Premium Jeremy Corbyn

Foi mais uma semana de loucura no carrossel do Brexit. A terapia, a existir, terá de ser de grupo e duradoura, não há só um paciente. O beco a que sucessivamente se chega tem também Jeremy Corbyn como um dos principais culpados.

É mais uma das bizarrias criadas por este rocambolesco drama político do Brexit: um governo que quer à força ir para eleições e o principal partido da oposição a querer evitá-las, depois de ter estado dois anos a pedi-las. Todos percebemos as razões para tal, mas o que fica não é o cálculo, é a substância. São os avanços e recuos semanais, é a ausência de clareza nas propostas, o voluntarismo, a crença numa ginga parlamentar que tem tido mais embaraço do que rasgo, e a falta de sensatez mínima coletiva numa classe política que não parece ter percebido como os tempos a descartam e abraçam outra sem pudor: Nigel Farage, o vácuo político mais célebre dos pubs londrinos, já ganhou duas eleições europeias; Donald Trump, outro vácuo político desta vez mais célebre em reality shows, prepara-se para ganhar outra vez as presidenciais americanas.

É aqui que estamos nas duas democracias mais famosas do Ocidente, mesmo que os efeitos inebriantes de 2016 ainda perdurem entre os mais incrédulos. O mundo mudou mesmo: as democracias estão com choques internos brutais e as autocracias a exportar modelos de poder cada vez mais aceitáveis aos olhos da opinião pública. No Reino Unido, os dois grandes partidos estruturais à democracia do pós-guerra vão precisar de uma longa terapia se quiserem continuar a representar uma solução sólida para a estabilidade do país e para manter o estatuto internacional conquistado desde a perda do império. Em boa verdade, os britânicos olham para as opções políticas e veem duas versões kamikaze para o Brexit (Farage e Johnson) e uma versão totalmente inconsistente e incompreensível como suposta alternativa (Corbyn). A única via percetível e coerente, posta logo em cima da mesa na campanha para o referendo, é a dos liberais-democratas, que sempre foram pela manutenção do Reino Unido na União Europeia. É certo que têm conquistado eleitores (nas municipais deste ano tiveram o maior crescimento entre todos os partidos e nas europeias ficaram em segundo), mas a falta de implantação nacional, o sistema eleitoral e as constantes mudanças de líderes não têm afirmado o partido como depositário da confiança dos 16 milhões que votaram pela permanência.

Ler mais