Catarina: barragens, Montijo e eucaliptos

Com as redes sociais, qualquer palavra fora do sítio torna-se um atestado de incompetência. Não sou um adepto do estilo incendiário do Bloco de Esquerda mas o caso "Barragens/Catarina Martins" revela a dificuldade em falar-se de problemas sérios em formato sound bite. Foi o que aconteceu nesta semana. A líder do Bloco disse num debate, de forma insegura, que um dos maiores problemas do excesso de barragens era a evaporação excessiva de água. Alguém pegou na frase nas redes sociais e foi um fartote. A seguir, o Público foi pedir opinião a um especialista (a um só), que desfez Catarina Martins. (Este especialista foi o antigo secretário de Estado da Floresta de Passos Coelho, e o homem que liderou em 2013 a "lei Cristas" de licenciamento tácito de mais área de eucalipto em Portugal).

Sendo justos, sabemos que a líder do Bloco pretendia ir além dessa simplificação. Ou seja: a evaporação de água de uma grande barragem afeta o clima local de forma significativa? Com que consequências? Coloquei a mesma questão, em 2007, como jornalista, aquando do arranque da construção da barragem do Sabor.

Sabemos que o maior problema das barragens não é a evaporação de água mas sim a perda dos circuitos de biodiversidade e a eutrofização da água - quando se situam em ambientes escaldantes (como era o caso, em Trás-os-Montes, no verão). Perguntei na altura a um dos históricos produtores de vinho no Douro, Francisco Olazabal, proprietário da Quinta do Vale Meão, localizada perto do rio Sabor, sobre se a evaporação da barragem iria afetar a vinha. Respondeu-me que ninguém sabia qual o efeito a longo prazo. Ou seja, se a formação de nevoeiros matinais e o aumento da humidade relativa na região era boa para o vinho ou, como outros temiam, propiciaria maior probabilidade de surgimento de míldio.

A questão que Catarina coloca é uma componente do problema "barragens", ainda que não a maior. O gigante dilema é outro: o PS quer mesmo construir mais uma dezena de barragens no Tejo para fomentar o regadio?

Foi aqui que a líder do Bloco não se focou no essencial: há um discurso desenvolvimentista na Agricultura, liderado por Capoulas Santos, que vai contra todo um ciclo de maior perceção da sustentabilidade. Só que a carta-branca de Costa ao ministro da Agricultura do PS - um homem de outro tempo, muito formatado na versão CAP da "grande agricultura" - resulta numa dezena de novas barragens que são uma tecnologia de intervenção na natureza fora do nosso tempo.

Ainda por cima, como se vê no Alqueva, a qualidade da água piora de ano para ano pelo calor/eutrofização/salinização. Não é de excluir que acabe por ser inútil até para a agricultura - exceto se o custo para a dessalinizar e purificar for colossal. Quem o pagará?

Mas, se a questão das barragens não tem solução nem quórum público - os eleitores estão nas cidades e querem água e produtos nos supermercados, enquanto der -, há outros temas que talvez sejam importantes até às eleições: os incêndios e o novo aeroporto. Em ambos, só o Bloco se opõe ao PS. Os outros partidos - PCP, PSD e CDS - vão acabar por apoiar o PS na criação de mais barragens, em construir um aeroporto na Margem Sul, sejam quais forem as consequências, ou em manter este faz-de-conta sobre as monoculturas de eucalipto e pinheiro desde que isso não afete demasiado as grandes empresas/grandes sindicatos/proprietários rústicos.

Na campanha ficam, entretanto, por responder questões essenciais: Alverca não pode ser uma alternativa ao Montijo com menos impacto ambiental? As grandes empresas industriais nunca serão chamadas a pagar uma taxa sobre os lucros para apoio aos custos da Proteção Civil? Somos capazes de ter uma outra agricultura, cidades comestíveis e menos pegada carbónica na nossa alimentação, sem recurso a mais barragens?

Só na política de transportes públicos o PS marcou pontos indiscutíveis e estão todos genericamente de acordo que o caminho é este.

Mas nestas eleições, em termos ambientais, há o Bloco, o PAN e o Livre de um lado, e o "sistema" do outro. Conclusão: "Alterações climáticas" é um tema sensível em que o PS tem a possibilidade de perder muitos votos.