Explosões de multibancos. Em 2017 foram 158, neste ano apenas seis

Os assaltos a caixas ATM praticamente desapareceram, com a detenção pela PJ de quase três dezenas de suspeitos. Equipas mistas da Judiciária, da PSP e da GNR não saíram do papel.

Valentina Marcelino
© Fernando Fontes

Desde início do ano até esta segunda-feira a Polícia Judiciária (PJ) apenas abriu seis investigações por roubos a caixas ATM, com recurso à explosão. Segundo dados oficiais que esta polícia facultou ao DN, no ano passado foram iniciados um total de 158 inquéritos por crimes desta natureza e detidos 17 suspeitos. Neste ano também já foram presos e tirados de circulação outros 12, causa para o efeito pretendido: reduzir a números insignificantes este fenómeno criminal que tanto alarme público causou.

Outro dado a assinalar é que, dos seis roubos à bomba, apenas três foram consumados. Ou seja, em metade deles os ladrões fracassaram o objetivo. O ano de 2017, de acordo ainda com o balanço da PJ, foi, de facto, um ano de muito sucesso para estes grupos criminosos: em quase 70% (109) dos 158 assaltos os criminosos tiveram sucesso, apenas não tendo conseguido levar o dinheiro de 49 multibancos. A estimativa das autoridades apontou para dois milhões de euros roubados.

Esta proporção de roubos consumados/tentados é inédita no registo destes crimes. De acordo com estatísticas da SIBS, empresa que gere a rede multibanco, em anos anteriores apenas um em cada três assaltos tinha sucesso. Ao que o DN apurou, a explicação reside no facto de um dos gangues que mais ATM explodiu em 2017 ter atacado equipamentos com vulnerabilidades de segurança, o que lhe deu uma taxa de sucesso de praticamente 100%. Este gangue foi detido no final do ano passado - por isso também a redução dos assaltos - pela PJ, com o apoio da GNR. "Gente perigosa", como lhe chamou o então diretor da Unidade Nacional de Contraterrorismo, Luís Neves, atual diretor nacional da PJ. Eram três homens, dois portugueses e um estrangeiro, com idades entre os 27 e os 30 anos.

Estes ATM foram, entretanto, mandadas substituir pelo ministro da Administração Interna, num despacho em que ordenou às entidades bancárias e à SIBS um conjunto de medidas preventivas. Fontes policiais ouvidas pelo DN admitem que, além das detenções, outro motivo para o decréscimo de roubos possa também estar relacionado com esta iniciativa.

Além da substituição destas máquinas, estava também previsto o aumento das condições de segurança dos ATM em zonas consideradas de maior risco e a tintagem das notas, esta última considerada por peritos como a mais eficaz medida dissuasora. O despacho do ministro era de 12 de dezembro e dava 90 dias à banca para executar as medidas - até março, portanto.

O DN pediu ao gabinete de Eduardo Cabrita que facultasse dados concretos que permitissem sustentar a influência das suas ordens com a diminuição dos assaltos, mas, até ao momento, ainda não obteve resposta. Eduardo Cabrita foi quase uma vítima direta destes crimes, quando fizeram explodir e roubaram um multibanco no seu prédio, apenas seis dias antes de ter concluído este despacho

A mesma relação causa-efeito é mais difícil quanto à iniciativa da Procuradoria-Geral da República (PGR), que quis criar equipas mistas de procuradores e polícias (GNR, PSP e PJ) para "combater" estes crimes, mas que não chegaram a sair do papel nem são conhecidas as suas conclusões. Em dezembro de 2017, Joana Marques Vidal assinou um despacho em que dava três meses a uma equipa mista de "análise" - e não de investigação criminal, como chegou a ser previsto - para propor estratégias de investigação para travar os assaltos aos ATM.

"O elevado número de casos, a sua dispersão territorial e a forma como os agentes dos factos têm concretizado a atividade criminosa tornam fundamental que o Ministério Público (MP) crie as condições necessárias e adequadas a que a investigação se desenvolva com conhecimento global do fenómeno, de forma integrada, articulada e coordenada entre os seus departamentos e os órgãos de polícia criminal, de modo a reforçar, com eficácia, a capacidade de resposta", justificou Joana Marques Vidal no seu despacho que determina a criação de uma "equipa conjunta de análise".

A PGR queria que a "equipa conjunta" de análise apresentasse "informação com proposta de definição de estratégia e metodologias de investigação no prazo de três meses". Contactada para um ponto de situação sobre estas conclusões, a PGR confirma que "o relatório foi entregue em março de 2018, pelo grupo de trabalho" e que "na sequência do relatório apresentado a temática está a ser acompanhada". A porta-voz da procuradora-geral diz que "neste momento não é possível facultar mais informação" e que se "perspetiva poder dar-se informação mais circunstanciada no decurso do mês de setembro".