Quem é Boris Johnson e por que isso interessa?

Boris Johnson tem algumas qualidades, mas os seus defeitos são largamente mais visíveis. Quem é este homem que tanto promete e tão pouco consegue fazer? E como é que chegou ao leme de uma das democracias mais antigas do mundo?

Ao fim de seis semanas de poder, Boris Johnson já teve quatro derrotas no Parlamento britânico, expulsou do Partido Conservador duas dezenas de deputados e prendeu-se a uma estratégia de que não consegue sair. Quem é este homem que tanto promete e tão pouco consegue fazer? Como é que chegou ao leme de uma das democracias mais antigas do mundo, com venerandas instituições e práticas avançadas de governação? A resposta a estas questões passa pelo entendimento do que se está a passar com a direita do espectro político em muita parte do mundo ocidental e, de certo modo, ajuda também a esclarecer o que se passa com o PSD, num país há quase meio século ligado a esse mundo das democracias ocidentais. Curiosamente, em Portugal são poucos os que se declaram abertamente apoiantes da figura em causa, sendo o fugaz elogio que Paulo Portas lhe fez, quando chegou ao cargo, uma notória excepção.

Boris Johnson tem algumas qualidades, mas os seus defeitos são largamente mais visíveis. Trabalha pouco os discursos, está rodeado de um espectro curto de assessores, conselheiros e ministros, e nem sempre diz a verdade quando esta é contrária aos propósitos que diz defender. Com uma ligeira vantagem nas sondagens, procura ir para eleições de modo a conseguir uma maioria no Parlamento. Todavia, essa estratégia está dependente da vontade de forças políticas que ele não controla e nada lhe garante que uma vitória lhe dê o poder de que precisa. Tudo isto é verdade, mas não chega para explicar Boris Johnson.

Há por trás de Johnson uma agenda de política económica que favorece umas causas em detrimentos de outras. Nada podia ser mais claro relativamente ao que está em jogo do que um recente editorial do The Wall Street Journal, um fervoroso apoiante do Brexit e de todos os que o prometem, incluindo o actual primeiro-ministro britânico. Segundo o jornal, Johnson tem o dever de tudo fazer, incluindo suspender o Parlamento, de modo a retirar o Reino Unido da União Europeia, para que possa estabelecer acordos bilaterais com outros países e, em particular, com os Estados Unidos. Ora, esses acordos deverão envolver o comércio de bens e serviços, mas também a desregulação de outros sectores da actividade económica.

O editorial em causa refere especificamente o Serviço Nacional de Saúde britânico (NHS) e diz que os "americanos há muito que esperam que a Grã-Bretanha liberalize a forma como o NHS decide que medicamentos oferece aos pacientes e a que preços". Por outras palavras, o jornal defende que a Grã-Bretanha adopte um sistema de saúde próximo do modelo norte-americano, dominado por negociações de mercado entre forças de diferente peso, isto é, entre conglomerados industriais, por um lado, e hospitais ou indivíduos, por outro, sistema que, não por acaso, é um dos mais ineficientes e mais caros do mundo ocidental. Acrescenta que os preços estabelecidos numa Grã-Bretanha fora da EU teriam repercussões à escala global.

Mas não se fica por aqui. O jornal defende ainda que o RU "deve deixar as regulações de protecção alimentar ao estilo europeu, que são uma barreira ao comércio internacional alimentar", referindo em particular o que se passa com algumas práticas norte-americanas, proibidas na União Europeia. Fala ainda das políticas de tributação das grandes companhias da internet, todas elas norte-americanas, e que a Europa há muito prepara para introduzir. Estes são três exemplos das palavras de ordem por trás de Boris Johnson que, com a sua pose extravagante (tal como a de Trump), não está obviamente sozinho. Raro é que esses apoios sejam expostos de forma tão clara.

A opinião pública portuguesa (ainda) está vacinada contra estes argumentos supostamente "liberais" depois de ter levado com eles durante mais de quatro anos e de a história ter mostrado quão falaciosos eles são. Na verdade, o falso liberalismo dos grandes interesses económicos e financeiros, sabe-se em Portugal, não é mais do que uma fachada que leva a maior desigualdade social - e a menor eficiência económica. Não basta reconhecer esse facto, sendo preciso encontrar ideias alternativas, no centro-direita e essa tem sido a dificuldade do PSD.
Acordará o eleitorado britânico a tempo de evitar que a história se repita, mais uma vez?

Investigador da Universidade de Lisboa. Escreve de acordo com a antiga ortografia