Rangel entra em campanha com três desafios a Costa e uma acusação

O líder do PSD afirmou que Paulo Rangel "não é dispensável" na Europa. O eurodeputado foi aprovado por "unanimidade" como cabeça-de-lista do partido às europeias na Comissão Política Nacional e entrou logo em campanha. Entre os desafios lançados a António Costa, uma acusação: a de que usou um cargo ministerial para promover o candidato do PS às eleições.

Pela terceira vez consecutiva, Paulo Rangel será o cabeça-de-lista do PSD às eleições europeias de maio. Rui Rio considerou-o "não dispensável" neste combate eleitoral. E o candidato aproveitou o embalo e logo de seguida entrou em modo de campanha eleitoral com quatro desafios a António Costa. Sendo certo que um deles soou mais a acusação: a de que o governo usou "um cargo ministerial", o de ministro do Planeamento e Infraestruturas, para lançar o nome de Pedro Marques como candidato do PS.

"Estará o governo a utilizar recursos públicos para promover o candidato do seu partido?", questionou Paulo Rangel, na sede nacional do PSD.

Num discurso muito assertivo, como é sempre o seu timbre, Paulo Rangel desafiou António Costa a dizer se aceita ou não a proposta da Comissão Europeia que reduz os fundos de coesão em 7% para Portugal, até 2027, quando aumenta para países mais ricos, como a Espanha, a Itália ou a Finlândia.

Quer ainda que o líder do PS e primeiro-ministro se pronuncie sobre a criação de um exército único europeu, que o PSD rejeita, bem como se entende que Portugal deve abrir mão da possibilidade de veto de último recurso, ou seja, que as decisões de política externa da União Europeia sejam tomadas por unanimidade. "Timor não seria hoje independente se as decisões de política externa na UE não fossem tomadas por unanimidade", garantiu o eurodeputado.

Paulo Rangel assumiu a "enorme responsabilidade" que o partido lhe colocou nas mãos, um desafio que classificou de "árduo" e "difícil", que é o de vencer as eleições, como antes tinha apontado Rui Rio, num contexto em que o PS é favorito nas sondagens. O advogado do Porto venceu os socialistas nas europeias de 2009, ainda com o governo de José Sócrates no poder, mas perdeu as de 2014 para os socialistas, na altura do executivo de Passos Coelho e Paulo Portas.

"A hora da Europa é difícil, imprevisível e volátil", afirmou o candidato, mas o "PSD assume a sua matriz pró-europeia".

O eurodeputado social-democrata usou todo o seu discurso para atacar o principal opositor nas eleições, fazendo sempre um paralelo entre os problemas nacionais e o que a Europa nos exige. "Perante a contestação social e a degradação em espiral dos serviços públicos, o governo diz que tem de cumprir as regras europeias. É verdade que não há dinheiro para tudo, mas o governo fez as suas escolhas e decidiu não investir no Serviço Nacional de Saúde, na segurança, na mobilidade e nos transportes", frisou Rangel.

"Nunca esteve tão em causa o Estado social. O governo apostou em sacrificá-lo. O PSD acredita no Estado social e numa Europa social. Nunca esvaziaremos os serviços públicos essenciais". Paulo Rangel garantiu ainda que o PSD se manterá firme na rejeição de novos impostos europeus, ao contrário do que defende António Costa, e que iria onerar os contribuintes nacionais. "Mas nunca diremos não às receitas próprias da União Europeia", disse, referindo-se às taxas que poderão incidir sobre as grandes plataformas digitais.

PPE pediu para Rangel ficar

O líder do PSD, que convidou há poucos dias Paulo Rangel para encabeçar a lista do partido às europeias, embora já tivesse tomado essa decisão há bastante mais tempo, diz que o fez a pensar em cinco características que o eurodeputado cumpre em pleno: gosto pelos assuntos europeus, ter elevada bagagem cultural, intelectual e profissional, ter experiência política, ter conhecimento dos dossiês e ter peso no seio da União Europeia. "Não é dispensável deste cargo", foi a conclusão a que chegou, tal como toda a Comissão Política Nacional que o aprovou por "unanimidade".

O nome de Paulo Rangel, bem como o da restante lista de candidatos do partido às europeias, que será conhecida até final do mês, será apresentada agora ao Conselho Nacional do PSD para a ratificar.

Além de lembrar a carreira política de Rangel, que foi secretário de Estado adjunto da Justiça no governo de Santana Lopes, e líder parlamentar do PSD no consulado de Manuela Ferreira Leite, Rui Rio considerou que o seu peso na UE é muito grande, sobretudo porque é um dos vice-presidentes do Partido Popular Europeu, o maior da Europa. E até revelou: "No PPE pediram-me que o mantivesse dada a importância e a relevância que tem."

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