O enigma da governança

Não apenas na União Europeia mas em todas as áreas políticas em que se divide o globalismo, o enigma da governança deixou de ser um desafio à capacidade de entender, bem ou mal, as configurações e as diferenças das propostas submetidas à votação democrática, mas passa a ser lidar com a surpresa do projeto que será organizado para conciliar as forças políticas, que se diferenciaram na competição, num programa acolhido pelas leis vigentes, mas que parece conciliável apenas, em primeiro lugar, pela soma dos lugares obtidos nos parlamentos, para repartir o poder.

Como a abstenção nos atos eleitorais, como se verificou nas recentes eleições para o Parlamento da União Europeia, uma atitude a que Daniel Innerarity chama "tédio", a qual, acrescenta, não resulta da quebra de interesses pelo bem público, mas de se ter perdido a esperança de poder fazer alguma coisa com a política tradicional, é difícil que o programa conciliatório corresponda à inquietação do eleitorado, é provável que surpreenda a população que foi abstencionista.

A imaginação criativa dos portugueses encontrou uma expressão menos desanimada do que "tédio", e está a obter com ela um triunfo semântico internacional, que foi a geringonça, a qual perde a respeitabilidade da palavra gestão, para ser entendida, pelos destinatários surpresos, como "coisa mal feita e que se escangalha facilmente".

Na origem portuguesa, a aritmética, com respeito pelas regras constitucionais, deu-lhe um funcionamento mais duradoiro do que o batismo vaticinava. Mas abonou a convicção de que "os dicionários políticos envelheceram", porque as clássicas definições partidárias foram ultrapassadas pela realidade, e a história da União Europeia acaba de iniciar uma época exigente que já ameaça ter de recorrer ao método, para substituir a longa vigência das formações que foram substituídas por um pluralismo sem precedente.

O expediente o que enfrenta é que a problemática global é inegavelmente nova, não se confunde com a passada necessidade de reconstituir uma vida aceitável dos sobreviventes à criminalidade e à violência militar da Segunda Guerra Mundial. A competência e a arte dos sábios governantes fundadores, unidos pela memória das guerras sofridas e convergentes nos valores em direção aos quais uniram vontades e resultados, conseguiram enfrentar as dificuldades da Guerra Fria: não deixaram herdeiros moldados por igual inspiração.

Os resultados do globalismo não se limitaram ao quadro dos efeitos esperados pela ocidentalização que os responsáveis pelo início das descobertas e conquistas adotaram, antes os agravos que os ocidentais praticaram tendem a fazer esquecer os benefícios que implantaram, o tema dos emergentes desatualiza o critério ocidental de hierarquia aristocrática das potências, a deriva dos avanços científicos e técnicos incluiu fortalecer a capacidade de destruir a Terra pela violência dos combates armados, ou pela ambição não ponderada da exploração das reservas naturais que leva a juventude a exigir que os responsáveis repensem o ameaçado legado com que as crianças gritam que não querem ser ameaçadas.

O enfraquecimento da autoridade dos órgãos de gestão mundial, como a ONU, acompanha a desconsideração pela justiça internacional recentemente demonstrada pelos EUA em relação ao Tribunal Penal Internacional. No que mais toca à União Europeia, a prova de que dela é afinal possível sair, com acordo ou sem ele, está a ser demonstrado pelo Brexit, cuja inqualificável desordem desacredita a arte de governar.

Entretanto avulta a gravidade dos movimentos migratórios, a desigualdade do nível da vida dos humanos, que parece agravar-se, na palavra do Papa Francisco, por uma "economia que mata". Tudo indica que até o recurso à geringonça implica conseguir alguma compreensão da necessidade de enfrentar um enigma, para o qual não foi encontrada resposta aceitável, que é entender qual será finalmente o programa de governar a União que mudou e exige tal arranjo provisório, que não será nenhum dos submetidos ao voto.

Mas sabendo já que - se talvez mais de metade dos países inscritos na ONU não têm sequer capacidade para enfrentar os desafios da natureza - também é difícil admitir que haja um só país da União com a capacidade de enfrentar sozinho os desafios do globalismo que define a nova circunstância global, ocidental e europeia.

Os historiadores usam identificar e caracterizar as épocas por traços considerados fundamentais no processo histórico, e a Europa inspirou uma lista de títulos que impressionam pela evolução que traduzem. Mas a nossa época, que parece frequentemente de outono ocidental, o qual abrange os desastres das duas guerras mundiais, parece mais corresponder à imprevisibilidade, isto é, a de apenas saber que o imprevisto está à espera de uma oportunidade. Nunca foi talvez mais verdadeira a convicção de que a demorada e plural série de reuniões políticas sobre o futuro acaba quando o futuro já aconteceu enigmaticamente.

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