"Humans". A série que constrói robôs desconstruindo os humanos

Pode uma série de ficção científica fazer-nos olhar para o momento que atravessamos, depois do brexit e com a crise dos refugiados? E pode fazer-nos questionar o que faz do humano humano? É isso que Humans se propõe. A nova temporada estreia-se hoje no AMC.

Mariana Pereira
Ivanno Jeremiah (Max), Gemma Chan (Mia), Emily Berrington (Niska). Em cima: Colin Morgan (Leo,) e Katherine Parkinson (Laura Hawkins) | foto D.R.
Ivanno Jeremiah (Max) | foto D.R.
Ivanno Jeremiah (Max) | foto D.R.
Ivanno Jeremiah (Max) e Gemma Chan (Mia) | foto D.R.

Estamos num lugar grande, gelado e inóspito, num interior composto sobretudo por ferro, chamado The Railyard. É uma espécie de quartel secreto de uma população perseguida em tempos de guerra. Há marcas de vida em tabuleiros de xadrez abandonados, pinturas nas paredes, ou livros postos em estantes metálicas. Max, líder da guerrilha escondida, fala.

Na verdade, estamos numa central elétrica desmantelada nos arredores de Londres. Max é o ator Ivanno Jeremiah e as câmaras estão ligadas para captar a terceira temporada da série Humans, que se estreia nesta noite às 22.10 no canal AMC.

Passou-se um ano desde que Mattie Hawkins deu consciência a todo e qualquer synth, sistema de inteligência artificial (IA) altamente desenvolvido e de aparência em quase tudo semelhante aos humanos, à exceção dos olhos verdes que não piscam ou do movimento robótico tão limpo e direto. Nessa altura, naquele que ficou conhecido como Dia Zero, mais de cem mil humanos foram mortos e milhões de synths foram destruídos.

Estes robôs conhecidos como synths, e criados para assistir os humanos, estão agora conscientes e lutam pela sua sobrevivência, já que são perseguidos e o governo lhes cortou o acesso à energia elétrica de que precisam para sobreviver e que tentam encontrar de formas alternativas. O Reino Unido, pano de fundo desta série que combina ficção científica e thriller num contexto que começou por ser inerentemente doméstico, está profundamente dividido entre aqueles que apoiam os synths e defendem o seu direito à existência e aqueles que os querem destruir.

Ukweli Roach, que representa Anatole, o agora confidente de Max, com quem este desenvolve uma relação além da amizade, lança: "Acho que a série faz um paralelo com os temas políticos do momento. O facto de se considerar um grupo de seres como uma subclasse, que não tem os mesmos direitos que nós, que não são de facto humanos, pode ser aplicado a toda a história da humanidade, à forma como a divisão e a revolução ocorre."

O ator de 31 anos afirma que "antes deste trabalho não tinha pensado acerca da IA de forma profunda. [Mas] independentemente de quanto evolua, no limite acho que os humanos venceriam [num conflito] porque nós temos esperança, que é algo ilógico. Não faz sentido. Um synth não teria esperança".

Outra das características que define um synth é a economia de energia, já que precisa dela para sobreviver e não é capaz de a produzir por si só. "Nós fazemos muitos movimentos superficiais. Desperdiçamos muita energia. Dançar, por exemplo, porque haveríamos de o fazer? Gostamos muito de fazer coisas supérfluas e não há sentido nisso. Há algo bonito em torno disso: porque cantamos ou dançamos?"

"Agora a parada é mais alta, a escala é maior"

A atriz Emily Berrington, que representa Niska, uma das personagens principais e também ela synth, assinala que é pouco comum as séries de televisão terem, como esta, personagens femininas como principais e que não o são por estarem ligadas a personagens masculinas. É o seu caso e o de Mia, personagem interpretada pela atriz Gemma Chan. "Nesta série as mulheres são muitas coisas que normalmente não vemos na televisão, como fisicamente fortes", repara.

Outra das particularidades de Humans, afirma a atriz, é ser "um drama inerentemente doméstico com elementos de ficção científica, que começa com uma família no seu lar, lar que todos nós reconhecemos". O lar, claro, é o de Laura e de Joe Hawkins, agora separados, de quem Mattie, que dá consciência aos synths para salvar Mia, é filha.

Ao mesmo tempo, Berrington chama a atenção para o seu raio de incidência, que se estende bem além das quatro paredes de uma casa: "A série reflete mais do que nunca o que se passa no mundo, e esse sentido forte de divisão está relacionado com a mentalidade que vemos por toda a parte: o Reino Unido com o brexit, a América, a crise dos refugiados."

"Agora a parada é mais alta, a escala é maior", lança Sam Vicent, que, com Jonathan Brackley, escreve Humans. "Poucas pessoas discordariam do facto de estarmos numa sociedade cada vez mais dividida", continua, explicando que, na esteira de "toda a boa ficção científica", tentaram que Humans se inscrevesse nessa tradição "que usa ideias do que o mundo é hoje, de quem somos hoje e do que está a acontecer", embora seja "importante nunca ser demasiado específico, porque senão ficamos presos a um momento específico".

Quando lhes pedimos para comentarem uma das frases fortes da série - quando Niska diz, sobre estes produtos da IA, "o mundo nunca estará preparado, mas vai acontecer de qualquer maneira" -, Jonathan responde: "Acho que isso é verdade para a maioria das novidades tecnológicas." Todavia, e pensando no desenvolvimento da IA, lembra que "não há nada de inerentemente perigoso na tecnologia". O que houver de perigoso estará então em quem a manipula. E voltamos ao humano.

"Acho que devemos estar prontos para voltar à questão: o que é que faz de nós humanos? Quanto mais criarmos tecnologias que parecem mimetizar ou reproduzir coisas que antes vimos como sendo exclusivamente humanas mais temos de questionar o que nos torna o que somos."

Claro que não vão revela-la, mas os dois criadores já têm na cabeça qual será a última cena da série, mesmo que não se saiba ainda quantas temporadas terá ainda. "A última cena, com a última personagem numa certa situação", diz, para aguçar a curiosidade, Sam, para quem a cena de 2001: Odisseia no Espaço em que HAL canta Daisy Bell "é provavelmente a melhor cena de IA de sempre".

"Quando se tem consciência não basta viver"

Ivanno Jeremiah interpreta Max, que se tornou o chefe (pacífico) dos synths. "Nesta temporada ele encontrou o amor, e tem responsabilidades. Experienciou a perda e a dor. Cresceu muito. É uma pessoa diferente."

Quanto à resiliência de que os synths estão a dar prova, sobrevivendo mesmo com os cortes de energia (que lhes dá vida) por parte do governo, Ivanno Jeremiah associa-a "à resiliência humana que vemos cada vez mais nos campos de refugiados onde ainda assim [as pessoas] arranjam maneira de sorrir".

Pedimos ao ator que explique o cenário marcado por pinturas que qualquer pessoa que tenha tido contacto com os cânones da pintura ocidental reconhece, ou com a biblioteca que encontramos. "Quando se tem consciência não basta viver. Há sempre essa parte de arte e cultura que tem de aparecer, tem de ser partilhada, e eles estão a criar esse legado pela primeira vez. Temos um Rembrandt e um Ticiano algures. Estamos a humanizar-nos para apelar cada vez mais a estas pessoas que, de forma massiva, nos recusam", explica, quando lhe perguntamos pelas manifestações artísticas que despontam nos synths.

Foi Dan O'Neill quem coreografou os corpos dos atores que vemos representar os papéis de synths. De certa maneira, também ele, coreógrafo, é seu criador. Antes de começar a trabalhar, O'Neill não quis rever o Blade Runner de Ridley Scott nem a série Westworld, para que não o contaminassem. Para criar novo movimento começou por decompor o movimento humano e depois usou "ballet, tai chi, técnicas marciais, formas diferentes de como as pessoas usam o corpo de forma eficaz e muito eficiente". Porque esse é um termo que define os synths: eficácia.

Eles olham-nos como se tivessem um terceiro olho entre os dois - "o mítico terceiro olho", diz o coreógrafo - e caminham como quem não tem "literalmente nada para trás, eles não têm passado, e não têm futuro, porque não querem saber dele, só querem saber do presente. Então andam pelo espaço sem deixar nada para trás." Os synths são mais rápidos do que nós, porque não se perdem em deambulações, acrescenta: "Trata-se sempre de função, um synth completa sempre a ação."

"Passo mais tempo a pensar em humanos do que em máquinas, porque os humanos dizem-me o que não fazer. E toda a comunicação não verbal que estou a fazer aqui eles não fazem. Porquê levantar a sobrancelha?" Dan O'Neill explica que procurou tornar o movimento eficaz, limpo e direto. "Nós elaboramos demasiado as nossas tarefas e decoramo-las com as nossas personalidades." Além disso, e elencando outros traços do movimento tipicamente humano, lança: "Estamos sempre a anunciar o que vamos fazer. Tento tirar os elementos performativos humanos que dizem isso."

Eis os synths, de volta para uma nova temporada, de oito episódios, a obrigar-nos a olhar para o humano antes de os olharmos nos olhos (que continuam sem piscar).