Premium Afinal havia outro

Se recuarmos ligeiramente no tempo ou aprofundarmos um pouco mais o que tem sido decidido na NATO, concluímos que há um desfasamento entre um roteiro de posições estratégicas e a pública clivagem crescente entre aliados europeus e canadianos, por um lado, e os EUA, do outro. Desde que a Rússia invadiu a Crimeia em 2014, os aliados europeus envolveram mais 30% das suas tropas em missões da NATO e, em conjunto, investiram mais 46 mil milhões de euros na Defesa.

Em paralelo, a Aliança decidiu estruturar dois novos comandos, um deles focado na segurança do Atlântico e outro na mobilidade militar a partir da Europa, além de terem chegado a um acordo importante sobre segurança no mar Negro, sinalizando dessa forma que a Rússia não pode determinar unilateralmente o destino de uma região sem ter em conta os interesses de todos, incluindo a Geórgia, a Roménia e a Ucrânia. Por fim, os aliados assumiram também o compromisso de alocar mais de mil milhões de euros a uma nova sede da NATO em Bruxelas, a qual receberá nos próximos dias, pela primeira vez, uma cimeira de alto nível. Ou seja, não é verdade que a NATO esteja a desinvestir nem que os europeus estejam a chutar para canto as suas responsabilidades. Aliás, as pressões públicas da Casa Branca e do Pentágono têm mais de uma década, não nasceram com Donald Trump.

O dado novo é que o atual presidente resolveu transformar uma necessária mas doseada pressão americana num bullying constante aos europeus num momento extremamente complexo para a sustentabilidade da coesão continental. Nesta última semana, num comício no estado do Montana, o presidente americano chegou mesmo a dizer aos seus partidários: "A Europa mata-nos no comércio e na NATO." Nunca um presidente ousou chegar a este nível.

Mais: Trump resolveu encaixar esse bullying numa agenda punitiva à Europa que passa tanto pela segurança, como segue pelo comércio, como resvala para a imigração, para terminar na perversidade que a UE significa para os interesses americanos. Isto sim, é uma revolução na política externa americana do pós-guerra: não lhe chamemos isolacionismo, mas antes desagregacionismo. Trump não só despreza as tradições na política de alianças desenhada por Washington após 1945 e 1989, e que provou ser o garante de um modelo de sucesso na primazia americana da ordem internacional, como não tem nenhum interesse em ouvir a experiência acumulada entre a vasta comunidade de política externa e segurança que a administração, independente de quem a lidera, tem ao seu serviço.

No mesmo comício do Montana, depois das considerações sobre os aliados europeus, fez questão de se referir a Putin de forma elogiosa. Mais uma vez, excessiva e intrigantemente elogiosa, no seguimento de uma narrativa altamente depreciativa sobre a Europa e a União. Só falta mesmo passar a usar as T-shirts que Matteo Salvini gosta de ostentar com a cara de Putin estampada. Como dizia o general McMaster, ex-conselheiro de segurança nacional de Trump, "o presidente pensa que pode ser amigo de Putin. Não percebo porquê nem porque quer ser". Como sabemos, o general não durou muito tempo no cargo.

"Na véspera da cimeira da NATO, o nível de ansiedade nas principais capitais europeias é alto. Ninguém sabe ao certo o tom que Trump usará ou ao que dará prioridade"

Na véspera da cimeira da NATO, o nível de ansiedade nas principais capitais europeias é alto. Ninguém sabe ao certo o tom que Trump usará nem mesmo ao que dará prioridade ou deixará cair. De uma coisa, porém, todos estão certos: a cimeira com Putin marcada para 16 de julho em Helsínquia - depois de inviabilizados os convites para visitar a Casa Branca em novembro e março passados - será muito provavelmente a grelha que balizará o que pode ou não acontecer em Bruxelas.

Por outras palavras, depois de ter conseguido congelar sine die o alargamento da NATO à Geórgia (já referendado no país) após a guerra de 2008, e da Ucrânia (com a guerra a Leste), Putin volta a conquistar um direito de veto informal à mesa do Conselho do Atlântico Norte, com a enorme diferença de ter na presidência dos EUA um admirador. Estrategicamente, Moscovo já ganhou. Foi precisamente esta vitória que Kim Jong-un garantiu antes de se reunir com Trump em Singapura: o reconhecimento de um estatuto ilusório de paridade para ser vendido internamente.

"Num comício no estado do Montana, o presidente americano chegou mesmo a dizer aos seus partidários: "A Europa mata-nos no comércio e na NATO"

Se recuarmos a Singapura, vemos que, sem especiais garantias no cumprimento das promessas norte-coreanas, Trump decidiu praticamente sozinho congelar os exercícios militares com a Coreia do Sul, fazendo soar imediatamente o alarme em Seul e em Tóquio. A ver pela facilidade com que a Casa Branca está disposta a dar concessões ao seu interlocutor, ainda para mais com o grau de confiabilidade que merece, toda a atenção será pouca quando Trump chegar a Bruxelas com os olhos em Helsínquia. Podem as cedências à Rússia de Putin passar pela retirada das 35 mil tropas americanas estacionadas na Alemanha, depois dos recentes ataques públicos ao governo de Merkel? Pode a concessão passar pela desvalorização da invasão da Crimeia e da manutenção da guerra de baixa intensidade no Donbas, gerando uma clivagem imediata com as posições de Kurt Volker (muito próximo da linha McCain dentro do GOP, sensível à ameaça russa) e representante especial da administração para a Ucrânia, abrindo mais uma ferida partidária antes das eleições de novembro para o Congresso? Haverá, depois do obtuso convite no G7, algum outro que estenda o tapete ao Kremlin sem que estejam salvaguardados previamente o cumprimento das obrigações a que deve estar vinculado, como o respeito pela soberania de terceiros, a retirada da Ucrânia, ou a total ausência de intromissão em eleições no Ocidente? Ninguém na Europa parte para a cimeira da NATO com qualquer resposta a estas perguntas.

Trump é o único que as tem no bolso. Neste sentido, é igual a Putin: centra a imensa ansiedade europeia nas suas imprevisibilidades. Pior do que isso: estrategicamente também convergem perigosamente, pois promovem uma pressão desagregadora da União Europeia e mostram-se perfeitamente confortáveis com a missão.

No fundo, este artigo podia muito bem intitular-se "Vladimir Trump". Não me levem a mal se ainda tiver uma réstia de esperança de nunca o chegar a escrever.

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