E cinco minutos depois todo o mundo sambava

O Canarinho Pistola, o Psicopata do Hexa, a ressaca dos 7-1, a maldição de Kazan. Como os brasileiros caíram, e logo a seguir se levantaram, à Neymar, após a eliminação do Mundial

"Galera, o negócio agora é tomar uma ceva [gíria brasileira para cerveja] e esperar quatro anos", pediu o rastafari, e futebolista frustrado, João Farignoli, que animava o bar de violão nas mãos. E a galera foi no ritmo de Farignoli: cinco minutos depois do apito do árbitro, já sambava feliz. No Brasil, a tristeza, por mais que se justifique, e uma eliminação na Copa é como um tremor de terra com epicentro no coração de cada brasileiro, não dura uma balada inteira do Chico, um poema do Drummond ou um remate seco do De Bruyne. Neste bar, cujo primeiro nome é Noronha, em referência à ilha de Fernando de Noronha, e o segundo é Alto Astral, em homenagem ao eterno estado de espírito brasileiro, o negócio foi mesmo tomar uma ceva. "E pode até ser uma ceva belga, hein?", atirou, com largo sorriso, Farignoli para a galera.

Hugo Gazola, dono do bar localizado em Ribeirão Preto, cidade 300 quilómetros a norte de São Paulo, e Juninho Costa, promotor de eventos do local, viram na sugestão uma oportunidade de negócio: "Agora, a cada jogo até ao fim da Copa, podemos prometer uma rodada grátis de cerveja belga." O Noronha Alto Astral apostou forte nos jogos do Mundial e não pode parar só porque a seleção de Tite e Neymar parou - assim como os concorrentes Bar do Jacaré e Salz Bar ou o vizinho Bar da Copa, que nasce de quatro em quatro anos, vive e morre em função do torneio. No Brasil, o Mundial enche as ruas do país de vendedores de bandeiras e cachecóis, fecha repartições públicas, escolas, supermercados e adia até cirurgias urgentes. "Nós somos a exceção", lembrou o casal de médicos Guilherme e Juliana, que esteve de plantão no hospital e só chegou ao Noronha a meio do hino brasileiro.

E poucos minutos depois do hino, Fernandinho marcava. Mas na baliza errada: Bélgica 1-0. De Bruyne acrescentaria mais um logo a seguir. "Sensação de sete a um? Não diria tanto...", disse Alex Cassiano, o garçom, enquanto distribuía cevas. No entanto, na internet, os memes não perdoaram: "O inimigo não foi eliminado, está apenas disfarçado", lia-se na legenda de uma montagem com as bandeiras, de cores iguais, da Alemanha, a responsável pelos 7-1 que eliminaram o Brasil em 2014, e da Bélgica. "O Neymar cai muito? Experimenta colocar lá o Temer, que não cai nem a pau", afirmava noutro meme.

"Mas porquê? Parecia haver tanto talismã, o Canarinho Pistola, o Psicopata do Hexa...", lamentavam-se os empresários Camila e Gabriel, e até o seu cão Zeus, desesperados com as defesas de Courtois. O Canarinho Pistola foi a popular mascote oficial da seleção na Rússia - assim chamado porque tem a sobrancelha franzida, que lhe dá ar zangado, ou seja, "pistola", no calão brasileiro. E o Psicopata do Hexa é Igor Troskyi, um russo de Samara, tornado celebridade no Brasil após ser filmado uns segundos durante o Brasil-México, dos oitavos-de-final, com a bandeira verde-amarela e cara de vilão alucinado de filme de terror. O engenheiro de foguetões, profissão que ajudou a aumentar o mito, virou amuleto, ao ponto de ter sido levado por brasileiros ao duelo com os belgas em Kazan.

"Ai Kazan, Kazan", lamentava-se Galvão Bueno, o mítico narrador da TV Globo que o Brasil ama odiar mas de cujos relatos não consegue fugir. A maldição de Kazan foi mais forte do que o Pistola e o Psicopata: afinal, foi lá, lembrava Galvão, que Alemanha e Argentina, outros favoritos, se despediram da Rússia. "Que cidade, que drama", continuou o narrador, com o comentador Ronaldo Fenómeno, com ar pesaroso, ao lado.

No Bar Noronha o clima de pesar também se instalou. Mas não durou mais do que uma balada do Chico, um poema do Drummond ou um remate seco do De Bruyne. Os donos do bar trataram de emudecer Galvão e Ronaldo, o cantor rastafari decretou o fim da tristeza e a galera sambou, feliz. E ao fundo alguém gritou "em 2022 vai dar Brasiuuuu".

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