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"Tirem as mulheres da Igreja, das empresas ou das redações e o vazio é enorme"

Foi professora de História num colégio de freiras, mas descobriu o fascínio da rádio e deixou o ensino. A Renascença tem sido uma das suas casas. Nomeada diretora do Secretariado Nacional para as Comunicações Sociais da Igreja, Isabel Figueiredo falou com o DN sobre si, a comunicação social e a Igreja.

Nasceu há 57 anos no Hospital Militar da Estrela. Isto diz um pouco da sua vida. Pelo menos, que a infância foi passada entre Lisboa, Angola e Moçambique, e que aos 9 anos veio sozinha com o irmão de África para Lisboa. Ele para o Colégio Militar, ela para o Colégio de Odivelas, onde ficou até ao 9.º ano. Confessa que ali adquiriu "estaleca interior". Não foi fácil, como diz, todas as vidas têm a sua dose de sofrimento. Ela também a teve, mas isso aproximou-a de Deus.

A consciência e a vontade de querer ser Igreja, e de como a pode servir, é algo que está sempre presente nela. Ao DN, numa conversa na Rádio Renascença, onde o seu dia-a-dia começa pelas 09.00 e vai até ao final da tarde, Isabel Figueiredo, a mulher que há dois meses foi nomeada para diretora do Secretariado Nacional para as Comunicações Sociais da Igreja, confessa que prefere dizer o que procura ser, mais do que se definir. "Procuro ser uma pessoa determinada, atenta aos outros, porque acho que Deus só quer que nos amemos e cuidemos uns dos outros. Acho que é este amor e este cuidado que me faz escrever, andar para a frente e começar todos os dias."

Com o convite para o Secretariado ficou grata e honrada, mas nunca pensou que a questão de ser mulher "tivesse o impacto que teve". Acredita que as mulheres estão "a abrir outras janelas na Igreja". Hoje é casada, tem três filhos - Ana, Zé e Maria, com 29, 20 e 19 anos - e um neto, Xavier. Deles diz serem pessoas felizes, que estão bem com a vida, e que o ser avó "é ótimo", "só quem o é sabe o que se sente".

Esta mulher da Igreja, da rádio e da escrita - já com quatro livros publicados e outros na forja - fala de sorriso nos lábios e com transparência. Formou-se em História, na Universidade Nova de Lisboa, e sempre pensou que seria professora, mas não se arrepende de ter seguido outro caminho. "Foi uma opção pela consciência de servir a Igreja." No seu percurso só tem pena de não ter começado o processo de escrita mais cedo e de não ter tido outro filho. "Gostava muito, mas acho que me deixei assustar pelo trabalho, pensei que não era capaz."

Entrou na Rádio Renascença em 1990, para um grupo de produção de escrita, teve a seu cargo a coordenação da programação especial da Páscoa e do Natal, fez várias campanhas de solidariedade, e agora é adjunta do presidente do Grupo RR D. Américo Aguiar.

Aos 57 anos, está pronta para os desafios que aí vêm. O maior é a Jornada Mundial da Juventude, um acontecimento único em que os jovens se reúnem para ouvir o Papa. Mas, diz, "é o maior desafio para a Igreja, mas também para o país e para Lisboa".

Como é que uma licenciada em História chega à rádio e à comunicação social?
Foi um acaso. Não houve nenhuma procura específica da minha parte. Assim que acabei a faculdade comecei a dar aulas no Colégio Santa Doroteia. Gostava de dar aulas, mas ao fim de sete anos comecei a sentir necessidade de encontrar outra coisa, o que coincidiu com o princípio das televisões privadas em Portugal. A TVI - na altura televisão da Igreja - abriu um curso para profissionais de televisão, a Rádio Renascença [RR] era a promotora. Eu soube do curso, inscrevi-me e entrei. Fiz a formação e, no final do curso, perguntaram-me se eu queria ficar na RR. Aceitei. Trabalhei logo durante o mês de agosto e foi muito intenso. Depois, não sei explicar, fui ficando, a rádio tem isto, quem faz sabe do que estou a falar.

O que começou por fazer?
O meu desafio era a produção escrita. Nunca fiz trabalho de jornalismo, porque não sou jornalista. Integrava um grupo de pessoas que tinham de escrever conteúdos com determinado olhar sobre a vida e sobre a realidade, mas com a marca religiosa. Para mim, era tudo uma novidade, os telefones a tocar na redação, salas cheias de gente a trabalhar, etc. Eu estava habituada às aulas, era tudo tão diferente.

Diferente pela positiva...
Eu gostava de dar aulas, mas costumo dizer que os professores são naturalmente autoritários, porque estão numa sala de aula com 20 crianças ou mais à sua frente e são eles que determinam como é que as coisas vão correr, com mais ou menos autoridade. Na rádio não, o trabalho era de equipa e o facto de estarmos todos ao mesmo nível era uma novidade para mim. Quando o ano letivo começou, voltei às aulas, mas pediram-me para continuar na rádio.

Acumulou as duas funções?
Sim. Estive assim durante um ano. De manhã dava aulas no colégio, à tarde trabalhava na RR. Mas tudo isto aconteceu na fase em que começaram a exigir a profissionalização aos professores, e percebi que tinha de decidir. Ou me empenhava a 100% no ensino ou escolhia a rádio. Na altura, o presidente da Renascença era o engenheiro Magalhães Crespo, que me propôs ficar, disse-me que seria devidamente compensada por largar o meu emprego, as aulas. E nunca mais saí.

O que a agarrou?
Nem sei bem. Só explicando alguns episódios que vivi e que marcaram. Quando entrei faziam-se muitos raides todo-o-terreno e lembro-me de que num destes fui para Trás-os-Montes, num jipe. Todos os carros estavam marcados com as siglas RR. Era uma época alta da Renascença, com o António Sala e a Olga Cardoso a acordar Portugal. Assim que saímos do jipe, numa aldeia, há uma senhora que vem ter comigo e que me pergunta se eu era a menina tal, que ela ouvia todos os dias na rádio. Claro que não era, mas fiquei surpresa com a admiração e o afeto com que as pessoas da aldeia olhavam para as pessoas da rádio. Na altura, pensei muito nisto. Como é possível haver este tipo de relação com pessoas que trabalham no meio da cidade de Lisboa e a centenas de quilómetros? Mexeu muito comigo. Achei incrível a capacidade que temos, como profissionais da rádio, de entrar e mergulhar na vida das pessoas, é como fazer parte da vida delas.

"Era incrível como o Sala conseguia mobilizar tanta gente para o Despertar ao Vivo"

Essa foi uma das situações que a marcaram...
Foi, mas há mais. Um dia, logo no início também, disseram-me para ir ao Despertar ao Vivo, o programa do António Sala e da Olga Cardoso, no Castelo de São Jorge, às sete da manhã. Eu pensei: "Sete da manhã? Castelo de São Jorge? Que sentido faz? Quem vai lá estar?". Nesse dia cheguei mais cedo ao Chiado, fui pela Baixa e assim que começo a subir começo a ver pessoas, mais pessoas e barreiras, e mais barreiras para não as deixar passar. Não queria acreditar. Que fenómeno é este?, pensei. O castelo estava cheio às sete da manhã para ouvir o António Sala a conversar com os convidados e com os artistas que lá iam.

Não fazia ideia de que era assim?
Não era consumidora de rádio antes de ir para a Renascença, sempre gostei muito mais de ler a notícia do que de a ouvir. Mas de repente comecei a pensar que, afinal, era o meio de comunicação com uma capacidade muito própria de estar na vida das pessoas.

Foi um desafio...
Foi. Era incrível ouvir diariamente: "Os senhores fazem-me companhia desde que me levanto até que me deito"; ou "Adormeço todas as noites a ouvir a RR". Mas tudo isto também trouxe sempre uma responsabilidade muito grande em relação ao que escrevemos e dizemos na rádio, porque tem impacto real na vida das pessoas. E este desafio é permanente.

É um desafio ser uma rádio comercial e emissora católica?
O fundador da RR, monsenhor Lopes da Cruz, dizia sempre que tínhamos de ser em tudo iguais aos outros, mas tínhamos de saber fazer o melhor possível com critério e sentido católico. Isto também é um enorme desafio, não é fácil transmitir aquilo que achamos que temos de transmitir, para fazer uma rádio igual às outras, e ser uma emissora católica.

A rádio mudou muito desde que começou?
Imenso. Quando comecei, os animadores de rádio liam textos escritos por outras pessoas, que faziam a produção escrita, havia guiões de programas. Escrevia-se tudo, desde o bom-dia ao boa-tarde ou boa-noite. Hoje não é nada assim. São os próprios animadores que escrevem os seus textos. Os produtores de rádio passaram a fazer um trabalho diferente do que eu fazia quando comecei. Mas aprendi muito. No meu tempo, ensinaram-me que escrever é cortar palavras. O perceber que tinha de dizer tudo o que havia para dizer em três linhas e, se pudesse, em duas foi um grande desafio que me tem acompanhado sempre.

Começou pela produção escrita, mas o que fazia concretamente?
O grupo da produção escrita que integrava dava suporte a toda programação. Escrevíamos para todos os programas, preparávamos entrevistas, procurávamos entrevistados, fazíamos guiões de programas. Era o pacote completo, mas este grupo ainda tinha a seu cargo a responsabilidade da programação especial da Páscoa e do Natal.

"Na Páscoa, a música clássica era de quinta a domingo. Hoje, não é assim"

Era difícil conciliar os programas e a atualidade com estas programações especiais?
Quando comecei a programação da Páscoa era indescritível. Parava tudo na Renascença, desde Quinta-Feira Santa até domingo. A programação mudava por completo, era só música clássica e faziam-se todas as transmissões religiosas. Ainda me lembro de que, nos primeiros anos, se usavam discos, LP grandes, que tinham de ser todos separados pelos quatro dias e que tínhamos de fazer um guião para todos os dias. Era um trabalho louco, imagine o que era 24 horas de emissão, de escolha de música, de palavras, textos, etc. E a primeira responsabilidade que tive na RR foi começar a coordenar esta equipa de programação especial da Páscoa e do Natal.

Hoje já não é assim...
Não tem nada a ver. Fomos aliviando progressivamente a questão da música clássica, agora optamos por música instrumental com um cuidado especial durante a Sexta-Feira Santa, mas foi um caminho de 20 anos.

E as campanhas de solidariedade da rádio, também fez algumas?
Acompanho desde o início todas as campanhas de solidariedade da Renascença. A primeira foi para Timor. Dão um trabalho louco. Sempre que lançamos uma campanha é preciso criar um spot, gravá-lo, escrever textos - por vezes, uns 10, 20 ou 30 - que rodam permanentemente em antena, etc. Mas as campanhas têm sempre retorno.

A de Timor compensou?
Teve um impacto indescritível. Quando lançámos a campanha, num sábado, estava a trabalhar no Chiado e tocam à porta da rádio - naquela altura era assim e alguém tinha de ir abrir. Fui e dei com uma varina, do Mercado da Ribeira, ainda de avental, que me diz: "Venho trazer dinheiro para Timor." Abriu o fecho do bolso do avental e tirou o dinheiro embrulhado em papel. São coisas que nunca mais esquecemos. A partir daqui, tenho feito todas as campanhas de solidariedade, a dos incêndios, Angola, Moçambique, etc.

A rádio teve de deixar de ser só rádio...
A rádio teve de evoluir e passar a ser uma multiplataforma de comunicação. Há uma altura em que tudo muda. O grupo de produção escrita a que pertencia também se disseminou tempos depois. E bem, porque nós trabalhávamos para os canais todos, e, em determinado momento, os quatro canais do grupo - RR, RFM, Mega-FM e SIM - absorveram as pessoas. Eu fiquei mais ligada aos diretores dos vários canais para fazer mais um trabalho que passa pelas áreas dos conteúdos religiosos e solidariedade.

Mas agora está noutras funções...
Há dois anos fui nomeada adjunta do presidente da RR, precisamente para trabalhar com ele estas áreas, em que se sublinha o facto de a rádio ser uma emissora católica.

"As mulheres estão a abrir outras janelas na Igreja"

Há dois meses foi nomeada diretora do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais da Igreja. É a primeira mulher a ocupar o cargo. É a prova de que as mulheres fazem falta à Igreja?
[Ri-se] Provavelmente também é. Fiquei muito surpreendida com o impacto que teve o facto de ser mulher. É verdade que, se olhar para o passado, percebo que se sinta esse impacto, mas, na altura, quando me foi feita a proposta, não pensei em nada disso.

Em que pensou?
Pensei que era a continuidade lógica de um serviço à Igreja. Como pessoa, sempre pensei: como servir a Igreja? O facto de ter optado pela rádio e de ter deixado a carreira de professora foi porque uma parte de mim teve consciência deste serviço à Igreja. Senti-me grata e honrada, mas só agora, à medida que o tempo passa, é que estou a aterrar e a olhar verdadeiramente para os desafios.

O facto de ser mulher não significa que a Igreja está a mudar?
Todos os dias vemos nomeações de mulheres na Igreja. Acho que não podemos ver a questão como sendo uma mais-valia. Não pode ser uma mais-valia, porque se fosse nomeado um homem não era uma menos-valia. Não sou nem uma mais-valia nem uma menos-valia. Cada um de nós é uma valia para a Igreja.

Mas não acha que as mulheres não trazem outros olhares à Igreja?
Se me perguntarem se as mulheres olham para as coisas de outra forma, digo que é uma verdade. Temos outra forma de olhar, temos outra perceção do trabalho das pessoas, de lidar e de falar uns com os outros, mas essas são as diferenças entre os homens e as mulheres. A Igreja durante muitos anos teve só homens em lugares de responsabilidade, o que dava uma forma de olhar para a realidade, agora possivelmente nós, mulheres, estamos a abrir outras janelas.

Não é tomar o lugar de...?, porque a Igreja tem um pensamento muito masculino
Não. Para quem está com atenção a tudo o que tem sido dito pelo Papa Francisco, e não só por ele, mas estamos a viver o tempo dele, o olhar maternal da Igreja, a presença de Maria, tem sido uma constante em termos de chamada de atenção. Portanto, penso que cada vez mais, homens e mulheres na Igreja estão a caminhar juntos, de mãos dadas, mas com duas perspetivas diferentes. É o que acontece na sociedade. Às vezes penso, retirem as mulheres de todas as paróquias deste país, de todos os centros comunitários, da catequese, das empresas, das redações, das universidades e da investigação e o que acontece? Um vazio enorme. E isso não nos pode colocar, a nós, às mulheres, em bicos de pé. Temos é de estar neste plano de igualdade para dizermos: estamos aqui e queremos transformar a sociedade.

Neste novo cargo o que acha importante fazer?
Já pensei muito sobre isso. Em primeiro lugar, é conhecer cada um dos secretariados existentes no país e as pessoas que lá trabalham. Outra ideia errada que se tem, até dentro da Igreja, é que só se trabalha em Lisboa ou no Porto. Não é verdade. Trabalha-se em muitos sítios, nalguns muito bem, noutros com dificuldades. Acredito que se nos conhecermos uns aos outros, conseguimos trabalhar em rede, partilhando conhecimentos e preocupações. Falei há pouco tempo com uma jovem que trabalha num secretariado destes, que me dizia: 'Não sabe a diferença que faz ter alguém a quem telefonar e podermos conversar."

O isolamento ou a falta de proximidade é um dos problemas dentro da Igreja?
É um problema do país. É o que vemos todos os dias nas notícias. O problema entre o interior e os grandes centros urbanos, que separa as pessoas. Logo nos primeiros dias em que fui nomeada, recebi também um e-mail de uma pessoa, que trabalha num secretariado, que me dizia: "Agradeço que não pense que só existe Lisboa." Não existe só Lisboa, portanto temos a obrigação de manter os vários secretariados em rede e ativos. Depois há o desafio do conhecimento, do fazer, do estabelecer pontes e, depois, há os outros, os desafios gigantes, como a Jornada Mundial da Juventude. Este será o grande desafio para a Igreja portuguesa e para a comunicação social da Igreja.

"A rádio fica, a televisão tem de procurar a qualidade e os jornais têm de se renovar"

Falando de comunicação social, o setor passa hoje por uma crise, e grande, menos leitores, menos ouvintes e telespetadores, publicidade a preços baixos... isto também afeta os órgãos da Igreja?
A Igreja somos nós, é a sociedade. As transformações que a sociedade sente passam e trespassam para a Igreja. Todas as dificuldades e transformações que sentem na sociedade a Igreja também as vive. A Igreja tem pequenos jornais regionais, ora se os grandes jornais perdem leitores, obviamente que os mais pequenos padecem do mesmo mal, mas temos feito um esforço progressivo para adaptar e renovar cada vez mais estes meios.

Tendo agora um cargo nas comunicações sociais, como é que olha para o futuro do setor em geral?
Há uma coisa que todos os meios sentiram há uns 20 anos Foi o impacto das televisões privadas, que ocuparam um espaço enorme em termos de audiências e que transformaram a nossa realidade. Hoje, as redes sociais estão a fazer uma coisa idêntica. As redes sociais estão a transformar a maneira como consumimos informação. Por exemplo, e a pensar nos meus filhos, as notícias são vistas no telemóvel, eles já não precisam de televisão. Antes, as notícias eram lidas no jornal, ainda me lembro de o meu avô comprar todos os dias de manhã o DN, depois eram ouvidas na rádio, que se ligava logo de manhã, e depois na televisão. Isto tudo durante a minha vida. Agora, já nem o jornal nem a televisão. São os tempos.

E o que prevê para o futuro?
Acho que a rádio vai continuar. Não é por cá estar que digo isto. Acho que a rádio é um suporte que não acaba, tem uma coisa que mais nenhum tem, chega diretamente à pessoa. Tem a capacidade de falar de um para um, não de um para 50 ou para mil. Acho que ninguém consegue apagar ou substituir esta faceta.

E a televisão?
A televisão tem de procurar a qualidade. As pessoas gostam de qualidade, de coisas bonitas, o Papa Bento XVI falava muitas vezes sobre a questão da beleza, e tinha razão. As pessoas gostam de beleza. Não podemos pensar que a beleza está reservada a algumas pessoas que têm obras fantásticas em casa ou que pode ir a todas as exposições ou concertos. Não podemos pensar que só estes são consumidores da beleza. Não é verdade. As pessoas até podem consumir o que é menos bonito, mas ao fim de um tempo cansam-se. Dentro de cada um de nós há uma sede de algo maior e melhor, e essa sede exige qualidade.

E aos jornais, o que vai acontecer?
Houve um momento na vida do nosso país, que não sei precisar quando, que nós, enquanto sociedade, deixámos de acreditar na comunicação social e nos jornais. Tenho pensado muitas vezes se os jornais declarassem publicamente a sua orientação política - isto é uma observação muito pessoal - era melhor do que estarmos a lê-los e a procurar perceber para que lado estão a tentar levar-nos. Em outros países, não é assim. Quando compramos um jornal sabemos o que estamos a comprar.

Não estaria em causa a isenção?
Tenho imensas dúvidas sobre onde está a isenção hoje em dia. Tirando quando lemos um artigo de opinião ou uma reportagem. Ainda há oásis, quando me sento à frente da televisão a ver uma boa reportagem ou a ler um bom artigo num jornal, então, penso: valeu a pena ter perdido este tempo. Foi um gosto, porque ainda há gente na comunicação social que o faz, e bem. Temos tido boas reportagens e investigação também. Mas a comunicação social tem de perceber que eu não quero gastar o pouco tempo que tenho para estar com a minha família ou a fazer outras coisas com trabalhos que são poucochinhos. Eu não sou jornalista, não consumo a informação como tal. Consumo a informação enquanto cidadã. E pergunto-me muitas vezes: o que é que isto quer dizer? O que está aqui por detrás? Se eu o faço, outros também. Sinceramente acho que houve um certo descrédito em relação aos jornais, que a política se meteu imenso na comunicação social e que isso foi dramático.

Não prevê nada de bom para os jornais ou para a comunicação social?
Não é isso. Acho que haverá algo de bom, obviamente que esta fase tem de passar. A comunicação social tem de se levantar outra vez, e não só os jornais. Acho que estamos num momento em que as pessoas dizem: não quero isto e a comunicação social vai ter de se refazer. A sociedade portuguesa precisa da comunicação social. A Igreja precisa da comunicação social. Agora, também precisamos da verdade, da qualidade, da beleza. Precisamos que nos mostrem o que está errado, e a comunicação social tem feito esse trabalho, mas também precisamos que nos mostre o bom.

Fala em relação à Igreja?
Em relação à Igreja custa-me muito a aceitar que só se fale do que está errado e que não se fale do que se faz de extraordinário, que se fale das pessoas que fazem coisas maravilhosas e que dão a vida inteira, e de forma gratuita, à Igreja.

"Todas as vidas têm sofrimento, a minha vida teve e aproximou-me de Deus"

Voltando ao seu percurso. É filha de um militar de carreira. Tem mais dois irmãos e, até à adolescência, andou sempre a saltar de casa em casa e de terra em terra. Isso marcou-a?
Marcou, claro. De três em três anos mudávamos. Eu comecei a escola primária em Tomar e acabei-a em Luanda. Tinha 9 anos quando vim de avião para cá com o meu irmão. Ele para o Colégio Militar, eu para Odivelas. Não foi fácil, mas estas mudanças fizeram que não me faça confusão mudar-me, criar relações com outras pessoas ou viver com pouco. Deram-me um certo desprendimento das coisas, que acho importante. Quanto ao colégio, deu-me estaleca interior. Era muito rígido e era preciso saber aguentar aquilo. Ser interna com 9 anos, com os pais a milhares de quilómetros, não era fácil. Terra, só tive mesmo quando fui morar para Carcavelos, depois do 25 de Abril, onde ainda vivo.

Foi um tempo de sofrimento?
Todas as vidas têm sofrimento. Ninguém consegue tirar sofrimento da vida de ninguém. E o sofrimento tem a capacidade de nos aproximar ou de nos afastar de Deus. Acho que tanto uma coisa como outra são movimentos naturais da vida. E a minha vida também teve a sua dose de sofrimento, que me levou a uma enorme de aproximação de Deus.

Então vamos falar da Igreja em Portugal. Há estatística que dá conta de que tem perdido fiéis, menos casamentos, batizados, etc. Porquê? Tem que ver com a forma como ainda passa a mensagem?
Tenho de explicar a minha experiência pessoal, para se perceber o que penso. Tive um caminho completamente normal, cresci na paróquia de Carcavelos, com o padre Aleixo Cordeiro, que me abriu imenso os horizontes em termos da presença de Deus e da vida em comunidade. Há 40 anos já fazíamos campos de férias, tínhamos um salão onde jogávamos pingue-pongue, tínhamos um responsável de campo de férias que nos lia poesia. Portanto, cresci assim. A fé e a descoberta da presença de Deus foi feita em paróquia e com pessoas de cabeça muito aberta.

Mas já vinha de uma família religiosa, praticante ou não?
Vinha de uma família religiosa, mas com uma prática normalíssima. Fiz catequese, primeira comunhão. Só quando cheguei a Carcavelos, e costumo dizer que fui forjada ali, tive consciência e vontade de estar inserida numa paróquia. Isto para dizer que a Igreja já esteve a transbordar de pessoas, já esteve com menos pessoas do que agora, mas que isto anda sempre um pouco ao ritmo dos padres e do que os padres vão fazendo.

A realidade agora é diferente... há muitos movimentos
Agora há imensos movimentos dentro das paróquias. E os movimentos conseguem fazer um acompanhamento mais próximo e as pessoas, preferem-nos a eles do que à realidade das paróquias, o que levou a um certo esvaziamento. Mas este é um caminho que a Igreja tem vindo a fazer. É claro que quando há momentos que é preciso tocar a reunir, todos se unem. Por exemplo, em Fátima, não se sente que há menos pessoas. E ainda há outra questão, no país também somos cada vez menos e cada vez mais velhos.

Não tem que ver com a mensagem ou com a forma como está a ser passada?
Há outra realidade que as pessoas têm de saber. Não conheço nada em termos de estrutura de vida e de proposta de vida que seja tão livre como a proposta do Evangelho e da Igreja. Quando falo de Igreja falo de instituição, que dá uma liberdade total às pessoas. A Igreja fundamenta-se numa realidade que é: o meu encontro pessoal com Jesus. E depois diz-nos: "Se quiseres podes viver isto em comunidade", ou "se quiseres vens, ou não". Diz ainda: "Podemos dar-te a graça dos sacramentos, és livre de dizer sim ou não." E mais, diz : "É bom comungar, mas para te dar isto é bom que te confesses." Mas depois ninguém sabe se me confessei ou não. "É bom ires à missa ao domingo, é bom rezares todos os dias', mas se eu não o fizer, não há controlo, não há castigo. Isto é uma liberdade absoluta, porque tudo o que nos é pedido só depende de cada um de nós. Portanto, acho que para vivermos isto com seriedade precisamos de uma maturidade e de uma determinação muito exigente.

"Durante muito tempo a Igreja facilitou os casamentos"

A fé é determinação?
A fé implica determinação, tal como o amor. A determinação do amor é uma coisa seriíssima, porque é feita em absoluta liberdade.

Fala da liberdade que o Evangelho dá, essa liberdade existe para os católicos recasados ou para os homossexuais?
Pois. Essa é a pergunta normal. Acho que a Igreja está a fazer o seu caminho para os acolher. Quanto aos recasados, o problema não está na dificuldade de obter a nulidade de um casamento. Não é aqui que a Igreja está mal, o problema está no facto de a Igreja durante muito tempo ter facilitado os casamentos. Casar pela Igreja implica uma fundamentação, uma preparação séria, que tem de ser feita, que tem de existir. Estamos a falar da graça de um sacramento. Não basta dizer depois que é muito difícil desfazer o que se fez. Portanto, em relação aos recasados o que acho que temos de fazer é tornar cada vez mais séria a preparação dos casamentos pela Igreja, tal como mais acessíveis os processos de nulidade.

E em relação aos homossexuais crentes?
A Igreja também tem de fazer um caminho. A Igreja está consciente disto tudo. Tal como está consciente da quantidade de pessoas que se casam pela Igreja sem ter validade, da gente que comunga sem se confessar, mas temos de olhar à nossa volta porque há pessoas que vivem com o drama interior de se sentirem excluídas. Não podemos ser indiferentes à dor dos outros.

Para terminar, teria feito alguma coisa de diferente no seu percurso?
Não. Do ponto de vista profissional talvez tivesse começado mais cedo o processo de escrita e da publicação, do ponto de vista pessoal talvez tivesse tido mais um filho. Fiquei por três e tenho pena. Pensei nisso imensas vezes, acho que me deixei assustar pela questão do trabalho, e julguei que não era capaz de ter mais um.

Tem três filhos crescidos, de 30, 20 e 19 anos, e um neto de 2 anos. Olhando para eles o que sente?
São os três muito diferentes. Acho que é a capacidade de termos filhos diferentes que me surpreende e penso: como seria se tivesse tido mais um? De certeza que seria diferente dos outros, mas acho que os meus filhos são pessoas felizes.

E o ser avó como é?
É ótimo. As pessoas falam, mas só quem o é sabe o que se sente. É como se a pessoa renascesse outra vez.

Qual é a característica que mais aprecia numa pessoa?
A transparência. É uma palavra bonita de se dizer, de se ouvir, mas é difícil. Há poucas pessoas transparentes e eu gosto de pessoas transparentes. Procuro ser transparente. Aqui na rádio tive um diretor que me disse: "Não pode ser tão transparente." E eu pensei que ele estava a pedir-me exatamente aquilo que é me impossível fazer. É óbvio que a vida nos vai moldando e ensinando, hoje tenho muito mais controlo sobre o que penso e sinto, mas continuo a admirar e a procurar a transparência.

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