Premium Em Davos, algo mudou

De repente, algo mudou em Davos, a conferência em que os ricos e poderosos deste mundo procuram ter voz. Em primeiro lugar e por circunstâncias diversas, faltaram alguns dos principais líderes mundiais. Em segundo lugar, foi dado palco ao novo presidente brasileiro que nada disse e cujo ministro da Economia, amigo de Davos, continuou desconhecido como dantes. Por fim e mais importante, falou-se de empresas e mudanças climáticas, de empresas e filantropia, de empresas e sociedade, mas o que mais sobressaiu foi o desgaste dessa conversa. Ao contrário, o que teve êxito foi tudo o que foi dito sobre taxar os mais ricos. Nada disto é por acaso. Vejamos então em que ponto estamos - com Portugal em pano de fundo.

Depois de uma longa década de impasse em soluções governativas, ganhou força, algures nos anos 1980, a convicção de que era preciso desregular a economia e "desagravar" impostos. Assim foi feito e em quase todo o mundo industrializado foram reduzidas as barreiras aos movimentos de capitais e de produtos (não tanto de pessoas) e baixados os impostos sobre os rendimentos mais altos, do trabalho e do capital. Esta tendência desagravadora traduz-se em três nomes que dizem quase tudo, Thatcher, Reagen e Cavaco. Entretanto, não sabemos bem por que razão, largos extractos dos eleitorados compraram a ideia e ela acabou espelhada, embora de forma menos radical, por nomes como Clinton, Blair ou Guterres. Nada de mal nisto tudo, pois o mundo então tinha de mudar e mudou.

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Opinião

'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?

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Adriano Moreira

A crise política da União Europeia

A Guerra de 1914 surgiu numa data em que a Europa era considerada como a "Europa dominadora", e os povos europeus enfrentaram-se animados por um fervor patriótico que a informação orientava para uma intervenção de curto prazo. Quando o armistício foi assinado, em 11 de novembro de 1918, a guerra tinha provocado mais de dez milhões de mortos, um número pesado de mutilados e doentes, a destruição de meios de combate ruinosos em terra, mar e ar, avaliando-se as despesas militares em 961 mil milhões de francos-ouro, sendo impossível avaliar as destruições causadas nos territórios envolvidos.