhinhas.

O tempo segue e nós com ele, o saudosismo e a melancolia são bons para a literatura, mas péssimos para o negócio. Ainda assim recrimino-me por nunca lá ter comprado meia dúzia de papos-secos, recordaria agora o sabor dos fósseis e talvez a boca não me amargasse.

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

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Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.