Da radicalização e da prudência

O mundo inteiro tem assistido ao Brexit com suspense e atenção. "Assistir" parece-me a palavra correta. Não só pela velocidade dos acontecimentos, que lembra a ficção, mas também porque sabemos que assistir é verdadeiramente a única coisa que podemos fazer. A grande tradição democrática e parlamentarista da Grã-Bretanha trouxe-lhe a alcunha de Mother of Parliaments. Mesmo nunca sabendo o que esperar do Brexit, temos a consciência de que o seu desenlace será algo que marcará de forma indelével a cultura democrática universal. A verdade é que é uma situação muito complexa. De um certo ponto de vista, a sua origem pode ter estado também no facto de o processo de construção da União Europeia ter talvez descurado uma necessária atitude didática que realçasse o que temos de comum a nível cultural e histórico.

Na luta pela necessária convergência social, o projeto europeu acabou por dar primazia à uniformização monetária e financeira e a harmonização da identidade cultural britânica, por exemplo, com a noção de identidade partilhada da União nunca verdadeiramente se deu. De uma forma algo similar, a conjugação das características do parlamento britânico - e até da própria democracia - com o resultado de um referendo realizado democraticamente, mas em contexto populista, também não é de todo fácil. No caso do Brexit, paira agora a sensação da existência de manobras algo suspeitas, como a recente intenção de suspender abusivamente o parlamento, com recurso à figura da rainha. Por mim, estou otimista e à espera de que, neste dilema britânico, surja de algum lado um turn of events digno de Shakespeare ou de Wilde que permita pelo menos afastar do palco o No deal Brexit e os radicais e imprudentes Boris Johnson e Donald Trump.

Hoje em dia, a radicalização das ideologias e das posições políticas ganha cada vez mais adeptos. Isto ganha especial relevo e perigo para Portugal, em contexto de eleições. Ninguém espera que se desmereça a capacidade de síntese e de diálogo alcançada nesta legislatura e todos (uns mais do que outros) já perceberam que a acusação infundada e a oposição pelo boato e pelo "bota-abaixo" não dão frutos a quem a promove. Foram alcançadas inúmeras conquistas desde 2015, demonstradas por dados e factos. Com esses progressos, o Partido Socialista assume-se nesta legislatura como o referencial do equilíbrio perante a radicalização quer da austeridade quer do seu contrário e é com esse capital inegável que se apresenta agora perante Portugal. É natural em campanha reclamar vitórias e imputar derrotas. Qual o limite? O da prudência, claro. A radicalização, como se vê com o Brexit, acarreta o perigo do impasse. E Portugal não pode parar.

Deputada do PS

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