A Sra D. Louise e a política

Eu até me acho com mais direitos em Lisboa do que a Madonna. Vivo cá há 50 anos, conheço a cidade como a palma das minhas mãos, ainda ela andava a dizer que se portava como uma virgem já eu andava pelas casas de fado. E tenho a certeza absoluta de que ela vive com muito mais desafogo financeiro do que eu - que já não vivo mal. No entanto, a câmara da minha cidade resolveu ceder uns quantos lugares de estacionamento baratos à Madonna. Fê-lo sem cometer nenhuma ilegalidade, cumprindo as necessárias formalidades e, como já é público, não é caso isolado, longe disso.

Eu, estava capaz de jurar, quando ponho uma foto de uma viela de Alfama no meu instagram a coisa tem impacto. Pelo menos junto da minha dúzia de seguidores. Já se a Madonna fizer um post na mesmíssima viela ou numa qualquer praia próxima de Lisboa, isso faz que um cidadão de Pequim ou de Plymouth fique muito curioso com este país e esta cidade de que a cantora seguida por milhões parece gostar tanto. Tanto que, de todos os países do mundo, foi aqui que ela decidiu viver e criar os filhos.

Quem diabo é a Madonna para ter lugares de estacionamento a bom preço e eu não?

Entendo os que como eu vivem em Lisboa e se veem gregos para estacionar, como também percebo os que se estão borrifando para a Madonna e o que ela acha ou deixa de achar sobre a nossa cidade. Se a senhora vivesse no Burkina Faso ou em Split, a minha vontade de ir a esses locais seria exatamente a mesma que tenho hoje, ou seja, nenhuma. Não me acho, porém, melhor do que aqueles que se sentem influenciados pela Madonna e tento morder a língua de cada vez que chamo provinciano ou parolo a pessoas que não pensam como eu (já fui a Lima e ando com muita vontade de ir a Hydra por causa de uns rapazes que eu cá sei).

O que a Câmara Municipal de Lisboa fez no caso do estacionamento da Madonna chama-se política. Achou que o que a Madonna tem feito para promover a cidade é suficiente para que lhe sejam dados alguns benefícios especiais - repito, dentro da lei. Que os turistas que ela ajuda a trazer para Lisboa pagam e bem 15 lugares de estacionamento. Que ajudá-la permite ajudar muitos portugueses. Que ajudá-la é ajudar a cidade e os seus cidadãos. Os políticos servem para isso mesmo: para tomar decisões que eles acham que são benéficas para toda a comunidade.

Como todas as decisões políticas, há quem concorde e quem não concorde. Por exemplo, chateia-me que um qualquer tipo que não quer pagar impostos na sua terra venha para cá pagar menos impostos do que eu. Também me deixa aborrecido que um partido se impressione muito por a Madonna ter preços mais baixos por estacionamentos e achar ótimo que muitos tipos de reputação duvidosa comprem uma espécie de indulgência que lhes permite ter um papelinho a dizer que moram cá. E já me perguntei muitas vezes se se justificam os enormes benefícios fiscais, os terrenos à borla e mais não sei quantas prodigalidades a empresas e indivíduos que, teoricamente, vêm para cá investir - sobre alguns sei bem como correu...

O que julgo saber, e parece que quem nós elegemos como nossos representantes também, é que a presença da Madonna e o que ela tem feito pela imagem da cidade vale mais do que umas mãos-cheias de rapazes a quem foram dados esses passaportes dourados e coisas que tais. Até diria que 15 lugares de estacionamento por tanto é um verdadeiro negócio da China. Para nós.

Viva o Santana Lopes

O melhor que Santana Lopes conseguiu dizer sobre política, numas perguntas que lhe fizeram, nesta semana, na SIC, foi que o centro-direita "não transmite aos seus eleitores a vontade de ganhar". Compreende-se. As televisões gastam tanto tempo com futebol que o ex-presidente do Sporting saiu-se com uma tirada à adepto. Que ideias se tem para apresentar, que propostas, que caminho, é que nada. Igual a tantos adeptos de futebol que acham que tendo muita garra, muita vontade, tudo se resolve.

Surpreende o futebolês de Santana Lopes? Claro que não. Até é giro. Como também é engraçado ouvi-lo dizer pela enésima vez que vai sair do PSD ou vê-lo negar hoje uma coisa que afirmou ontem ou a tentar inventar tiradas orelhudas para os jornalistas replicarem ou que tem o direito de ser feliz. A gente não o leva a sério mas diverte-se e, em troca, fala dele. É um bom negócio para todos.

A Queda do Ocidente? Uma Provocação

A Queda do Ocidente? Uma Provocação é o título de um livro escrito por Kishore Mahbubani, ex-embaixador de Singapura, professor de Políticas Públicas Aplicadas e frequente colunista.

É, de facto, um livro provocador, não só porque põe em causa razões que damos como indiscutíveis. Pelo meio aponta a cegueira soberba com que olhamos para o crescimento do Oriente, a incapacidade de percebermos as suas dinâmicas e a forma como o Ocidente contribuiu para o seu próprio declínio. Apesar de tudo, acaba por ter uma perspetiva otimista (demasiado, diria, porque assume que os valores que enformaram a nossa maneira de viver não mudarão) acerca do papel do Ocidente num mundo que parece ter definitivamente mudado o seu seu eixo central para Oriente.
Quem o ler não dará o seu tempo por perdido, muito pelo contrário.

Gestor e comentador

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