Premium Pedro Nuno Santos passeia no Avante! mas não ouvirá os avisos de Jerónimo

A um ano das eleições, líder do PCP tem na Festa do Avante! o palco para a sua rentrée e para o caderno de encargos ao governo. Pedro Nuno Santos vai ao Seixal no sábado.

É um hábito já de três anos: o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Pedro Nuno Santos, despe o fato de governante e vai passear à Festa do Avante!, acompanhado da família. Mas não escapará à condição de membro do governo socialista que é apoiado no Parlamento pelos partidos da esquerda parlamentar, PCP incluído. Este passeio acontecerá no sábado e haverá certamente um dirigente comunista para o receber, como no ano passado, quando o líder da bancada, João Oliveira, fez as honras da casa na Quinta da Atalaia, no Seixal.

Não há festa como a deles, argumentam os comunistas, que até convencem opositores (já por lá andou Marcelo Rebelo de Sousa meses antes de ser eleito Presidente da República) ou parceiros ocasionais como Pedro Nuno Santos. Mas, em tempos em que as críticas sobem de tom por parte da geringonça junto do governo, o sábado é o dia certo para o secretário de Estado subir os terrenos da quinta debruçada sobre a baía do Seixal. Nesse dia, Jerónimo de Sousa, o secretário-geral do PCP, já fez o seu (curto) discurso de abertura, reservado para o fim da tarde desta sexta-feira, e ainda não se abalançou à longa intervenção com que no domingo encerrará mais esta "obra coletiva fascinante", como no ano passado se referiu à realização da festa.

E de Jerónimo espera-se aquilo que com mais ou menos intensidade tem dito durante o verão. Que o próximo Orçamento não pode significar recuos na recuperação de direitos e de rendimentos dos trabalhadores e de que é tempo de investir nos serviços públicos do Estado.

No palco, pode ouvir-se o secretário-geral comunista, que, nas Festas das Vindimas em Palmela, na passada segunda-feira, dizia aos jornalistas que há "um equívoco", de que se está "perante um governo das esquerdas ou de um governo de esquerda", quando, "na prática", se está "perante um governo minoritário do PS, que, ao arrepio do que aconteceu naqueles quatro anos de governo PSD-CDS, conseguiu convergir connosco em relação a rendimentos, direitos, aspirações dos trabalhadores e do nosso povo". E que vê um PS com vontade de dançar com a direita.

Ou também se pode ouvir o líder do partido, que, na passada terça-feira, em entrevista à RTP, assumiu a custo que a geringonça "valeu [a pena] pelos avanços que se conseguiram alcançar" e que "o PCP está em condições de assumir qualquer responsabilidade", incluindo a de ser governo, para o fazer com rutura e com uma política alternativa. "Ir para o poder pelo poder, para isso não estamos disponíveis", completou.

O desafio do secretário-geral do PCP joga-se sempre entre o discurso para o interior de um partido que aprendeu a desconfiar, desde sempre, do PS e um discurso que para fora alimente quem na esquerda saudou os inéditos acordos parlamentares que possibilitaram a chegada ao poder dos socialistas, ancorados no apoio parlamentar de bloquistas, comunistas e ecologistas, e que não desejam que a direita regresse ao poder.

Há um ano, Jerónimo avisava que os avanços alcançados não podiam "iludir ou deixar anestesiar" os comunistas. E, a um ano das eleições, o caderno de encargos para o Orçamento e as exigências lançadas à governação (como o aumento do salário mínimo) serão certamente maiores. Mas não será no Seixal que Jerónimo fará perigar as junções da geringonça. E o visitante de sábado, que é o ponta-de-lança do governo nas negociações com a esquerda, sabe bem isso.

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