Mudar de canal

As eleições, regra geral, são engraçadíssimas. Não o acto de votar em si, que para ser engraçado precisa de um tratamento da escola "poesia marciana" (em que o gesto de enfiar um papelinho numa caixa com um buraco é despojado de contexto e reobservado por olhos alienígenas), mas o modo como as acompanhamos. Um conjunto orgânico de filtros mediáticos, hábitos de consumo e contingências logísticas transformou-as numa combinação de evento desportivo - com orçamentos, tácticas, incerteza no marcador - e série de prestígio - com narrativa longa, simbolismo, carga temática. A pergunta retórica exasperada que alguém faz invariavelmente em Portugal por altura das eleições americanas - porque é que nos interessamos tanto por um sufrágio distante? - faz tanto sentido como perguntar porque nos interessamos mais por filmes ou séries americanos do que pela última produção do teatro local. Porque sim, porque há na televisão, porque são maiores e mais visíveis do que as outras, porque é aquilo a que toda a gente está a prestar atenção; qualquer resposta tautológica será a correcta.

E portanto, de quatro em quatro anos, repete-se o ritual de rever os mesmos rituais: o tango enérgico de Wolf Blitzer e John King na CNN; o dedilhar maníaco de ecrãs interactivos; as reportagens no local; o comentário inerte; as actualizações bombásticas. O processo burocrático mais aborrecido do mundo - contar pedaços de papel e apontar números em listas - é magicamente dotado de tensão.
A temporada de 2020 conseguiu até apropriar mais uma ferramenta criativa às séries de TV: a pirueta cronológica, com a intriga a começar in media res, e a desdobrar-se em flashbacks para retardar o desenlace, antes da derradeira descarga de informação que consolide a história e o seu significado.

Trump entrou em cena de madrugada, com toda a energia de um avô exausto: um homem velho, irritado, frequentemente confuso, a perder em directo a sua infalível sintonia com um ecossistema mediático desenhado precisamente para essa categoria demográfica. Mas Trump, uma criatura de antagonismos e irritações além de um telespectador veterano, foi uma vítima desse ecossistema, muito antes de se tornar o seu actor principal. A sua presidência foi aquilo que a sua vida pública anterior sugeria que fosse: uma oportunidade para ver mais televisão, mas também para aparecer nela mais vezes - explicando o seu excelente trabalho, os seus múltiplos sucessos, a humilhação dos seus inimigos, recitando em piloto automático fragmentos de programas que viu, ou títulos de notícias que não leu, negando veementemente qualquer fracasso gerado pela sua apatia, ignorância e incompetência. A reverência pelo cargo que ocupa levou um aparato mediático investido em submetê-lo ao escrutínio tradicional a encarar estas "declarações" como mensagens codificadas, que talvez revelem uma ideologia, ou pelo menos uma táctica ou objectivo político, nem que seja uma venalidade de curto prazo, e essas contorções interpretativas (tão obviamente desajustadas à dimensão mesquinha e caótica do seu objecto) foram outro constante factor de divertimento. No segundo dia da mini-semana eleitoral, o The New York Times publicou um artigo de opinião no qual Trump foi alvo da acusação mais injusta que já lhe foi feita: a de que um erro ortográfico que cometera num tweet não era na verdade um "erro" nem uma gralha, mas uma mensagem em código para os seus apoiantes.

Na televisão, Trump falou como sempre fala, na televisão ou no Twitter, com ou sem gralhas: afirmou que a sua vitória era magnífica, declarou imensos triunfos, insinuou irregularidades diversas, acusou a oposição de fraude e a comunicação social de o fazer parecer mal com sondagens falsas. Nada disto foi o activar consciente de uma insurreição ou de uma conspiração, mas o esbracejar pateta de alguém a querer apaziguar o próprio ego. Depois, quando se cansou de ser tão fabuloso, saiu da sala e foi dormir, ou possivelmente ver mais televisão, observando aquilo que passou os últimos quatro anos a observar: vários números a subir ou a descer, e várias pessoas a elogiá-lo ou a criticá-lo - os indicadores possíveis da única coisa que lhe interessa e que sabe medir, que é a quantidade e a qualidade da atenção que lhe é prestada.

A dada altura da "noite eleitoral" (ainda no seu primeiro episódio), o comentador da CNN Van Jones deu voz a um sentimento aparentemente comum, postulando um clima de "desilusão" entre os eleitores democratas e explicando-o com a diferença entre uma "vitória política" e uma "vitória moral": "O país precisava de uma repudiação total da direcção que o país levou nos últimos quatro anos, e não a tivemos." Querer, ou precisar, que um acto eleitoral proporcione expiação colectiva é outra maneira de querer, ou precisar, de uma história, e histórias é quase tudo o que há durante as longas emissões contínuas, na ausência de modelos plausíveis para explicar comportamentos eleitorais. O fenómeno Trump foi tão bizarro na sua eclosão e execução, tão genericamente desprovido de coerência, que a exigência talvez seja maior do que é costume. Uma história possível é que o domínio do que é politicamente viável foi tão reduzido nas últimas décadas, tantas possibilidades subtraídas à retórica eleitoral e mediática "responsável", tantos eleitores condicionados a pensar que muitas das suas circunstâncias materiais são agora forças impessoais, como a meteorologia, que alguns deles começaram a procurar outros motivos para votar, e a encontrar as suas próprias histórias em sítios não canónicos.
A campanha de Biden foi um anúncio de necrologia em câmara lenta, ao som de música de elevador: o que ofereceu foi uma promessa frouxa e vaga de restaurar o que era antes - não a "grandeza" nostálgica prometida pelo seu oponente, mas apenas a dócil e igualmente falsa normalidade em que uma maioria de pessoas se possa sentir protegida da barafunda que conhecem apenas através da televisão, e portanto dar-se ao luxo de não pensar em "política" todos os dias. Chegou, por agora, e o "significado" pode não ser muito mais do que este: um número suficiente de pessoas quis mudar de canal, ou pelo menos deixar o aparelho em mute durante uns tempos.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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