O personal trainer que ajuda os atletas a render mais

Francisco Martins tem uma carteira de 50 jogadores profissionais, entre eles Eder, Renato Sanches, João Mário, André Silva, William ou Gonçalo Paciência. O avançado ex-FC Porto conta porque recorreu ao personal trainer e como se sentiu depois. Alguns clubes sabem e aceitam, outros nem por isso.

Ver Manuel Fernandes no pico da forma aos 32 anos, Ricardo Pereira a ser campeão nacional no FC Porto ou Renato Sanches em grande forma no início desta época tem um segredo. Um personal trainer (PT), de seu nome Francisco Martins. Tem 28 anos, é natural de Lisboa, formado em Educação Física na Universidade Lusófona e com cursos na área de futebol e performance mentorship e já ajudou cerca de meia centena os jogadores a melhorar a forma física.

Jogadores do Lokomotiv, do Leicester ou do Bayern Munique, mas há mais. Eder, André Gomes, João Mário, William, André Silva, Luís Neto, Gonçalo Paciência, André Almeida, Svilar, Rúben Dias e Jovane Cabral, entre muitos outros. São cada vez mais os atletas que recorrem a treino personalizado extraclube. "Através deste trabalho específico" com um personal trainer "têm menos probabilidade de se lesionarem e mais longevidade na profissão".

Por norma, segundo Francisco, os atletas fazem "um trabalho muito bom nos clubes", mas "sentem que trabalhando de forma individual" têm mais disponibilidade física para o jogo. "É como na escola, com os trabalhos de casa ou as explicações consegue-se melhores resultados", exemplifica o PT antes de contar como os cativa para a parte do treino: "Eles precisam de se focar na carreira. Custa muitas vezes ver atletas que não gostam de ver futebol. Como pode melhorar como jogador se não tem a capacidade de analisar a sua atuação no jogo? Os atletas não podem ficar contentes por fazerem um bom jogo, têm de ver onde podem melhorar. Sou altamente crítico com o trabalho deles, porque também o sou com o meu, se tiver de apontar o dedo aponto."

A parte do treino físico e de musculação sempre foi vista como a parte que o jogador menos gosta de fazer, porque não tem bola. A esses, Francisco lembra que "o atleta tem de saber que o futebol não é só bola no pé". Aliás, é quase sempre jogado sem bola. "Nós temos estudos e mostramo-los aos atletas. Em 90 minutos de jogo, o tempo médio de um jogador com a bola no pé é de menos de um minuto. O que faz em campo nos outros 89 minutos?", questiona, explicando que "o talento é fundamental em todo o processo, os que não têm talento dificilmente vão progredir na carreira, mas cada vez mais os grandes jogadores jogam mais tempo. As capacidades físicas são 80% a 85% da componente e são o segredo para que o talento venha ao de cima nos jogos".

"Em 90 minutos de jogo, o tempo médio de um jogador com a bola no pé é de menos de um minuto. O que faz em campo nos outros 89 minutos?"

Tanto no ginásio como na vida, este PT não faz nada "por acaso ou porque sim". Há sempre "uma base científica" por detrás de cada decisão e "cada exercício é sustentado em estudos com atletas de alta competição".

Na opinião dele, o trabalho do PT tem de ser visto como um complemento do treino coletivo, mas a maior parte das vezes é estar na sombra - "por vezes o próprio jogador não quer que se saiba"-, é fazer um trabalho invisível mas bem visível aos olhos de todos. Também por isso é "quase inevitável criar uma relação de amizade com eles". Neste ano, por exemplo, foi convidado para ir ao casamento do amigo Eder, o herói do Euro 2016, com quem começou a trabalhar a seguir ao Europeu: "O Eder é dos atletas mais humildes que existem no futebol! Ele merece tudo, é uma pessoa fantástica."

Exercícios de flexibilidade

O ponto de partida é uma avaliação geral, "essencial" para perceber qual é o caminho a seguir. "Fazemos sempre uma avaliação das amplitudes de movimento do atleta, o porquê de um atleta ter muitas lesões musculares, o porquê de saltar pouco, etc." A partir daí trabalha-se os níveis de força máxima, resistência, mobilidade, estabilidade articular...
A duração das sessões varia de caso para caso. Assim como o treino. Não há um treino-tipo. É o Francisco e a sua equipa multidisciplinar que se adaptam às necessidades do jogadores, nem que seja preciso ir ao encontro deles, seja a Espanha ou a Moscovo. Há uns que gostam de ir treinar na véspera do jogo, fazer alongamentos, exercícios de flexibilidade.

Os jogos são monitorizados e estudados pela equipa de Francisco, que tenta vê-los para analisar o desempenho e muitas vezes fala com eles depois dos jogos para saber como se sentiram. Outras vezes são os futebolistas que reportam. Segundo Francisco, o jogador é cada vez mais um profissional consciente, por isso, sempre que há pausas nas competições e nas férias, o trabalho dele aumenta. Alguns ligam-lhe quando vão jogar fora e têm de fazer uma viagem de avião, "para saber como podem diminuir os efeitos da deslocação, seja ela curta ou longa, no processo competitivo (leia-se jogo)".

Como se faz a ligação com os clubes?

A relação com os clubes não é um mar de rosas, mas também já não é só espinhos. Há jogadores que informam os clubes e até levam avaliações e relatórios para os departamentos médico e físico estarem a par do que ele faz, depois há clubes que sabem o que eles fazem mas não querem saber. Outras vezes é o atleta que não quer revelar. Há de tudo um pouco.

Na época passada (2017-18), Francisco e a sua equipa trabalharam em estreita colaboração com o Vit. Setúbal, por causa de Gonçalo Paciência e Tomás Podstawski. "Eles sabiam o que fazíamos aqui com eles e nós recebíamos indicações para saber o que tinham feito no clube. Isso era importantíssimo porque tínhamos perceção da escala de esforço que eles tinham feito no treino coletivo. Essa comunicação é uma mais-valia para a evolução do atleta. Tem de haver mais abertura dos clubes para perceber que se os jogadores têm este tipo de trabalho é para ter mais rendimento. Onde? No clube!", afirma o treinador pessoal, reconhecendo que cada vez mais começa a haver abertura para perceber isso.

Francisco já teve casos de jogadores que se "disponibilizavam pouco para o treino no clube e achavam que era no ginásio que iam conseguir a boa forma física". Mas não! A mensagem é que o trabalho continua em casa, e que ele não pode descurar a nutrição nem relaxar nos treinos do clube: "Só podemos potenciar o que existe. Se trabalharmos sob um treino medíocre nunca vamos ter um resultado extraordinário."

Neste esquema de sucesso "é importante" que eles se concentrem em tudo o que "é jogo, descanso, recuperação, nutrição e invistam mais tempo na análise do jogo deles próprios".

Manuel Fernandes, um exemplo

Qual treinador de equipa, Francisco não gosta de individualizar, nem revela qual foi o caso mais desafiante, mas destaca alguns bons exemplos a seguir, caso de Manuel Fernandes (Lokomotiv Moscovo). "Um dia fui a Moscovo ter com ele e ver um jogo em que o Lokomotiv ganhou ao líder do campeonato, por 4-2. Ele marcou um golo e fez duas assistências. A maioria receberia uma palmadinha nas costas pelo bom jogo e ia descansar ou festejar. Ele não. Chegou a casa e foi ver a gravação do jogo, ver todas as suas ações e com ele a ser muito crítico na abordagem... Os atletas não podem ficar contentes por fazerem um bom jogo, têm de ver onde podem melhorar."

"Altamente" rigoroso com o trabalho deles, porque também é com o seu, garante que não se intima por os futebolistas serem ídolos de grande parte da população, e "se tiver de apontar o dedo" aponta: "Claro que também os elogios, mas é preciso criticar, é na crítica construtiva que o atleta sobe de rendimento. Vir treinar e depois ficar até às três da manhã acordado a ver filmes ou na conversa quando às sete tem de se levantar para ir treinar é inconcebível num atleta de alta competição."

Depois há o exemplo de Gonçalo Paciência, "um jogador com talento que conseguiu tirar o máximo de si com trabalho físico" em quatro meses de trabalho. Outro dos jogadores que têm treinado com Francisco é essa "força da natureza", Renato Sanches: "Tem muito para dar ao futebol. Tem muita qualidade, muito talento ao nível das qualidades físicas. Com dois ou três treinos percebi que estava perante uma força da natureza. E são essas características que o definem como jogador. Ele percebeu que para estar bem, para não se lesionar, o exercício físico tem de estar na vida dele todos os dias. Nuns dias fazemos treino de recuperação, outros são de descanso mas com cuidado na nutrição. O Renato já percebeu que quem facilita em todo esse processo tem mais probabilidades de sofrer de fadiga acumulada e lesões musculares."

"Vir treinar e depois ficar até às três da manhã acordado a ver filmes ou na conversa quando às sete tem de se levantar para ir treinar é inconcebível num atleta de alta competição."

Tudo começou com Jorge Teixeira

Francisco não é um personal trainer qualquer nem tão-pouco um jogador ou um treinador de futebol frustrado, é, sim, um "apaixonado" pelo ginásio e pela parte física do treino. Em quatro anos amealhou uma considerável carteira de atletas. Nunca se interessou pela parte tática do treino de futebol, não era coisa que o seduzisse. Ainda treinou alguns clubes na formação, mas era a paixão pelo ginásio que lhe tirava o sono. Fez formação na área física e entrou neste mundo em 2014 quando um jogador - Jorge Teixeira, um central formado no Sporting que joga na Bélgica - o procurou. O primeiro contacto foi por Facebook, depois foi o passa-palavra a servir de cartão-de-visita. Tiago Gomes, Manuel Fernandes ou André Almeida, colega de equipa na formação do Belenenses, foram dos primeiros que treinou. Hoje tem 50 profissionais, alguns fora do futebol, como o mesa-tenista Tiago Apolónia.

O treino físico e a ginástica sempre foram uma paixão: "Quando jogava no Belenenses quiseram pôr-me a defesa esquerdo, só que eu era extremo e não conseguia sequer fazer um lançamento de linha lateral. Uma vez fui criticado por um treinador e resolvi ir para casa e pesquisar coisas sobre lançamentos. Comprei uma bola medicinal e fui treinar lançamentos para a garagem. Todos os dias, eram dez minutos a fazer lançamentos com uma bola de três quilos. Passadas três semanas, o treinador ficou de boca aberta quando meti a bola na grande área num lançamento [risos]."

Agora ensina isso a muitos jogadores, muitos deles ídolos de um país. Mas o que o diferencia de outros treinadores pessoais? "Dedicação ao treino e aos atletas. Eu dou-lhes o máximo de mim e do conhecimento que existe na área", garante Francisco Martins, que, nesta altura, lidera uma equipa multidisciplinar de treino (com João Gabaso e Tomás Mota, na parte do treino físico, mais um fisioterapeuta, um nutricionista e uma pessoa ligada à recuperação). Porque "ser personal trainer é muito mais do que ser um simples treinador do físico."

Gonçalo Paciência conta como foi: "A partir dos 80/85 minutos sentia-me sempre cansado"

Gonçalo Paciência recorreu a Francisco para "dar o salto" que a carreira de que precisava. "Quando fui para o Vit. Setúbal [época 2017-2018], procurei-o por forma a melhorar o meu rendimento físico. A minha carreira estava numa fase em que parecia não querer descolar, mas com ele consegui", contou ao DN o avançado do Eintracht Frankfurt, da Alemanha.

Como? "A partir dos 80/85 minutos de jogo sentia-me sempre cansado. Trabalhámos duas a três vezes por semana e a partir de certa altura sentia-me bem, a voar, e acho que foi o trabalho dele, porque antes não o tinha feito e agora quando não o faço sinto falta", respondeu Gonçalo, admitindo que sentiu melhorias "brutais" nos jogos.

Acabar as partidas sem esforço foi o primeiro objetivo. Mas havia mais e bastante ambiciosos."Marcar golos no Vit. Setúbal, regressar ao FC Porto, ser campeão e chegar à seleção." E todos eles superados em quatro meses: "Chegaram mais cedo do que eu tinha previsto e o papel que o Francisco teve foi fundamental. Sou eu que jogo, mas o trabalho dele foi muito benéfico nos aspetos físico e psicológico. Ele sabe que lhe estou muito grato." De tal maneira que lhe ofereceu a camisola da primeira internacionalização.

Na altura, o clube onde jogava (Vit. Setúbal) estava a par da situação e havia colaboração mútua. "No FC Porto não eram tão abertos a isso, mas aqui na Alemanha são muito abertos e há muitos jogadores que recorrem a PT de fora que trabalham com o clube. Esse é o futuro", revelou o internacional português, explicando que agora faz algum "trabalho à distância".

E Gonçalo tem uma teoria para que cada vez mais jogadores recorram a um personal trainer: "O futebol está cada vez mais no pormenor físico, porque talento todo o jogador de topo tem. Agora, ser capaz de jogar bem muitas vezes e sempre em alta intensidade e alta rotação é que faz a diferença. Por isso cada vez mais os jogadores procuram esse trabalho específico, é fundamental para nós."

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