De quantas crises sofre a UE?

AUnião Europeia assemelha-se hoje a uma vítima acidentada, padecendo de múltiplas fraturas, colocando perante os médicos de urgência a questão fulcral de escolher onde atuar primeiro. Há fraturas que doem, mas não são letais, e podem esperar por tratamento. Há hemorragias internas, indolores e invisíveis, que se não são debeladas com rapidez podem significar a perda de uma vida.

Quem pense que os governantes dos países europeus são os mais capacitados para fazer as escolhas que poderiam curar o debilitado corpo da UE engana-se redondamente. Cada país olha para o seu umbigo, e no máximo aquilo que pessoas como Merkel e Macron conseguem fazer é substituir a seriedade de um verdadeiro diagnóstico - que obrigaria a escolhas e compromissos terapêuticos - pela lógica da "lista de compras", que aqui exemplificámos a propósito do alegado entendimento franco-alemão em Meseberg.

Para mim, a única crise vital do projeto europeu reside no euro. Todas as outras patologias, incluindo a fobia populista perante a miséria humana que nos pede alívio, são consequências das desastradas opções tomadas entre 1991 e 1999, agravadas depois de 2010, em torno do euro.

No último Conselho Europeu, Mark Rutte, PM holandês, que tem capitaneado a revolta contra as tímidas sugestões reformistas de Macron, não cessou de perguntar em voz alta: "Para que querem um orçamento da zona euro?" Trata-se de uma pergunta tola, mas que nos ajuda a ir ao problema principal da doença que acomete a UE. Nos anos decisivos de 1990-1992, o país onde mais se discutiu o euro foi a Alemanha. Em França, acreditava-se no poder miraculoso de uma moeda comum.

Já em 1950, o conselheiro do Eliseu Jacques Rueff afirmava: "A Europa será feita através da moeda ou não será feita." Em Berlim, pelo contrário, suspeitava-se da possibilidade de a mera convergência nominal poder fazer desaparecer, miraculosamente, as dificuldades inerentes à divergência real das economias que iriam querer participar na moeda comum. O chanceler Kohl considerou "absurda" a tese de uma moeda europeia sem união política (Bundestag, 6 de novembro 1991). Em 11 de junho de 1992, 62 economistas alemães alertaram num manifesto para o "perigo para a Europa", representado por uma moeda que, não dispondo de uma base política, impediria a existência de "transferências" (Transferzahlungen) para acudir aos países necessitando de uma "compensação financeira" (Finanzausgleichs), em caso de um "choque assimétrico".

Berlim mudou depois de posição, abraçando o "absurdo" criticado por Kohl. Esta partilha de soberania monetária, sem suporte orçamental, transformou-se num jogo onde uns ganham o que os outros perdem. Mas no fundo e no final todos perderão. Um orçamento europeu seria uma prova de verdade na aposta num destino comum. Um orçamento, financiado pelo IRS e o IRC dos cidadãos e empresas europeus poderia ter evitado a troika, apoiaria a despesa social dos Estados e o investimento em projetos comuns, financiaria o controlo das fronteiras externas, mitigaria o esforço nacional no acolhimento dos refugiados, ajudaria até a construir uma defesa europeia, prevenindo o aventureirismo pós-imperial de alguns países, como ocorreu no Iraque, na Líbia e na Síria. Com um euro que prende em vez de unir, estaremos sempre próximos de ver a UE partir-se em colisão contra os pesadelos tribais do nosso passado.

Professor universitário

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