O centenismo e o futuro do centro-direita

Aos eleitores que se posicionam politicamente no centro-direita resta uma decisão: ou dão força aos seus partidos não se abstendo ou abrem as portas a derivas extremistas, sobretudo no PSD.

Numa edição do Bloco Central, programa em que participo com o Anselmo Crespo e o Pedro Adão e Silva na TSF, há uns meses tivemos como convidado Rui Rio. À pergunta se enjeitaria a possibilidade de ter Mário Centeno como ministro das Finanças, o presidente do PSD hesitou e não negou essa possibilidade.

Mário Centeno é a representação do que hoje decide as eleições em Portugal. Num país ainda com memória da crise que, justa ou injustamente, foi atribuída a desmandos orçamentais, Centeno é o rosto das contas certas e da defesa contra os impulsos despesistas que a maioria do eleitorado associa à esquerda. Um moderado com imagem de rigoroso e sem a carga austeritária que a propaganda socialista ajudou a temperar.

Como diabo se quer que o centro-direita se encarnice contra o PS se a sua figura-chave é o rosto de tudo o que esta gosta? Os eleitores tradicionais do centro-direita podem detestar António Costa, mas de cada vez que ele garante que Centeno fica no governo torna-se mais suportável. De cada vez que Costa fala do seu ministro das Finanças há uns milhares de cidadãos PSD e CDS que decidem ir passar o fim de semana de 6 de outubro fora das suas residências habituais.

É normal que a suposta guerra contra a maioria absoluta do PS seja indiferente à maioria dos votantes tradicionais do centro-direita. Centeno provou que não é por o governo ser apoiado por PCP ou BE que a sua política muda: a política económica é a que defendem, os sindicatos tradicionais estão sossegados e o BE lança o fogo-de-artifício costumeiro que não aquece nem arrefece. Por outro lado, a maioria absoluta traria outro sossego no que diz respeito a uma eventual saída de Centeno ou a não previsíveis delírios de António Costa. O primeiro-ministro que fez neste verão, na greve dos camionistas, uma exibição de autoridade que também é tão ao gosto do centro-direita.

Um dos erros do discurso de oposição do PSD e do CDS, antes de Rui Rio ter chegado à liderança, foi o de invocar o fantasma da extrema-esquerda. As mensagens políticas precisam de um mínimo de credibilidade e o que se pôde assistir foi ao BE e ao PCP a engolir a TINA inteirinha. Não só a deglutiram como foram arautos da dita, apoiando um governo que a cumpre à risca. No fundo, esses dois partidos venderam a alma num acordo com cláusulas que até o governo de Passos Coelho dizia que ia levar a cabo, apenas levando mais tempo. Tudo o resto foi expectável: impossibilidade de reformas, pois já se sabe que em termos ideológicos e em grandes linhas nada aproxima o PS desses dois partidos.

A habilidade política de António Costa e a hipocrisia dos partidos à sua esquerda conseguiram, aliás, que não mais se falasse da TINA que no governo anterior andava nas bocas de meio mundo. O facto é que a política económica no seu cerne é exatamente a mesma. Ninguém nega a devolução de alguns rendimentos e a reposição de alguns direitos sociais, mas a cartilha básica continua a ser a que as políticas europeias defendem. É, claro está, outra das razões para as dificuldades do PSD em afirmar um discurso alternativo. Da atual liderança e de outra qualquer que estivesse em funções. Fosse qual fosse o governo submeter-se-ia aos mesmos mandamentos.

As políticas económicas não seriam significativamente diferentes e a situação política e social não apresenta qualquer crispação que motive as pessoas a correr para as barricadas partidárias. Não é em vão, aliás, que a direita radical que se instalou no PSD, mais o seu jornal e o movimento 5.7 procura criar causas fraturantes. A fantasia da ideologia de género, a história das casas de banho, o discurso da corrupção generalizada e a narrativa insultuosa aos adversários não são mais do que uma tentativa de procurar fatores de conflito. No fundo, pretendem mostrar que havia uma outra maneira de fazer oposição. Artificial, sem sentido e perigosa, diga-se.

Não tenho dúvidas de que face ao exposto e à conjuntura económica e social seria impossível ao PSD e ao CDS obter uma vitória nas eleições. As democracias têm ciclos, a realidade é muito teimosa e o facto de o PS ter ficado com as bandeiras de sempre do PSD fez o resto. E que fique claro, Assunção Cristas e Rui Rio cometeram muitos erros, mas nenhum suficientemente grave para que se possa afirmar que o possível resultado negativo seja da sua inteira responsabilidade. Um de que se acusa Rui Rio, o de não ter conseguido unir o partido, está longe de ser de sua exclusiva culpa: a presença no PSD de gente que o quer transformar numa organização alt-right à portuguesa nunca seria conciliável com a história e o património político do partido. É impossível conciliar o inconciliável.

Aos eleitores que se posicionam politicamente no centro-direita resta uma decisão: ou dão força aos seus partidos não se abstendo ou abrem as portas a derivas extremistas, sobretudo no PSD. E que não existam dúvidas, uma debacle eleitoral que resulte numa revolução nos ainda social-democratas não trará uma nova direção moderada, mas trará sim um grupo de radicais que acabará por destruir o espaço do centro-direita e o PSD com ele.

Nestas eleições, a questão maioria absoluta ou não, mais BE ou mais PS é detalhe. O que está em causa é se o nosso sistema continuará a ter uma alternativa moderada à direita ou uma alt-right à portuguesa no lugar do PSD e do CDS.