Monchique: "A terra da água sagrada virou pedaço de carvão"

Quando a frente de fogo chegou às Caldas de Monchique, a maioria do povo percebeu que era fugir ou morrer. História do punhado de gente que ficou para trás, a ver a capital algarvia da água ser engolida por fumo e chamas.

Estão cinco cegonhas à bulha por espaço no único ninho que sobrou na estrada nacional 266, junto às Caldas de Monchique. Todos os restantes, e Martinho Silva tinha contado mais de 30 em meia dúzia de quilómetros de alcatrão, foram engolidos pelas chamas nos últimos dois dias.

Quem agora atravessa a serra consegue por isso uma rara visão destas aves: fazem voos rasantes aos carros, mudam subitamente de direção, empoleirarem-se em bandos inteiros nos ramos de uma azinheira que por acaso tenha escapado ao fogo. Estão confusas com o fumo e assustadas com o fogo. Não são assim tão diferentes dos homens.

Foi ao início da tarde de domingo que Martinho reparou que havia algo de errado com os pássaros. "Tinha aqui vindo molhar a cortiça, assim sempre a protegia um bocadinho de alguma fagulha que o calor ateasse." Não se safou nem uma arroba, constataria esta terça-feira.

Ali, junto às termas e aos ribeiros que molham as Caldas de Monchique, ele nunca acreditou que as labaredas chegassem intensas. "Mas depois vi uma cegonha vir do monte a voar baixinho, direita a mim. Tive de me baixar para ela não me apanhar e foi aí que pensei que devia vir lá fogo bravo. Mas nunca acreditei que nos fizesse isto", e baixa os olhos para se recompor. À sua volta um cenário de apocalipse.

Minutos depois apareceu a polícia, a dar-lhe ordem de evacuação. Nessa altura respondeu que não ia: "A água aqui é sagrada, as Caldas nunca ardem muito", diz o homem enquanto se agarra a dois baldes, enche-os numa fonte rente a casa e leva-os para apagar o fogo que ainda lhe fumega a horta. "Enganei-me: agora as Caldas viraram pedaço de carvão. Cá para mim este fogo só para quando chegar ao mar."

Paisagem irreconhecível

Entre o final da tarde de domingo e a tarde de terça-feira, as Caldas de Monchique tornaram-se irreconhecíveis. É a capital algarvia da água, é a coqueluche do concelho, é um dos pontos de peregrinação do interior da região. As termas contam três mil anos de história e explicam as primeiras ocupações humanas da serra.

Foram frequentadas pela monarquia desde o reinado de D. João II, no século XV, e pela burguesia romântica inglesa, no século XIX. Salazar popularizou-as nos anos quarenta. Agora são geridas pela Fundação Oriente. Águas alcalinas, com um ph de 9,5, capacidades terapêuticas que o povo acreditava serem milagre de Santa Teresa, a quem aliás foi erguida uma ermida em 1940.

No final da tarde de domingo, quase mil turistas que ocupavam as várias unidades hoteleiras foram evacuados para Portimão. A centena e meia de trabalhadores ali empregados abalaram de seguida - quase todos são da região, foram ver das suas famílias e das suas casas. No centro do vilarejo de casas senhoriais e bosques frondosos ficou apenas um homem, José Rosa.

É o dono da Albergaria Lageado, um hotel de 31 quartos fundado em 1880 pela família da sua mulher. "Temos aprovado um projeto para fazer mais 11, mas depois disto já não vou avançar." Quando se viu sozinho na noite de domingo, e novamente na madrugada de segunda e fim da manhã de terça, pensou que ia morrer.

As chamas invadiram o jardim em frente à sua casa e ele agarrou numa mangueira para extingui-lo. Ainda fumega, e agora andam ali os bombeiros a impedir que o fogo levante outra vez. "O meu plano de fuga era a piscina e foi para lá que fugi quando achei que já não havia volta a dar. Foi um assombro."

Na hora do maior aperto

José Rosa é natural de Pedrógão Grande e, no ano passado, estava a passar férias na casa dos pais quando veio o diabo. "Passei na estrada da morte antes de morrer toda aquela gente. E eu sei que agora não morreu ninguém, sim, mas sinto uma raiva de ver o meu país a arder assim, de norte a sul, ano após ano após ano após ano."

Os bombeiros falharam-lhe na hora de maior aperto, ao final da manhã de terça, quando uma frente do fogo já descia para Portimão e outra galgava para Silves. Ninguém esperava um reacendimento, mas foi o que o vento levantou. O restaurante Rouxinol, uns metros acima, foi-se. A fábrica de água, ao fundo do vale, já tinha chamas a roçar-lhe as paredes. E ele sozinho, com uma mangueira, e uma piscina como último recurso. "Já viu a ironia de poder morrer queimado num sítio que é só água?"

A fábrica de águas de Monchique, também nas Caldas, acabou por escapar quase ilesa, pesem alguns cabos e paletes queimadas. "Foi por pouco", diz Vítor Gonçalves, o administrador, que na tarde de terça-feira fez-se à estrada para avaliar os estragos. "Tivemos de evacuar o pessoal no domingo, mesmo quem vivia aqui teve de sair. Agora não sabemos quantos dias vamos demorar a retomar a produção,"

Este é uma das maiores empresas do concelho e, segundo o presidente da câmara local, Rui André, "um dos pilares da nossa economia." As águas de Monchique empregam 32 pessoas e faturam 10 milhões de euros ao ano. "Cada dia de paragem significa uma quebra de 60 mil euros. Não temos problemas na qualidade da água, porque os furos são profundos e as cinzas não as afetam."

"Mas, mesmo depois do incêndio estar extinto, vamos ter problemas de transporte porque as estradas ficaram uma miséria, vamos ter equipas a meio gás porque os funcionários vão precisar naturalmente de tempo para cuidar dos seus haveres e das suas famílias, vamos ter problemas de energia porque uma fábrica precisa de média tensão." Os fogos, diz ele, não são só a tragédia das gentes do interior. Também são a tragédia da sua economia.

Onde tudo foi pior

Ainda que o centro da povoação conte histórias de aperto, lá no alto do monte é que as coisas foram piores. António Joaquim, 84 anos, não larga o filho. Eurico tem 57, na noite em que as labaredas pioraram temeu pela vida dos pais e foi pô-los a Portimão. "E depois voltei, como já tinha sido bombeiro deixaram-me passar."

Quando chegou às cumeadas das Caldas, pelas dez da noite de domingo, as labaredas começavam a invadir as suas propriedades. Primeiro foi abrir a porta ao curral das ovelhas, "para que se entregassem ao seu destino". Eram 12, salvaram-se todas. Às capoeiras já não conseguiu chegar, galinhas e coelhos perderam-se todos.

O fogo vinha de todas as partes e Eurico Joaquim ainda não sabe como manteve o sangue frio. "Ia despejando água às zonas que via que estavam piores. Tinha de administrar o perigo, porque o fogo vinha de todos os lados. A madeira que tinha empilhada encostada à casa começou a arder, mas não lhe pode atender porque já havia fagulhas a entrar pelo telhado. "Deixei queimar e fui regar a telha. Quando acabei, lá dei conta da lenha. E depois acabou-se-me a água, porque as tubagens queimaram. Sou prevenido e tinha uma espécie de cisterna transportável comigo. Foi a minha sorte."

Dois dias andou o homem nisto. Não havia rede de telemóvel, muito menos eletricidade para carregar a bateria, por isso ele mandou uma mensagem de telemóvel ao pai a dizer que estava tudo bem, mesmo antes da máquina se extinguir. Haveria de chegar ao destino, quando o vento corresse de feição. Em Portimão, António Joaquim desesperava sem notícias do filho. Na manhã de segunda-feira ligou para o 112 para que lhe fossem ver do rapaz. Nada. À tarde caiu o SMS. Um alívio

Eurico apareceu em Portimão já a madrugada de terça tinha virado as quatro da manhã. Os pais caíram-lhe nos braços, viam na televisão um inferno e temeram o pior. Ontem à tarde, quando pai e filho galgaram as Caldas para avaliar os estragos na propriedade, o octogenário António Joaquim abraçou o filho, que era coisa que não fazia desde que ele era miúdo. E agora não o larga. Não o quer perder de vista outra vez. "Está desorientado", diz Eurico, encolhendo os ombros. Como uma cegonha nas chamas.

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