O koala xadrezista e a criatividade por sufrágio

Acabadinha de chegar da linha de montagem, ainda com o brilho esperançoso do produto que acredita ser muito melhor do que é, Maniac (Netflix) é o tipo de série que a televisão contemporânea consegue fazer de olhos fechados, com uma mão atrás das costas e a outra a afagar a cabeça de um koala roxo mecânico que joga xadrez num parque urbano. O primeiro grande desafio do espectador, aliás, é convencer-se de que está mesmo a ver tudo aquilo pela primeira vez, pois não há nada que não pareça simultaneamente inesperado e familiar, como a memória de um sonho recorrente e não muito agradável.

Os dois protagonistas (problemáticos, danificados) participam num ensaio clínico para um medicamento revolucionário, que promete ajudar qualquer pessoa a resolver traumas passados, tornando obsoletas quaisquer outras práticas terapêuticas. O medicamento induz uma série de fantasias surreais - aventuras com ligações alegóricas aos problemas psicológicos por resolver, e que são convenientemente parecidas com outros produtos televisivos e/ou cinematográficos: a conspiração internacional, a saga mafiosa nova-iorquina, a fantasia épica medieval.

A fórmula permitiu com certeza que toda a gente envolvida se divertisse bastante, desde os técnicos responsáveis por construir meia dúzia de pormenorizadas realidades alternativas, aos actores que de meia em meia hora podem interpretar um papel diferente (gangster, espião, elfo, etc.). Quanto ao espectador, o seu divertimento está directamente relacionado com a capacidade para se fingir impressionado com uma "originalidade" que nunca é consequência orgânica do material, mas sim da mera intenção de ser original.

A intenção nunca é menos do que insistente, e parece alimentar-se do pavor de que alguém, algures, perca o interesse. O método escolhido para evitar essa catástrofe é um murakamismo de algibeira, aquela espécie de estranheza por decreto em que proliferam os efeitos surpreendentes, as imagens esquisitas e as frases crípticas ("O padrão é o padrão!"). Ao sexto minuto do primeiro episódio alguém faz a pergunta central que surge mais tarde ou mais cedo neste tipo de ficções: "Só há uma questão que realmente importa: consegues distinguir o que é real do que não é?" Um copo estremece em cima da mesa. Pipocas estalam no asfalto. Alguém joga xadrez com um koala. Xadrês! Com um koala! A ideia é manter-nos constantemente surpreendidos, mas o que sentimos não é surpresa: é o reconhecimento de mecanismos concebidos para provocar surpresa. Uma coisa é um truque de ilusionismo. Outra é o ilusionista mostrar-nos desenhos de uma cartola e de um coelho enquanto nos pisca violentamente o olho.

O problema adicional é que todos já vimos estes coelhos, estas cartolas. A excêntrica cientista oriental com um perpétuo cigarro em punho parece importada de Wes Anderson, o esqueleto do enredo é um fantasma de Eternal Sunshine of the Spotless Mind, há decalques visuais de praticamente todos os filmes de Kubrick. Mesmo os remoques à confluência perniciosa da nova economia e da inovação tecnológica - é possível alugar um estranho para desempenhar o papel de um amigo com quem se perdeu o contacto - parecem ideias repescadas a Black Mirror (cujos melhores episódios já eram derivações de ideias apropriadas à ficção científica).

À rectaguarda de tudo isto a assombração de Lost, responsável por um curioso culto de carga assente na devoção permanente a um conjunto de tropos e mecanismos inovadores nos primórdios do formato: uma geração de criadores e consumidores convencidos de que ver a série é apenas metade do trabalho, e que o resto decorre nos intervalos - um processo colectivo que implica a elaboração de teorias para justificar todas as lacunas do material de base e descodificar cada micromistério (O que é a escotilha? O que significam os números? Porque é que aqueles dois se chamam Locke e Hume?), mistérios esses cuja resolução vai sendo sucessivamente protelada até se perceber que Locke e Hume nunca tiveram nada que ver com o iluminismo, mas sim com o desespero transpirado de argumentistas a cavar um buraco sem fundo, e a largar as pás em pânico quando percebem a inevitabilidade de a explicação nunca estar à altura da mistificação.

Maniac é um festival de reciclagem e descarrega o cardápio completo do produto televisivo de prestígio: protagonistas com um passado traumático, segredos por decifrar, cronologia não linear, trechos melancólicos intercalados com momentos de comédia e fogachos de violência, motivos visuais repetidos, citações avulsas, e até um clássico literário usado menos como símbolo do que como talismã (D. Quixote, no caso em apreço): toda a ambiguidade do modernismo e a ambivalência emocional do realismo reduzidos a uma série de gestos, atalhos e macros do Excel. É tudo feito com enorme competência. O que falta é supervisão criativa, algo que nos consiga persuadir de que todo este espectáculo de variedades sustenta uma visão individual e não apenas o álbum de recortes de uma espectador atento.

O padrão, neste caso, é mesmo o padrão: cada inovação tende a vulgarizar-se numa fórmula, e quando a mistura exacta de ingredientes para fabricar "televisão de qualidade" é integrada nas expectativas prévias da audiência, torna-se cada vez mais reconhecível e mais fácil de reproduzir.
A inevitável relação de ansiedade com fontes, influências e com a vexante utopia da "originalidade" costuma ser resolvida através de uma de duas maneiras: o deliberado desmantelamento pós-moderno ou a deslumbrada recriação nostálgica (opção seguida por Stranger Things, outro produto Netflix). Mas a escolha não é binária, ou pelo menos não deveria ser, embora a tendência actual dos serviços de streaming para disponibilizar a obra completa de uma assentada, ao invés do lento progresso episódico da televisão tradicional, agrave paradoxalmente o problema. A obra que vai crescendo à frente do público pode ir absorvendo, negociando ou desafiando críticas pelo caminho; é diferente

stantâneo, mas baseado em precedentes, e quando só nos é fornecida uma reciclagem daquilo que já passou pelo mesmo teste.

Numa entrevista à GQ americana, o realizador Cary Fukunaga falou abertamente sobre o modo com

quando este processo é predeterminado, quando o feedback não é ino o algoritmo da Netflix influenciou o guião, e como certas decisões criativas foram tomadas ou rejeitadas em função do somatório de preferências do público de séries anteriores. Esta criatividade por sufrágio - em que se alugam as opiniões de estranhos para ocupar o lugar das ideias com as quais se perdeu o contacto - pode ou não ser o futuro; mas seria, já agora, uma premissa mais "original" para explorar do que qualquer coisa que Maniac nos oferece.

Cronista. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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