Desinstalação

Se fosse artista, fazia instalações, ou desinstalações, uma espécie de retirar alcatifas, movimento que esteve muito em voga nas casas do Lumiar no final dos anos noventa mas que ainda não chegou à arte conceptual. Ainda vou fazer instalações, um dia, tive uma vez negativa a Educação Visual e tenho essa conta ainda para acertar. Mas agora é teclar palavras para enviar o texto, o prazo aperta e bateria não abunda.

Quando comecei a escrever para jornais li alguma coisa sobre como escrever para jornais. Faço isso sempre, uma modéstia marrona que sabe que há sempre quem saiba melhor do que nós sobre tudo na vida, e que o improviso é luxo a que só os falhados se podem dar. Li, claro, muita imbecilidade, mas também algumas coisas boas. Como por exemplo, uma que é óbvia, mas não se diz que é pelo que se lê em muitos lados, que devemos escrever só sobre aquilo que sabemos, mas mais do que isso sobre a nossa visa (que é a visão da vida), o que vemos, o que sentimos, e como. Também li, penso que o David Brooks, dizer que quando se escreve não se deve escrever para um público, não se pode escrever para agradar ao público, e ao mesmo público, porque isso seria a maior perda de liberdade de quem escreve, refém de likes pavlovianos, de shares em carneirada, de uma clique vocal mas cerebralmente afónica. E que ele o que mais gosta é de desinstalar o seu público, os seus leitores, surpreendê-los sem a alcatifa que esperam pisar.

Nunca, por natureza amena, alguma cautela, e estilo moderado, caí nessa armadilha do panfleto fácil, da bengalada. Corro, talvez, outros perigos, de flanar por temas e convicções, de aprofundar umas de mais e outras de menos. Chove lá fora, é Londres, um refúgio do verão que nunca acaba em Lisboa. O prazer de escrever é grande, e cada um retira-o mais de umas coisas do que de outras, eu próprio vou variando na causa da satisfação também. Mas a mais comum é tocar com coisas inesperadas, pessoas inesperadas. Pensar numa coisa, reparar num pormenor, escrevê-lo, e alguém, que não se está à espera, um dia, referir isso. Como a maneira como ela folheia o guia.

Ela, ao meu lado, nos sofás do museu, entrega as filhas ao telemóvel, precisa de descansar. Folheia o guia, passa as páginas depressa, como se estivesse a tentar ver um desenho animado, uma animação, talvez o filme do fim de semana que iam ter em Londres. Há um marido, tenho a certeza. Deve ter-se atrasado numa exposição, ou na loja. Mas eu sei o que é aquele desfiar de páginas do guia retangular. E ela não sabe que eu sei, ou sabe? Disse em francês para as miúdas não incomodarem o senhor, falarem baixo, serem crianças mas em cima de alcatifa por causa dos vizinhos. O senhor sou eu, e não posso ser incomodado porque estou a escrever este texto. Ele chega, alto, mais alto do que ela como eu o tinha imaginado.

Eles com a melancolia e o cansaço que acompanham uma viagem com duas crianças pequenas, 3 e 7 anos?, ainda talvez sem perceberem que o melhor da viagem já foi, quando quiseram, pensaram, planearam, e talvez agora só depois, daqui a uns dias, daqui a umas semanas, e durante uma vida toda na cabeça das duas miúdas de ténis de princesa cintilante, e saia de frufru, que dançam o floss. Só vai voltar a ser bom depois de esquecidas as expectativas goradas, a chuva imprevista, metade da lista que não se visitou, ainda sem perceberem que menos é mais, ou até percebendo mas ainda sem a força de chegar de volta a Rennes - são franceses, devem ser de Rennes - e de dizerem não não não quando familiares e amigos lhes perguntarem se visitaram a Torre de Londres, o Big Ben e se tiveram ainda tempo de dar um saltinho a Oxford, a Cambridge ou a Greenwich, que é onde é o meridiano.

Do lado esquerdo do sofá, ela espera pela namorada. Não tenho a menor dúvida, que espera e que é por uma namorada. Fala pelo WhatsApp, deve ser WhatsApp, e escreve com ritmo, em onda, uma sinusoide de ttttrrrrs lentos e de ttttrrrrs rápidos. Há outro estilo de mulheres, que escrevem em blocos compactos com pausas lentas, que usam para reler, mas esta não, é mais harmónica, ritmada, deve ser um amor. Sabe que ela vai chegar. E chegou agora, abraçaram-se, esfregaram os braços uma da outra (está frio lá fora, veio da chuva), levantaram-se e foram-se embora.

A mãe deu carinhosamente com o guia na cabeça da mais velha, talvez com um leve remorso de não lhes ter dado as férias que sonhou, que sonharam, mas quem diria isto da chuva, isto das filas no museu, isto de a mais nova ter vomitado o leite no pequeno-almoço do Airbnb, isto de se terem esquecido dos adaptadores e de só terem conseguido carregar os telemóveis ao segundo dia, e foram-se embora.

Sentam-se mais dois, sabem que não lhes percebo a língua estranha, mas não sabem é que percebo bem a sua linguagem, parece que querem ficar ali para sempre, não voltar de volta a lado nenhum, ficar ali como uma instalação, e por isso vou deixá-los, seguir eu para o aeroporto, e um dia, quando for esse dia, faço-lhes uma desinstalação, exponho-a aqui na Tate, e eles, mais velhos, talvez se venham ver. Ou não tenham tempo de se ver, ou passem por si sem ver, porque um dos miúdos tropeçou e bateu com a cabeça, ploc, um som oco que isto é betão, brutalismo londrino, sem alcatifas, e pode ser grave, e é preciso falar ao médico, ficar em observação, talvez seja melhor voltar ao apartamento, e quando os miúdos adormecerem, talvez troquem um olhar só deles, que foram buscar ao reservatório daquela linguagem muda do sofá do museu que é o cimento só deles.

Advogado