E sai um programa

A apresentação de propostas políticas, nomeadamente de propostas programáticas, como no caso de um programa eleitoral, é cada vez mais um momento sem interesse noticioso. Ou bem que há uma proposta revolucionária, polémica, capaz de abanar todo o sistema, e então alimenta noticiários e discussões, de tal forma que consome todo o espaço do programa e se confunde com ele; ou então o programa está condenado a ser descartado dos destaques noticiosos, mesmo que de alguma forma ele apresente visões distintas de país e de modelos de crescimento.

Não há notícia, dizem. São propostas muito densas, dizem. Ninguém quer saber desses aspetos, dizem. São páginas a mais, dizem. Não fala das polémicas do momento, dizem. Devia ter 20 páginas, dizem, exigindo ao mesmo tempo que haja resposta para tudo, porque para tudo tem de haver resposta, dizem. E lá se vai fazendo uma pesquisa por palavras, à cata da polémica pretendida, sem que se perceba o contexto, sem que se veja a ambição, sem que se julgue a visão de país. Como se os programas eleitorais servissem para caber numa manchete e não, como é suposto, definir uma visão de país, apresentar soluções e objetivos. Uma pessoa começa a dizer "propomos uma reforma na justiça que altere X e Y" e se não disser qualquer coisa de polémico, a dar para o penal, perdemos a atenção, que isso interessa pouco. Tudo isto entrecortado por lamentos vários à falta de ideias e de alternativas e de visões diferentes. É como se já estivesse tudo escrito mesmo antes de os programas serem apresentados: "Não há uma visão alternativa, não há propostas novas, os partidos não estão a reinventar-se."

Não é um lamento partidário, este, porque isto não acontece com um ou outro partido ou programa, como se fosse uma espécie de complexo; acontece com todos, e as consequências desta atitude, desta falta de vontade de perceber as propostas para uma legislatura, não são boas.

Uns optarão por fazer programas desnatados, sem prejudicar ou magoar ou ofender ou assustar ninguém, programas fofinhos, que garantem uma absoluta ausência de polémica, que a coisa vai passar de fininho - a negação, desde logo, da democracia, que presume combates eleitorais em que todas as cartas estão na mesa.

Outros optam por fazer programas flamantes, cheios de afirmações platónicas, tantas vezes populistas, destinadas a receber aplausos e mais aplausos e mais aplausos e a caber em manchetes, mesmo que nenhuma ideia tenha condições de ser executada nos termos descritos, que em campanha não podem correr-se riscos.
Nenhuma dessas opções é boa.

E o país olha, sem perceber, o que têm os partidos a dizer e a apresentar, enovelados na polémica do dia, dispensados de mostrar em que se distinguem.

Depois surpreendemo-nos com a falta de interesse pela política, tema que enche alguns debates e tertúlias, até que o tema é substituído por uma qualquer polémica, quase nunca por um programa eleitoral.

Advogado