Premium O candidato de Merkel ou o Ironman da Finlândia? PPE escolhe candidato à sucessão de Juncker

Partido Popular Europeu está reunido em congresso em Helsínquia, na Finlândia, nestas quarta e quinta-feira. E terá de escolher entre o conservador Manfred Weber e o moderno Alexander Stubb para candidato à presidência da Comissão Europeia.

Um é alemão, da Baviera, eurodeputado desde 2004, líder do PPE desde 2014 e tem 46 anos. O outro é finlandês, de Helsínquia, é vice-presidente do Banco Europeu de Investimento desde 2017, foi primeiro-ministro, ministro das Finanças, ministro dos Assuntos Europeus e Comércio e ministro dos Negócios Estrangeiros da Finlândia. E tem 50 anos.

Manfred Weber e Alexander Stubb são os dois candidatos a candidato do Partido Popular Europeu (PPE) à sucessão do luxemburguês Jean-Claude Juncker como presidente da Comissão Europeia em 2019. Nesta quarta-feira vão ter um debate de meia hora, no âmbito do congresso do PPE, que decorre em Helsínquia, capital finlandesa, até quinta-feira. Um dos dois será o escolhido pelos delegados ao congresso do - por agora - maior grupo político no Parlamento Europeu.

O primeiro surge como favorito. O segundo nem por isso. Weber é elogiado como construtor de pontes. Mas criticado pela sua falta de carisma, currículo em termos de vida pública, falta de visibilidade internacional. Stubb é elogiado pelo seu vasto currículo, por ser um comunicador nato, com muito boa imprensa. Mas criticado por alguns por, no passado, ter sido um dos maiores defensores das políticas de austeridade pura e dura.

Manfred Weber tem o apoio da chanceler Angela Merkel, que desistiu de tentar assegurar a presidência do Banco Central Europeu para a Alemanha em troca - pelo menos em teoria - da presidência da Comissão Europeia. Estes são apenas dois dos cargos europeus que é preciso renovar no próximo ano de 2019. Os outros dois são o de presidente do Parlamento Europeu - as eleições europeias são de 23 a 26 de maio - e o de presidente do Conselho Europeu (cargo atualmente ocupado pelo ex-primeiro-ministro polaco Donald Tusk).

Além do apoio de Merkel (e do ministro do Interior e líder da CSU Horst Seehöfer), Weber conta com o apoio, já declarado, de líderes como por exemplo o do Partido Popular espanhol Pablo Casado, o do Partido Social Democrata português Rui Rio ou o Fidesz do húngaro Viktor Orbán. Os dois primeiros estão na oposição. O terceiro no poder. E tem posto de tal maneira em causa a União Europeia que a saída do seu partido do PPE é vista como uma possibilidade.

Alexander Stubb não parece ter muitos apoios, pelo menos declarados publicamente, tendo mesmo o site Politico.eu classificado a sua candidatura como uma campanha em vão. Obstinado, disse na semana passada em entrevista ao DN, quando passou por Lisboa, que está consciente da preferência por Weber, mas que, mesmo assim, não desiste fácil: "A nível de apoio público, claro que Manfred Weber tem muito mais, pois é como se fosse um jogo de futebol entre a Finlândia e a Alemanha. Venho de um país pequeno, da periferia da Europa, como Portugal. Vamos ver que hipóteses tenho em Helsínquia. Saio em vantagem por jogar em casa. Mas não sei."

Stubb: candidato de Merkel a quem Rui Tavares chama "cúmplice de Orbán"

Nascido na Baviera, a 17 de julho de 1972, Manfred Weber é formado em engenharia. Foi deputado no parlamento regional bávaro (Lantag) entre 2002 e 2004. Nas eleições de 2003, tornou-se o mais jovem parlamentar a ser eleito neste estado federado do sul da Alemanha. Tinha apenas 29 anos.

Membro da União Social-Cristã, CSU, congénere bávara da CDU de Merkel, foi eleito eurodeputado no ano seguinte. O líder da CSU, Horst Seehöfer, ministro do Interior conhecido pela sua oposição às políticas da chanceler para os migrantes e refugiados, é um dos grandes entusiastas da candidatura de Weber para presidente da Comissão Europeia.

Em 2014, sucedendo ao francês Joseph Daul, Weber tornou-se o mais jovem presidente do PPE. Mais uma vez. A 5 de setembro deste ano anunciou que era candidato à presidência da Comissão Europeia. Dois dias depois, no Público, onde é colunista, o ex-eurodeputado português Rui Tavares classificou o bávaro, entre outras coisas, como o cúmplice de Viktor Orbán.

"É um candidato forte e pode muito bem acontecer que, sem saberem quais são os seus propósitos e a sua maneira de estar na política, todos os eleitores que votarem no PSD e no CDS acabem a votar Manfred Weber para presidente da Comissão Europeia", escreveu o ex-deputado do Bloco de Esquerda.

"Os portugueses que conhecem Manfred Weber lembram-se dele como o político que em junho de 2016 escreveu uma carta ao presidente da Comissão Europeia a pedir que fossem aplicadas sanções a Portugal e a Espanha por incumprimento dos limites do défice. Felizmente, o seu conselho não foi seguido", prosseguiu.

"Os britânicos decidiram deixar esta união, então não estarão tão confortáveis, tão seguros, tão fortes economicamente. É por isso que diremos que este [dia em que foi acionado por Londres o Artigo 50.º] é realmente um dia muito negativo"

O dirigente do Livre afirma que Weber sempre "se comportou de forma amoral, protegendo [Viktor] Orbán em todos os passos até que os votos do Fidesz húngaro lhe viessem a cair para se eleger presidente do grupo do PPE". E recorda: "Cheguei a ver Weber, no mesmo dia e em dois debates sucessivos, a afirmar que não era possível sancionar o governo húngaro mas defender que o governo búlgaro deveria ser forçado a repetir umas eleições cujos resultados não lhe tinham agradado, sem que a contradição lhe turvasse a consciência."

Efetivamente, em relação ao relatório sobre a Hungria de julho de 2013, em que Tavares foi o relator, Weber considerou-o um ataque politicamente motivado da esquerda contra o governo do primeiro-ministro húngaro. Em relação ao relatório Sargentini, em setembro deste ano, o bávaro já votou a favor da ativação do Artigo 7.º contra a Hungria de Viktor Orbán por sucessivas violações dos princípios do Estado de direito e dos valores e regras da União Europeia.

Sobre a saída do Reino Unido da UE, que também vai ser um tema neste congresso do PPE em Helsínquia, uma vez que um dos oradores será o negociador-chefe da UE para o brexit, Michel Barnier, Weber disse no passado: "Os britânicos decidiram deixar esta união, então não estarão tão confortáveis, tão seguros, tão fortes economicamente. É por isso que diremos que este [dia em que foi acionado por Londres o Artigo 50.º] é realmente um dia muito negativo."

Em relação à Rússia, em 2016, Weber criticou, em carta enviada ao então ministro da Economia, Sigmar Gabriel, do SPD, o projeto de gasoduto Nordstream 2. Resta saber se, agora a gozar com o apoio de Merkel à sua candidatura, cujo governo aprovou este gasoduto, o eurodeputado bávaro mudará de opinião. E, em caso afirmativo, o que isso quereria dizer se, de facto, conseguisse chegar ao Berlaymont (edifício-sede da Comissão em Bruxelas).

Weber: o triatleta de Ironman que defendeu a austeridade com mão de ferro


Nascido em Helsínquia, a 1 de abril de 1968, estudou na Florida, em Paris, em Bruges, em Londres, formou-se em Ciência Política, Língua Francesa e Civilização, Assuntos Europeus e Relações Internacionais. Fala cinco língua: finlandês, sueco, francês, inglês e alemão.

Membro do Partido Coligação Nacional, começou a trabalhar como colunista, nos anos 1990, tendo sido investigador na representação finlandesa junto da União Europeia entre 1999 e 2001. Representou o governo finlandês nas negociações intergovernamentais do Tratado de Nice, tornou-se conselheiro do então presidente da Comissão Europeia, o italiano Romano Prodi. Foi membro da task force para a Convenção sobre o Futuro da Europa, que resultou na Constituição Europeia, que não passou nos referendos em França e na Holanda. Mais tarde, o que sobrou dela viria a dar lugar ao Tratado de Lisboa.

Em 2004 concorreu a eurodeputado, tendo ficado no Parlamento Europeu até 2008, altura em que foi para ministro dos Negócios Estrangeiros. Era esse o cargo que ocupava quando Portugal, já depois de a Grécia o ter feito, teve de pedir o resgate da troika em abril de 2011. Depois disso, foi ministro dos Assuntos Europeus e do Comércio, primeiro-ministro da Finlândia e ministro das Finanças. Era esse o cargo que ocupava quando, em julho de 2015, o governo grego de Alexis Tsipras decidiu desafiar a UE com um referendo sobre as condições daquele que era já o terceiro resgate financeiro da Grécia. Ainda hoje é possível encontrar fotografias de Alexander Stubb a discutir com o então ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, nas reuniões do Eurogrupo. Deixou o poder em 2016. Tornou-se depois vice-presidente do Banco Europeu de Investimento. Do qual tirou agora uma licença de cinco semanas. Para fazer campanha.

Na entrevista que deu ao DN, na semana passada, Stubb reconheceu o esforço feito por Portugal durante a crise financeira. "Vejo [a atual situação portuguesa] com um certo grau de gratidão. O que o governo de centro-direita de Passos Coelho teve de fazer, na altura, foi duas vezes pior do que o que eu tive de fazer como primeiro-ministro e ministro das Finanças. Tive de fazer muita austeridade. Mas não compreendes a austeridade enquanto não passas por ela. De muitas formas, olho para trás e penso, como é que passámos por isto tudo? Foi uma crise causada por externalidades, Lehman Brothers, crise financeira, crise da dívida soberana, crise do euro. O que a Itália está a fazer é dar um tiro no próprio pé. Muitas das medidas que Portugal tomou na altura, foram duras, foram difíceis, mas foi a coisa certa a fazer. É por isso que o país hoje está bastante melhor."

"Viktor Orbán incita ao ódio e ao medo e, para mim, isso não é liderança. Liderança é sobre esperança. Além disso, ele fala de democracia iliberal e, em meu entender, isso é, só por isso, uma contradição"

Sobre o dossiê Viktor Orbán, Alexander Stubb é muito perentório: "Eu sou muito duro em relação a isto, em relação aos valores, então acho que é preciso haver um processo de três fases: a primeira é um diálogo aberto e franco com ele, a segunda é que ele tem de assinar, preto no branco, no papel, que se compromete com os valores do PPE, a terceira é que se ele assinar, muito bem, continuamos e monitorizamos, se não assinar está fora do PPE. Espero que encontremos uma solução, equilibrada, mas se não for possível tomarei medidas para que saia. Ele incita ao ódio e ao medo e, para mim, isso não é liderança. Liderança é sobre esperança. Além disso, ele fala de democracia iliberal e, em meu entender, isso é, só por isso, uma contradição. Ou se é democrata e liberal ou não se é democrata. De todo. Por isso não partilho os valores que ele promove, não gosto do facto de ele escrever cartas à Aurora Dourada, que é um partido neonazi grego. Não gosto do seu alinhamento com Matteo Salvini. Isto é muito desconfortável. Para mim isto não é a Europa. A Europa não é sobre nacionalismo. Não é ódio."

Desportista, praticou ténis, golfe e, aos 40 anos, começou a correr, tendo participado já em vários triatlos de distância Ironman, o ex-chefe do governo finlandês é casado com uma advogada britânica, Suzanne Innes-Stubb, e tem dois filhos, Emilie e Oliver. Sobre se pensa que o brexit vai mesmo acontecer afirmou ao DN: "Se tivesse de apostar o meu dinheiro nisso, diria que, provavelmente, sim. O único país que pode fazer descarrilar o brexit é o próprio Reino Unido. E isso significaria um voto que não passaria no Parlamento. À questão se a primeira-ministra Theresa May tem uma maioria para um soft brexit, a resposta é que, provavelmente, não. Tem maioria para um hard brexit ou corte de relações com a UE? Provavelmente não, também. Não sabemos. É uma pergunta difícil. Quem me dera que não acontecesse. Mas vejo as coisas de forma pragmática e realista."

Como é escolhido o presidente da Comissão Europeia?


A União Europeia tem três instituições-chave: Parlamento Europeu, composto por eurodeputados dos 27 países e várias famílias políticas (nas de maio o Reino Unido deixará de ter direito já a deputados), Conselho Europeu (são os chefes do Estado e do governo dos Estados membros) e a Comissão Europeia (que tem um comissário por país e que é frequentemente apresentada como executivo comunitário ou guardiã dos tratados).

O cargo de presidente da Comissão Europeia foi criado em 1957. O português Durão Barroso foi o presidente durante dois mandatos, entre 2004 e 2014. A sua presidência ficou fortemente marcada pela crise financeira e económica, internacional e na zona euro. Mas quando o ex-chefe do governo de Portugal foi escolhido para suceder a Romano Prodi, o processo foi conduzido, como sempre à boa maneira europeia, nos bastidores. Anos mais tarde, as críticas sobre a falta de transparência do processo traduziu-se num esforço e numa maior pressão para que houvesse uma eleição do presidente da Comissão Europeia e que essa escolha refletisse o resultado das eleições europeias.

Assim, em 2014, pela primeira vez, os partidos europeus escolheram os seus candidatos a presidente da Comissão - num processo controverso conhecido como "Spitzenkandidaten". Na altura, Jean-Claude Juncker, candidato do PPE, derrotou o alemão Martin Schulz, candidato dos Socialistas e Democratas.

O processo, formalmente, não existe nem está inscrito nos tratados europeus. E suscita críticas, pois alguns dizem que se o PPE for sempre o mais votado achará sempre que tem direito ao cargo de presidente da Comissão. Por isso, em fevereiro passado, o Conselho Europeu, reunido em Bruxelas, acordou que os grupos políticos europeus são naturalmente livres de voltar a designar "candidatos principais" às eleições de maio de 2019, mas advertiu que não está contemplado nos Tratados da UE qualquer "mecanismo automático" que determine que o "Spitzenkandidaten" do partido mais votado a nível dos 27 - o Reino Unido já terá saído na altura da UE - seja o futuro presidente da Comissão.

Apesar de tudo, também os Socialistas e Democratas vão escolher o seu candidato, que será escolhido a 1 de dezembro e aclamado a 7 e 8 de dezembro, no congresso do grupo político europeu, que decorrerá em Lisboa. Neste momento, o único candidato dos socialistas à sucessão de Juncker é o atual primeiro vice-presidente da Comissão Europeia Frans Timmermans, holandês. Há ainda que contar, para já, também com a candidatura, pelos liberais do ALDE, do ex-primeiro-ministro belga Guy Verhofstadt, um grande federalista e atualmente o negociador do Parlamento Europeu para o brexit.

Numa entrevista que deu ao DN, a seis meses do brexit (29 de setembro), Verhofstadt comentou: "Acho que devemos continuar a trabalhar no duro para alcançar um acordo. Um brexit abrupto (hard brexit) seria uma situação em que todos perderiam. Estamos a negociar com Theresa May e continuaremos a fazê-lo. A política britânica é, por vezes, difícil de acompanhar, mas é do interesse de todos que encontremos um acordo."

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".