É a vida

A conversa entrou pela janela do meu escritório esta manhã.

- Sabe, vim morar para aqui há 15 anos, o meu marido passou a vida toda a poupar para esta casa e só dormiu aqui uma noite, a primeira, quando chegámos. De manhã estava morto, coitadinho.

- Ai, não me diga...

- Ainda o ouvi dizer que queria voltar para a casa antiga, a gemer, até pensei que era um sonho, sabe que a quimio às vezes dá para isso... mas não era.

- Ai, é a vida...

- Para ele foi a morte...

- Pois é, mas a morte deles também é a nossa vida.

Seguiram os respectivos caminhos, rua abaixo e rua acima, e eu fiquei a pensar naquilo. As palavras das senhoras ecoavam ainda, como numa casa vazia.

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.