Notas do Japão (II)

Quando eu viajava, ia escrever quando eu existia mas podia ser muito niilista, não havia telemóveis nem Instagram. Por um lado, as coisas eram mais lentas (e não querendo parecer velho, algo miraculosas na forma como corriam bem, provas da bondade humana, ou de um Deus-sherpa), tudo tinha de ir sendo descoberto e a cada momento confirmado ou infirmado o que estava escrito nas páginas do guia. O que se ganhava em serendipidade perdia-se em eficiência. Estou a falar de viagens verdadeiras, com estrada pela frente e mochila por trás, com a miragem de panquecas de banana e um grupo de australianas na próxima paragem, com tempo cantado em CDs contados.
Mas era tudo mais rápido porque não havia Instagram. Ontem foram 20 minutos no topo do Museu de Arte da Prefeitura de Nagasaki.

O museu, desenhado pelo Kengo Kuma (que agora vai fazer uma intervenção no jardim da Gulbenkian), tem um jardim com vista sobre a cidade, o porto, as montanhas em volta. Assim que saíram do elevador as três adolescentes entraram em êxtase. Pensei tratar-se de efeitos da presença portuguesa na cidade, da relíquia do São Francisco Xavier que tínhamos visto dias antes em Kagoshima, ou mesmo efeitos da radiação nuclear. Não. Era o sítio perfeito para fotos para o Instagram. De lado. De frente. Nos bancos. Sentadas no chão (a cara de nojo dos japoneses quando elas se sentam no chão para o Instagram dava outra conta de Instagram @grossedjapanese ). Tirar fotos não é tirar fotos, é escolher o telemóvel - pai, o teu é melhor para retrato; para isto era bom era o do pai da Y, que é espetacular (é, mas se calhar gastou o dinheiro todo em telemóveis e não trouxe a filha a viajar ao Japão, claro que não disse, até porque não é verdade, mas não foi por não ser verdade que não disse); mas quem tira as fotos é a L, porque tu não sabes tirar, OK, pai?, és péssimo, admite. Depois ver as fotos. Apagar. Apaga já aquela em que estou péssima, OK? Repetir. Manda para o meu telemóvel. Todas. Voltar ao início.

Voltei a Tanegashima 25 anos depois. Já aqui tinha estado demoradamente num trabalho de grupo no nono ou no décimo ano, por altura das comemorações dos 450 anos da chegada dos portugueses ao Japão. Na verdade, quem fez a maior parte desse trabalho e dos outros, já agora, até foi a Inês, mas foi um trabalho que deu gosto fazer (os trabalhos de grupo eram os grupos de WhatsApp da altura, uns mais intervenientes, outros penduras, uns namoros pelo meios, algo onde a competente de grupo excedia a do trabalho, exceto para a Inês). O trabalho foi também feito sem internet (a base do copy paste foi ampla documentação do Centro Nacional de Cultura, daquelas publicações condenadas a ver mais pessoas a esperar à volta da mesa onde jazem do que leitores).

Foi complementado com o Wenceslau de Morais e foi nessa altura que me lembro de ter refletido pela primeira vez sobre a Expansão portuguesa. O que faziam aquelas pessoas ali, naquela altura, naqueles lados do mundo? O que as movia? Desde aí, sobre a Expansão oscilo, por vezes na mesma hora, entre o José Hermano Saraiva e o Boaventura Sousa Santos. Em 1543, num barco chinês aportaram na ponta sul da ilha de Tanegashima dois ou três portugueses, o barco naufragou, foram salvos, puderam ficar. E ainda hoje lá chegar não é trivial, é preciso ir até Kagoshima (onde esteve São Francisco Xavier e seus companheiros), apanhar um ferry (há lento e há rápido). Depois na ilha chega-se à capital Nishinoomote. E aí há o Museu da Espingarda. Na ilha, ser português é uma festa. Aparecem por lá poucos (mesmo o turismo japonês é pouco, preferem a ilha do lado de Yakushima).

Portugaro?! Normalmente seguido de uns gritinhos e quatro palminhas. Coisa muito bonita mas nunca consegui desfrutar do momento porque sentia com a visão periférica que uma das três ia deixar de aguentar o riso, e seria um incidente diplomático, e eu li o Silêncio e visitei o memorial dos 26 mártires em Nagasaki, sei o que eles também já fizeram a católicos que se armaram em espertos. Oh pai não dá mesmo para aguentar, é cómico de mais. Ai aguenta aguenta. Há o Museu da Espingarda, dizia, que é uma experiência surreal, desde logo num edifício em forma de nau. Trinta por cento são espingardas - a introdução da espingarda pelos portugueses em 1543 permitiu o fim de um sem-número de pequenas guerras internas e consequentemente levou à unificação do Japão, isto é repetido vezes sem conta com uma gratidão profunda; vinte por cento é plantas e bicharada local, fósseis e afins; a restante metade é Vila do Bispo. Isso mesmo, Vila do Bispo. Nesta ilha remota entre o mar da China e o oceano Pacífico há um museu que tem um andar inteiro em torno de Vila do Bispo (também há a Rua de Sagres, assim escrito em português, a avenida principal da cidade). A geminação das cidades, as visitas cá e lá, um quadro da Vila logo na entrada, Mário Soares em visita, atletas olímpicos em estágio, assinaturas de protocolos, só lá falta o Café Correia.

Já no sul da ilha, lá na ponta onde chegaram os homens da espingarda, um monumento, também uma nau, uma placa da Marinha Portuguesa, várias lápides. E ninguém. Nem oriental nem ocidental.
Mas porque esse Deus-sherpa anda aí, no hotel, na receção, estava a Elisabete. De Lisboa, a única portuguesa em Tanegashima. Conheceu o marido autóctone da ilha há 24 anos e por lá está e vai continuar. Gosta disto. Não tem ido a Portugal.

A outra única portuguesa que conheci por aqui foi a Edna, prostituta vinda de Xangai para Yokohama, com muito sucesso porque as portuguesas têm cara de japonesas e corpo de europeias. E não há melhor do que isto, isto segundo Jun"ichiro Tanizaki話b na sua The Story of Tomoda and Matsunaga, publicada em 1926 e que leio no Penguin Book of Japanese Short Stories, editado por Jay Rubin, 2018. É sobre portuguesas mas é também sobre o Ocidente e O oriente, o fascínio de uns pelos outros. Os oceanos de amor, dos Da Vinci.
Foram os portugueses que juntaram os dois lados do mundo, assim se repete e celebra por aqui. O tufão arrepiou caminho para a China, a viagem segue para norte, se o Deus-instagrão não nos retiver nalgum sol-poente.

Advogado