Europa: a bela e o monstro

Miguel Szymanski

A Europa faz atualmente lembrar uma história clássica de amor na literatura moderna: um homem casa-se com uma mulher doce e bonita que um dia desaparece dentro de uma gorda maldisposta. Para ser politicamente correto, acrescente-se que com igual frequência homens atenciosos e apessoados caem em barris de cerveja no sofá em frente à televisão para nunca mais voltarem a ser vistos.

Semelhante sumiço, no patamar das amizades, sofreram vários amigos meus, alemães e portugueses. No ano passado, um simpático amigo alemão desapareceu dentro de um homem zangado e intolerante e nunca mais o vi. Um outro amigo, português e descontraído, foi recentemente engolido por um monstro marinho que vociferava este verão à beira-mar contra os "maomés", como se estes estivessem a aproximar-se ilegalmente em barcaças da Costa de Caparica. É sabido que estão a chegar, mas à costa sul de Espanha, quando não morrem antes afogados no Mediterrâneo ou vítimas da guerra e da miséria.

Os suecos tolerantes e multiculturais, como os sonhou o antigo primeiro-ministro Olof Palme, vão no próximo domingo a votos para, previsivelmente, serem devorados por uma horda de racistas assumidos. A xenofobia e o nacionalismo agressivo também já fizeram desaparecer o modelo tolerante e aberto na Noruega, na Finlândia e na Dinamarca.

Os populistas radicais que estão a fazer desaparecer a Europa humanista rejeitam quem tem uma cor de pele ou religião diferente. Governam agora a Hungria, a Polónia, a República Checa e a Eslováquia. Para não falar de Itália, onde o ministro mais poderoso é um fervoroso admirador de Mussolini, ou da Áustria, onde admiradores de Hitler já chegaram ao poder. Na Alemanha, na Holanda e em França os partidos da extrema-direita são a oposição mais forte e marcam a agenda política, tornando pálidos e anémicos os políticos que não gritam e não berram. A União Europeia está ser destruída por fanáticos e os tecnocratas em Bruxelas continuam a dançar como se não fosse nada com eles. Manfred Weber, da CSU, o partido da Baviera às guinadas para a extrema-direita radical, é atualmente o candidato mais forte para suceder a Juncker na presidência da Comissão Europeia.

Também as vozes da esquerda radical, como a Linke na Alemanha, começam a adotar um discurso xenófobo para não perderem o seu apoio eleitoral nos novos Länder no território da ex-RDA (RDA essa que já no tempo da União Soviética tratava os imigrantes de Moçambique e do Vietname como seres humanos de segunda categoria e lhes negava direitos básicos).

Na Alemanha, depois das manifestações em Chemnitz, na semana passada, a discussão é agora sobre a distinção entre os termos "caça" e "caçada". O governo e a oposição discutem as provas policiais para perceber se os manifestantes nazis e seus simpatizantes "correram pequenas distâncias para esporadicamente fazer caça aos estrangeiros" (Jagd ou caça) ou se "perseguiram por grandes distâncias e sistematicamente organizaram caçadas a estrangeiros' (Hetzjagd ou caçada). Não que sejam conceitos jurídicos, mas, no final, quando se concluir que não houve perseguições dignas da Ku Klux Klan, e que ninguém foi ainda queimado na via pública, isso será uma pequena vitória da nova normalidade.

São muitas as teorias para explicar porque é que o pior que há no ser humano está novamente a ganhar terreno, a conquistar assentos parlamentares, pastas ministeriais, chefias de governo e presidências pela Europa fora (para não falar dos EUA, da Rússia, da China, da Turquia, do Brasil, etc.).

Há causas e explicações para todos os gostos. Dos medos difusos, espalhados sem critério pelas redes sociais, as televisões e a imprensa, à incapacidade do poder político em lidar com o fluxo de refugiados de países em guerra e na miséria, aos quais o Ocidente durante décadas vendeu armamento e de onde retirou a riqueza que pôde. Passando pela crescente desigualdade nos países da UE, as classes médias que temem a destruição dos seus fundamentos, os partidos do centro, que se alienaram dos interesses dos seus eleitores, os governos que privatizam lucros e nacionalizam prejuízos, a União Europeia, pouco transparente e democrática. E ainda: as esquerdas, que se perderam em lutas por direitos marginais e exóticos que o cidadão médio não aprova ou não entende e um "politicamente correto" que causa choques culturais. Ora a causa é a política norte-americana, que deixou um rasto de caos no Iraque, na Líbia e na Síria, ora o financiamento dos partidos radicais na UE pela Rússia.

Não interessa realmente saber se a história na Europa se repete pela insondável vontade de Deus, ou se se limita a caminhar pelos trilhos descritos por Marx. Não serve de muito discutir se as democracias liberais são ou não compatíveis com o atual sistema financeiro e a convenção de Genebra para refugiados. O que vemos à nossa volta é o fim de um ideal de humanismo na Europa, que, no passado, só muito esporadicamente foi posto em prática. No dia em que os nossos vizinhos do lado começam a correr pelas ruas para bater em alguém que tem outra cor, ou acredita noutro deus, sabemos o que aconteceu a esse ideal. Desapareceu outra vez num monstro violento chamado Europa.

Jornalista