Madrugadas de Mindelo

Fazia a minha caminhada matinal em direção à Laginha quando reparei numa senhora trajando à moda da costa d'África, um belo e longo vestido de cores variadas e vivas e que vinha ao meu encontro com alguma rapidez e ar espantado. Abrandou os passos ao ficar bastante próxima e pela forma insistente como me olhava vi que queria falar. Bom dia, sorri para ela. Posso andar consigo um bocadinho, acabou por perguntar timidamente. Ainda era escuro, mas calhou estarmos por baixo de um candeeiro de rua e pude observá-la sem qualquer recato. Não me pareceu agressiva nem trapalhona. Mas tomando o meu silêncio como indício de recusa, acrescentou quase súplice, Só até ali em cima! Perfeitamente, concedi, mas afinal vai para onde?

Tive de perguntar porque ela caminhava exatamente para o lado contrário donde eu ia. Eu estava com uma amiga, explicou em vez de responder, tínhamos estado numa inauguração, mas perto da hora de ir para casa ela desapareceu e perdeu-se de mim, acho que foi com um homem... E tu queres ir com outro, pensei, mas estás a perder o teu tempo, mais te valia ires pregar noutra freguesia... Se a tua amiga foi com um homem, disse-lhe, devias tu também ir com outro, assim não estarias nesta aflição. Não, respondeu enfática, não preciso de homem, tenho o meu marido, a minha aflição não é por isso, é porque acabei de ver um rapaz com uma enorme faca na mão aproximar-se de um senhor de idade, encostar-lhe a faca à garganta e tirar-lhe a carteira, o telemóvel e o relógio. E o senhor de idade que fez ele, quis saber. Não fez nada, nem discutiu nem nada, simplesmente entregou as coisas que o outro pediu, mas o ladrão viu que fui testemunha, estou com medo dele. Diz-me, se tens marido, que fazes na rua a esta hora. Já te disse, fui com a minha amiga a uma inauguração. A uma festa, corrigi. Não, não foi festa, foi mesmo uma inauguração. Uma inauguração que dura até às cinco da manhã é obra, comentei, mas e o teu marido, ficou em casa? Não, é um italiano, neste momento está em Itália, volta em novembro para nos casarmos de papel passado. Muito bem, disse-lhe, mas se o teu marido está fora, em Itália, que fazes na rua a esta hora? Como, exclamou, sou nova, tenho de me divertir. Não têm filhos, quis saber. Eu tenho cinco, mas não com ele. Que idade tens, perguntei. Tenho 35 anos, o meu primeiro filho tem já 15 anos, o meu primeiro namorado, éramos vizinhos de porta, não saíamos da casa um do outro, e aconteceu. Muito bem, disse-lhe, e ele é pai de todos os teus filhos? Não, só do primeiro.

Mas entretanto caminhávamos. Tínhamos já passado a entrada do cais acostável, também as instalações da MOAVE e quando chegámos à bifurcação que dá para a parte nova, disse-lhe, Eu vou sempre para este lado, até ali ao fundo. Ela olhou e hesitou, o local é relativamente isolado, embora seja verdade que sempre aparece uma ou outra pessoa. Não tenhas receio, sorri para ela, de manhã sou completamente inofensivo. Ela sorriu também e lá fomos. Que trabalho fazes, perguntei-lhe. Faço penteados, como este que tenho. Tinha reparado no longo e encaracolado penteado que ela tinha. Tu fizeste esse? Este não, este foi a minha amiga que fez. A amiga que te abandonou? Sim, essa mesma. Deve ter ido trabalhar, sugeri. Ela sorriu agora gaiata, Se chamas aquilo trabalho! Então não é, questionei, são todas formas de ganhar a vida. E tu, não queres arranjar-me um trabalho, perguntou. Infelizmente não posso, disse-lhe, como estás a ver, sou careca.

Sentamo-nos num banco de cimento olhando o mar. Quando o dia ficou claro ela sorriu para mim, Já posso ir para casa sozinha, disse.

Escritor cabo-verdiano, Prémio Camões 2018.

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