O estigma sobre o suspeito não infetado

O primeiro sintoma de quem é suspeito de estar infetado com o coronavírus é o estigma social. E se a tosse não surge nem a temperatura aumenta, ainda custa mais ao alegado suspeito esse sentimento por parte daqueles com quem convive. Senti isso na pele desde domingo, quando se soube que o escritor Luis Sepúlveda e mulher estavam hospitalizados e que tinham todos os sintomas desta praga, através das mensagens que começavam assim: "Estás de quarentena, não é?" A pergunta não era "estás bem?" ou "sentes alguma coisa?"; não, a palavra-chave era "quarentena". Ou seja, desaparece da nossa vista.

Não sei como foi com a maioria da centena e meia de pessoas que como eu estiveram no encontro literário Correntes d"Escritas e, desde a noite de sábado passado, passaram a integrar uma lista negra de portugueses a evitar. Nenhum mostra sintomas, quase todos estão em isolamento.

A primeira situação no domingo de manhã foi ligarmos para a linha SNS 24 e dar conta de que lá estivemos. A maioria não se queixou do atendimento nem de dar o nome completo e o número de utente ao enfermeiro que o atendeu. Em seguida, ligou o médico para confirmar o caso. As palavras foram de descanso: "Se não tem sintomas, pode fazer a vida normal." Já tinha passado uma semana após o fim do encontro e as regras diziam isso se não havia febre ou tosse.

Nesse telefonema aprendemos a palavra evicção: "Afastamento com fundamento legal por doença infetocontagiosa." Não, disse o médico, não era preciso ausentarmo-nos fisicamente do posto de trabalho. Só se sentisse algum dos sintomas da doença.

Mas não foi isso que aconteceu e, logo nas primeiras horas de domingo, muitos dos que tinham estado na Póvoa de Varzim sentiram a condenação ao isolamento social. Tudo bem, afinal a maioria também preferia manter-se em casa até ao fim dos 14 dias aconselháveis e dar uso ao teletrabalho.

Foi aí que começou o estigma. Queriam-se os suspeitos bem longe da vista, ainda por cima quase todos os do Correntes tinham estado já no local de trabalho, pois desconhecia-se o fator casal Sepúlveda. Pelo que senti à distância foi um certo pânico. Bastou que me contassem uma conversa de elevador, de que um jornalista do Diário de Notícias tinha o vírus. Ou que alguém que tinha estado fora nos últimos dias achava que toda a redação era um foco potencial. O medo estava generalizado.

O "estás de quarentena, não é?" não me encaixava. Decidi logo nesse domingo que não iria trabalhar. Não apenas porque os sintomas estivessem ausentes ao fim de oito dias, mas porque adivinhava que ninguém se sentiria bem se aparecesse fisicamente. E bastaram 24 horas para sentir que tinha tomado a decisão correta, pois as mensagens confirmaram o meu receio e algumas aproximavam-se da histeria. Nada que não fosse compensado pelos muitos mais colegas que estavam preocupados com o amigo e que durante este confinamento superaram os assustados.

A experiência de estar fechado em casa e não poder ir fazer uma compra ou qualquer outra coisa nem sequer é muito estranha. Sente-se um medo em relação ao resto da sociedade poder apontar o dedo, acusar "não é um dos infetados?" É certo que já lá vão quase todos os dias de quarentena, mas o suspeito é sempre olhado como um perigo que pode pôr em causa a saúde pública. Mesmo que as pessoas continuem a andar de autocarro e metro, vão a centros comerciais e lojas, ou a restaurantes e cinemas. Podem fazê-lo porque não são suspeitos e não têm o estigma do vírus...

O estigma torna-se ainda mais real quando um familiar é expulso do trabalho meia hora depois de comunicar que o pai esteve no Correntes e fica a teletrabalhar, e outra pessoa próxima é corrida do local de trabalho, mesmo que não tenha tido contacto direto com o alegado infetado, e que depois de um minicomício também seja posta fora pelos próximos 14 dias. Dois exemplos apenas da histeria.

Não aconselho a ninguém que esconda qualquer sintoma, mas aviso que vai sentir na pele situações que não imaginava serem possíveis em 2020. Que só tínhamos visto, por exemplo, no filme Philadelphia em que Tom Hanks é marginalizado por ter sida e o filme é de 1993.

Vamos a ver como será o regresso...

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