O canhota de ouro da Nazaré que largou as chuteiras para reinar na areia

Jordan Santos foi eleito o melhor jogador do mundo de futebol de praia dias antes de conquistar o título mundial pela seleção. Eis a história do sucessor de Madjer, que nasceu no Canadá e passou pelo futebol de relva.

Foi nas praias da Nazaré que Jordan Santos começou a deixar a sua pegada no futebol de praia. Nasceu no Canadá a 2 de julho de 1991, mas veio para Portugal com 3 meses, quando a família decidiu regressar ao país de origem após anos de emigração. Aos 5 anos, os pais separaram-se e Jordan ficou a viver com a mãe e a avó materna na Nazaré, terra de praia e mar. Passava dias inteiros na praia. Na infância, nada o fazia mais feliz do que andar descalço na areia e sempre com uma bola atrás. Mas daí até ser o melhor jogador do mundo, coroado neste ano, ainda demorou um pouco.

"Como qualquer miúdo eu só queria jogar à bola, fosse na praia, no pavilhão ou num relvado. Como o futebol de praia nessa altura ainda era só uma coisa de amigos na praia, resolvi ir jogar futebol para o Nazarenos. Depois fomos a um torneio e o Boavista ficou interessado em mim", contou o jogador ao DN. Mudou-se então para o Porto, mas "as saudades da família" tornaram a estada "muito complicada". Isso e as chuteiras. Para quem estava habituado a jogar descalço, calçar as botas de futebol foi "uma verdadeira tortura". Sofreu algumas lesões por causa disso e fartou-se. Acabou por voltar à Nazaré - "foi um alívio poder voltar a jogar descalço" - e dar início a uma carreira no futebol de praia.

Ainda adolescente decidiu integrar a equipa da Associação Cultura e Desporto O Sótão, sagrando-se campeão nacional no seu ano de estreia pela equipa principal em 2009. O seu talento não passou despercebido à equipa técnica nacional, então liderada por José Miguel, que tratou de integrar Jordan nos trabalhos da seleção no ano seguinte. E, em maio de 2010, com 18 anos, estreou-se com a camisola das quinas na Taça da Europa: "Estava nervoso, ansioso, com aquele frio na barriga de que nunca me vou esquecer... era um miúdo! Mas foi muito importante ter começado tão cedo porque, se agora estou com 28 anos e uma maturidade acima da média, também se deve a ter começado muito cedo nesses grandes palcos."

Foi o início de um longo trajeto de crescimento pessoal e coletivo. O problema é que, nessa altura, "o futebol de praia ainda não era visto como uma profissão", e só quando recebeu um convite para ir jogar para o Dubai é que começou a olhar para a modalidade como forma de vida. Pelo meio ainda teve de ouvir "coisas menos boas", como "tem juízo que isso não é profissão" ou "arranja um trabalho". Mas não desistiu e é com agrado que agora vê essas mesmas pessoas darem-lhe os parabéns. "Faz parte. O importante é nunca desistir."

Com 28 anos, já representou o Sport Lisboa e Marinha, o Pataiense, o Nazarenos, o Sporting, o Belenenses e o Sp. Braga (o seu clube atual), o Shabab Al Ahli Club (Dubai), Flamengo (Brasil), o Spartak Moscovo (Rússia), o Nápoles e o Catania (Itália), o Meizhou Hakka (China), o Yesil Ercis Belediye (Turquia).

Filha nasceu durante um jogo

Com o passar do tempo, o discreto Jordan foi assumindo cada vez mais o estatuto de organizador de jogo da equipa nacional, fazendo valer as suas qualidades técnicas, a disponibilidade física e a versatilidade tática. Acumulou experiência e troféus em europeus e mundialitos até ao título mais aguardado, o Mundial de 2015, já sob as ordens do selecionador Mário Narciso. Um ano depois perdeu o nascimento de uma filha por estar a jogar: "Tenho três filhos, duas meninas e um menino... a do meio, a Noa, nasceu comigo em competição. Estava em Itália, a jogar a Liga dos Campeões pelo Catania. Acompanhava tudo por telefone, até que chego de um jogo e quando vou ao telemóvel era só fotos da minha filha. Chorei de alegria."

Jordan Santos acabou por alcançar um nível de excelência em 2017, apesar de Portugal ter estado em todas as decisões e ter falhado os objetivos. Voltou a sagrar-se campeão nacional pelo Sp. Braga e venceu pela primeira vez a Euro Winners Cup (a Liga dos Campeões de futebol de praia).

Mas nada que se compare com o ano de 2019. O ano que agora termina foi verdadeiramente de "sonho", tanto a nível individual como coletivo. Pelo Sp. Braga conquistou os quatro troféus que disputou: Mundialito de Clubes, Euro Winners Cup, o Campeonato Nacional e a Taça de Portugal. A nível pessoal foi eleito o melhor jogador da Champions. Na seleção alcançou a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos Europeus de Minsk, venceu o Mundialito na Nazaré, sagrou-se campeão europeu na Figueira da Foz (foi eleito melhor jogador do torneio mais uma vez) e já depois de ser eleito o melhor do mundo festejou o título mundial pela seleção - foi o herói da final ao marcar três golos e ajudar Portugal a bater a Itália (6-4). "Foi um ano de sonho, não podia pedir mais e melhor porque não há melhor do que isto", confessou ao DN, o canhota de ouro, com é chamado - "dizem que a minha perna esquerda vale ouro" -, com dificuldades em traçar objetivos futuros depois de tantas conquistas: "Tentar igualar neste ano já é bom."

Foi preciso ver para crer

Depois de Madjer (2015, 2016), o melhor jogador do mundo voltou a ser português. "Quando saíram os últimos três nomeados e o meu nome estava lá é que comecei a assimilar o que isso significava, mas até ver o envelope com o meu nome não acreditava. Depois vi o meu nome e aí percebi que todas as dificuldades porque passei valeram a pena. Arrepiei-me todo. Bloqueei. Estaria a sonhar?", questionou.

A realidade era boa demais, mas ainda iria melhorar. Dias depois de ser distinguido juntou-se à seleção nacional para jogar o Campeonato do Mundo, no Paraguai, que culminaria com o título mundial no domingo passado: "É sem dúvida a melhor forma de terminar um ano espetacular. Fiquei muito emocionado, porque trabalhámos imenso para ter sucesso e somos mesmo uma família e merecemos este título." E assim, de repente, Jordan estava no Palácio de Belém a ser agraciado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Agora é preciso descansar e começar tudo de novo. Apesar do assombroso palmarés, Jordan quer "mais" e espera ainda ter "mais uns dez anos" pela frente no futebol de praia. Como é um atleta "que se cuida", física e mentalmente, acredita que pode jogar até aos 40 anos. "Acho que a minha principal arma será a minha condição física: o facto de ser muito leve, de aguentar bastante tempo em campo, acaba por ser uma das minhas vantagens. Tenho um pontapé fácil e consigo ocupar várias posições no campo graças à minha condição física e cultura tática", afirmou o jogador.

Fã de Cristiano Ronaldo e Michael Jordan, a quem deve o nome - o basquetebolista americano estava no auge quando nasceu e a mãe gostou do nome -, já se começa a "preparar" para ser olhado como um ídolo: "O que digo a quem olha para mim como um dia eu olhei para o meu ídolo é que trabalhem e sigam os seus sonhos por mais que alguém diga que não vai ser capaz."

Jordan Santos cresceu na modalidade durante o reinado de Madjer, mas não sente o peso de ser o seu sucessor: "O Madjer é o Madjer, com a sua história e as suas conquistas, eu sou o Jordan e estou a construir a minha própria história."

Para Jordan, a modalidade tem-se consolidado no calendário desportivo nacional e internacional graças às apostas da Federação Portuguesa de Futebol, que "está a fazer um ótimo trabalho", e também dos clubes. "Antigamente, o futebol de praia resumia-se a duas ou três semanas e, agora, há um campeonato com mais jogos, há Taça de Portugal. O trabalho está a ser feito aos poucos e cada vez temos mais praticantes. Os clubes também estão a investir e isso é bom para o futuro da modalidade", confessou Jordan, que espera um dia ver o futebol de praia como modalidade olímpica e assistir à profissionalização da modalidade: "Os atletas não podem largar um emprego certo pela incerteza do futebol de praia! O caminho é por aí. Nunca é fácil, mas não é impossível!"

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