Premium À espera de Obama. Uma longa jornada de frustração

Rua Passos Manuel, no Porto, encheu-se de curiosos que queriam ver o antigo presidente dos Estados Unidos. No fim, sem um vislumbre sequer, sobraram lamentos pelo tempo perdido

"Isto não é correto. Já viu? Este tempo todo aqui, esta gente toda, e o homem entra e sai pela porta do cavalo?" A desilusão de Rosa Maria espalhava-se pela multidão que montou guarda em frente ao Coliseu do Porto. Ao fim de várias horas de espera, e muitas daquelas pessoas chegaram ali logo pela manhã na expectativa de poder ver de perto o 44.º POTUS (Presidente dos Estados Unidos), nem um vislumbre de Barack Obama. Um aceno, uma espreitadela à janela, nada.

À exceção dos 3000 convidados que puderam entrar na histórica sala de espetáculos portuense para assistir à intervenção do antigo líder americano na conferência sobre alterações climáticas promovida pela empresa proprietária da Taylor's, uma das mais antigas casas de vinho do Porto, para todas as outras pessoas a memória da passagem de Obama vai ficar-se apenas pelo aparato.

Muita polícia espalhada pelo centro da cidade, duas ruas cortadas ao trânsito, constrangimentos de estacionamento... A visita de Barack Obama mexeu com a Baixa do Porto. E mexeu também com a expectativa de muita gente, que esperava testemunhar de perto a presença inspiradora do político que continua a ser um dos mais populares do nosso tempo. Como era o caso de Licínia e de José Ferreira, um casal que chegou de Santo Tirso, logo pela manhã, para tentar ver o presidente que mais admiraram no mesmo sítio onde, há 50 anos, começaram uma vida em comum.

"No dia em que nos casámos viemos aqui ao Coliseu, que tinha cinema na altura, ver o Com Amor no Coração. E hoje gostávamos muito de poder ver o Obama. Viemos cá de propósito por causa dele, mas não contava com este aparato todo. Quando ele foi a Berlim toda a gente o viu, não sei para quê isto...", lamentava Licínia, que ainda assim prometia, ao início da tarde, "ficar aqui até ele chegar, dê por onde der".

Salvem o vinho do Porto

Com a mesma vontade estavam Gary Snelling e Sheryl Berry, um veterano casal de ingleses apanhado de surpresa pela presença do famoso "conferencista" na cidade à qual vieram passar uns dias de férias. "O nosso hotel fica aqui perto e fiquei curioso com esta agitação toda. Primeiro até pensei que fosse algo mau. Hoje pensamos logo em ataques e terrorismo e essas coisas todas, mas quando nos disseram que era o Obama resolvemos ficar por aqui à espera. Se tivermos oportunidade de o ver é um bom bónus para estas férias", contou Gary, de máquina fotográfica ao pescoço e mão preparada para não deixar escapar a oportunidade que não chegou.

Consciente de que "as alterações climáticas são um problema real e urgente", Gary elogia o papel de Obama nesta causa, pois "ele ainda tem muita influência". E sabendo que a conferência foi organizada por uma empresa ligada ao vinho do Porto, Gary tinha um pedido especial a fazer ao antigo líder dos EUA caso tivesse oportunidade de trocar umas palavras com ele ali à entrada do Coliseu: "Não deixe esgotar o vinho, e sobretudo o vinho do Porto", atira, com um sorriso de evidente satisfação com as experiências enófilas destas férias.

Tal como Gary e Sherryl, muitos outros turistas de ocasião iam parando junto ao coliseu e por ali ficavam assim que tomavam conhecimento da visita de Obama. Como o grupo de amigas espanholas que esperava assinalar o aniversário de uma delas com "uma prenda especial" inesperada. Ou Stefano e Katia, um jovem casal italiano de namorados, de Trieste. E vários outros que paravam, esperavam e desesperavam, arredando pé quando se tornou evidente que a maratona em frente ao Coliseu iria resultar em nada.

João Ricardo Lobo, dono da retrosaria Central dos Forros, há 75 anos aberta ali na Rua Passos Manuel, aplaude a iniciativa que traz o antigo presidente americano, uma das três personalidades por quem nutre especial admiração. "O Obama, o Marcelo e o Papa Francisco", diz. Mas lamenta que lhe tenha vindo "prejudicar um pouco" o negócio. "Só passam curiosos, os clientes assustaram-se. De manhã até pensei que era melhor fechar portas", conta, enquanto vê a sorte mudar, com dois clientes na loja.

Enquanto atende, conta que foi visitado "pela PSP, na segunda-feira, a dar conta do que iria acontecer". "Vieram ver o estado da loja, as condições que tinha, fizeram perguntas, diziam que era para atualizar os ficheiros", recorda, com um esgar de ironia. O pior mesmo foi terem-lhe tirado o estacionamento privativo que tem à porta. "Mas pronto, hoje pelo menos tenho a casa mais segura do que nunca. Não entra cá gatuno", brinca. Mais a sério, acha "fantástico para a cidade" ter a visita de uma personalidade como Obama, "um dos maiores embaixadores deste tema das alterações climáticas", frisa, mostrando-se perfeitamente a par do assunto que motiva a conferência.

Mesa com vista para o espetáculo

Local privilegiado para ver todo o frenesim era o Maus Hábitos, um dos espaços culturais de referência da Baixa portuense, no quarto andar do edifício em frente ao Coliseu do Porto. Daniel Pires, fundador e proprietário, diz que a presença de Obama não trouxe alterações ao normal funcionamento do espaço, exceto "terem fechado a garagem" que dá apoio ao edifício e que foi transformada em centro de acreditação para os convidados da conferência Climate Change Leadership Porto Summit.

De resto, e apesar de todo o aparato policial, o dono do Maus Hábitos garante que também ninguém lhe impôs quaisquer restrições no acesso e na utilização do espaço, cujas janelas permitem vista privilegiada para a entrada do coliseu. Por isso, como o DN testemunhou, era possível ainda arranjar mesa para almoço junto à janela a quem quisesse desfrutar desse balcão para o espetáculo lá em baixo.

"Em 2001, na Cidade Europeia da Cultura, foi pior. Até tivemos snipers aqui em cima, quando veio cá a rainha da Holanda e outros chefes de Estado", conta Daniel, que já recebeu no Maus Hábitos personalidades bem famosas, mas mais ligadas ao mundo da cultura, "como o Iggy Pop, o Nick Cave e o Brian Eno", por exemplo. Quanto a Obama, "seria bem recebido também", diz. "Pode ser que saiam dali todos com um 'secão' e venham até cá."

Francesinha para Obama

Ao lado, outra meca da peregrinação de turistas no Porto destes dias: o café Santiago, cujas francesinhas provocam famosas filas à porta. Desta vez, a entrada faz-se mais fácil do que o costume. Fábio Correia, o gerente, admite que "está menos movimentado". "Talvez pelas ruas cortadas ou pelo susto do aparato", diz. Ainda assim, pouco depois do meio-dia e meia, já só se vislumbra uma mesa disponível. Está reservada para Obama? "Era bom, era. Gostávamos muito de o ter aqui a comer uma das nossas francesinhas. Acho que ele ia ficar fã", diz.

Obama não veio para a francesinha. E lá dentro do coliseu os convidados que o aguardavam sem poder sair do espaço - numa conferência que começara de manhã com outros oradores - eram servidos com um pack de refeição que incluía uma sandes, uma embalagem de massa e queijo feta, uma bolacha e uns snacks.

De volta à rua, sem notícias de Obama, foi Marques Mendes a ter direito à receção mais calorosa quando surgiu à porta do coliseu. O ex-líder do PSD e atual comentador foi o campeão da popularidade, distribuindo até beijinhos pelo ar aos presentes. Notada foi também a chegada de Assunção Cristas, a líder do CDS, que também teve direito a simpatias mas dividiu mais a assistência.

O abraço do Manuel do Laço

Fenómeno de popularidade, onde quer que se apresente, é Manuel do Laço, conhecido adepto do Boavista que se veste sempre a rigor com as cores do clube (laço incluído, claro). Manuel viveu mais de 20 anos nos EUA, "no Connecticut". "Em 1973, quando fui para lá, tive o aeroporto cheio de gente a despedir-se de mim. Como se fosse uma equipa de futebol", garante. E por falar em futebol... "Treinei lá uma equipa amadora e ainda hoje dizem que fui dos melhores que por lá passaram", acrescenta.

Atualmente, Manuel do Laço tem lá, na América, "um filho e três netas" e, por isso, também ele fez questão de dar um salto ao Coliseu do Porto para tentar "dar um abraço ao Obama". "É o meu presidente. Foi um bom presidente para os Estados Unidos e para o mundo", justifica - embora "este também o seja", diz, referindo-se a Trump.

Com o tempo a passar e as notícias de que Barack Obama já estaria, afinal, dentro do coliseu ("Entrou pela Rua Formosa, por onde entram os do circo", esclarece um transeunte ligado às redes sociais), os desabafos de protesto começaram a ganhar volume entre os populares, frustrados pelo elitismo da iniciativa.

Asneiras, não

"A tarde toda aqui para ver um homem? Vou-me já embora", reclamava Celeste, "nascida na Sé há mais de 60 anos", mas que "nunca disse uma asneira", fazia questão de esclarecer perante os jornalistas. "Revolta-me ver os portuenses que dão na televisão, parece que só sabemos dizer asneiras".

Ao lado, Margarida, uma amiga feita ali nas horas de espera, também lamentava o tempo perdido. "Vim de propósito para ver o Obama e não vi nada. Só vi polícias. Já perdi a esperança. Olhe, vou almoçar, que a barriga já está com fome. Pode ser que o encontre por aí, depois", despede-se, já perto das 16.00, pouco antes de o 44.º Presidente da história dos EUA sair do Coliseu do Porto da mesma forma como entrou: sem que ninguém lhe pusesse a vista em cima, à exceção dos 3000 convidados da conferência.

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