Premium Brexit, Irlanda e Portugal

Theresa May passou o teste e sobreviveu à convenção conservadora. Era esse o objetivo quando passou a atacar as posições da União Europeia nas últimas duas semanas, circunstancialmente elogiada por alguns (poucos) adversários, que alinharam nas críticas à "intransigência", "arrogância", "inflexibilidade" e "imperialismo" comunitário. Como em quase tudo neste caótico brexit, é no interior do partido conservador que tudo se joga: egos, ambições, traições, luta diária pelo poder e pela vaidade. O Reino Unido vem apenas depois disto. Mas a leitura ensimesmada à direita não pode desvalorizar o estado dos trabalhistas. Saídos da sua convenção anual, ficou mais uma vez evidente que o brexit continua sem merecer uma estratégia apurada, minimamente diferenciadora do governo e que faça do maior partido da oposição um garante de alternativas viáveis. Abraçar um segundo referendo nesta fase só mostra os parcos recursos políticos de Jeremy Corbyn. E é este o estado da política britânica numa fase absolutamente existencial para o país: sem qualidade, sem autoridade, sem rasgo, sem talento, sem um pingo de brilhantismo e inteligência. Para quem, como eu, cresceu a admirar tanto do que vinha da Velha Albion, é confrangedor assistir a tudo isto.

Atravessamos igualmente um tempo de cruzada ideológica, marcada por uma abordagem fortemente emocional da política europeia, ao arrepio de uma tradicional imagem britânica de pragmatismo, de reserva de expressão de sentimentos, de apego ao interesse material, expurgando o debate do essencial estratégico, reduzindo-o a visões maniqueístas, demasiado simplificadas, quando não caricaturadas, fantasiosas e deturpadas da realidade comunitária. Tudo isto ajuda a explicar os défices de preparação na negociação e a ansiedade crescente dentro e fora do Reino Unido, sobretudo nos Estados membros mais expostos ao hard brexit ou à ausência de um acordo regulador da saída, como é o caso da Irlanda e de Portugal.

A principal alteração na forma como o Reino Unido passou a olhar para a UE deu-se na última década e foi uma razão estrutural ao resultado do referendo de 2016. Neste espaço de tempo, o país deixou de considerar a livre circulação de pessoas uma das mais importantes vantagens da UE - a ponto de não aplicarem o período transitório de sete anos à entrada de cidadãos dos dez países de Leste que aderiram em 2004 - e abraçou a linha exatamente oposta, em que subitamente a livre circulação passou o anátema absoluto da política comunitária, justificativo de todos os problemas britânicos, cavalgando a onda de fechamento identitário que vai pincelando o Ocidente. À entrada do mês preponderante das negociações, é a questão irlandesa (fronteira, comércio, acordo de paz e unidade da ilha) que está no topo da agenda. A linha que separa a Irlanda do Norte da República da Irlanda será a única fronteira terrestre (além de uma pequena faixa de 1,2 quilómetros em Gibraltar) entre a UE e o Reino Unido.

Em Dublin, ninguém sabe o que acontecerá depois do corte. Ao contrário do que aconteceu em Inglaterra e no País de Gales, os eleitores da Irlanda do Norte votaram maioritariamente (56%) contra o brexit. Nas zonas mais próximas da fronteira, a percentagem foi ainda maior: quase dois terços votaram a favor da manutenção do Reino Unido na UE. Duas décadas de paz na Irlanda do Norte trouxeram crescimento económico e uma conexão cada vez maior entre as populações dos dois lados da fronteira, atravessada mensalmente por 177 mil camiões e 1,85 milhões de carros. Um terço das exportações da Irlanda do Norte vai para a República da Irlanda, e quase 50 milhões de litros de leite passam a fronteira todos os meses. A cerveja Guinness, produzida em Dublin, é transportada em longos camiões-cisterna para engarrafamento em Belfast e transportada de volta para a República da Irlanda. A instabilidade no cabinet, a falta de rumo nas negociações com Bruxelas e a ausência de mínimos de coesão nas bancadas parlamentares têm mostrado a Dublin como pode vir a ser o maior dano colateral deste renascimento do nacionalismo identitário. Os irlandeses até podem reverter uma crise financeira em três tempos, mas dispõem de poucos recursos para influenciar a sensatez política de terceiros.

Entretanto, para não variar, o debate sobre o brexit em Portugal tem sido praticamente inexistente. É como se não nos dissesse respeito, como se tentássemos evitar por telepatia os danos colaterais que inevitavelmente, com os dados em cima da mesa, nos irão atingir. A generalidade dos empresários navega à vista, as instituições políticas fecham-se em copas, as universidades continuam a falar para dentro e os media só a espaços pegam no assunto, normalmente reduzindo tudo às caricaturas que pintam o debate britânico e quase nunca fazendo o gancho elementar que aproxime Portugal de mais um tema fundamental da política internacional. Senão, vejamos: o Reino Unido é o quarto mercado de exportação de bens e serviços portugueses, com mais de três mil empresas expostas aos impactos da alteração das regras comerciais, nomeadamente alfandegárias e de livre circulação, num bolo anual que ronda os 7,5 mil milhões de euros. O Reino Unido é o quinto país de origem de investimento direto estrangeiro em Portugal e o nosso principal cliente no turismo, em dormidas ou em geração de receitas. O centro financeiro de Londres desempenha um papel de enorme relevo no financiamento das empresas estabelecidas em Portugal e na colocação da dívida pública nacional. É, além disso, um parceiro estrutural das nossas universidades, quer na área da cooperação científica quer do intercâmbio universitário. Nos anos da crise e pós-crise, o Reino Unido foi o primeiro destino da emigração portuguesa, reforçando uma comunidade que talvez não ande longe do meio milhão, apesar de os números das autoridades britânicas apontarem para 250 mil. Se tudo isto não justifica um amplo debate nacional sobre o impacto do brexit em Portugal, então não sei.

Fingir que um hard brexit ou a falta de acordo não terão impactos por cá é uma forma típica de fazer política à portuguesa. Não é por evitarmos o debate que ele não segue o seu rumo. Não é por a negociação ser conduzida pela Comissão Europeia que nos devemos demitir de escrutinar o que está a ser feito na defesa dos nossos interesses. Aqueles que pensam que elevar a exigência pública para com os decisores políticos serve apenas um alarmismo económico desproporcionado, então mais vale mudarem de regime: democracia sem exigência é marasmo autocrático.

Investigador universitário

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