Premium O sonho delas é ver pais e filhos envelhecer juntos

Daniela, Joana e Margarida. Duas psicólogas e uma designer de comunicação de formação. São técnicas da Cercica, uma há 20 anos, outra há 10 e outra há 17. Ali entraram, ali estão, porque o trabalho passou a ser uma missão.

"Somos pessoas a trabalhar com pessoas que têm uma característica muito particular: os afetos à flor da pele, quer seja para o bem quer seja para o mal. E a nossa envolvência como técnicos surge de forma muito natural, mas é muito grande, o que se calhar não acontece noutro tipo de funções. Envolvemo-nos muito com eles e eles connosco. Tornamo-nos uma família. Para alguns somos a única família que têm."

Joana Bettencourt, psicóloga, entrou na Cercica há 20 anos, hoje é coordenadora do Centro de Atividades Ocupacionais (CAO), uma das valências da instituição que nasceu em 1976 para dar resposta a crianças com deficiência e que na altura não tinham lugar nas escolas regulares. Margarida Nascimento é psicóloga no CAO há 10 anos. Daniela Gomes é designer de comunicação de formação, foi professora de Educação Visual e colaborou com o Ateliê de Artes da Cercica, um dia "vestiu a camisola" e integrou o ateliê a tempo inteiro.

A camisola que todas dizem deixar marcas e que não é possível despir ao fim do dia ou ao fim de semana porque, reforça Joana: "Para alguns somos a única família que têm, telefonam-nos fora de horas, quando estão doentes, quando precisam de algo." Margarida ri-se como se tal fosse óbvio: "Não é possível, é muito difícil." E Daniela explica: "Somos o motor. É um trabalho constante de vigilância."

Há quem não aguente, há quem desista rapidamente por não ter perfil, que entre em burnout, o que já aconteceu, porque a profissão é de grande desgaste emocional. Mas há quem siga em frente, apesar das angustias, de não conseguir responder às necessidades de todos que procuram a instituição, apesar de, por vezes, sentirem que não conseguiram dar o seu melhor. Mas medos? "Não, isso não", respondem todas.

Sentadas nos degraus dos jardins da Cercica, Joana, Margarida e Daniela, que naquela manhã de sexta-feira interromperam o trabalho para falar com o DN, assumem sem problemas: "É uma missão, só assim é que se consegue viver." Cada compensação chega pelos pequenos e grandes sucessos que cada uma das pessoas com quem trabalham vai conseguindo no dia-a-dia. "Às vezes não é quase nada, mas, como temos uma ligação tão forte, qualquer evolução num deles tem uma dimensão enorme para nós", afirma Joana.

O desafio constante é levá-los a fazer coisas, porque o mais fácil seria "fazer por eles". Até tinham o trabalho facilitado, mas "eles têm de aprender a fazer e temos de encontrar a vontade de os levar a fazer a partir das coisas deles e não das nossas. É de coisas que são importantes para eles que temos de partir", explicam. Um desafio constante que obriga, tantas vezes, a uma mudança de visão, de perspetiva e de desconstrução para mudarem a atitude.

Para Daniela, este trabalho é de vigilância constante, e o que a deixa mais angustiada é sentir que estava distraída e que não viu determinados sinais. "Não ver coisas que deveria ter visto e que são importantes, porque os sinais deles nem sempre são verbais, muitos não têm a capacidade de verbalizar o que estão a sentir ou o que lhes está a acontecer." E reforça: "Nós somos o motor, porque eles fazem, mas nós temos de estar bem para os levar a fazer."

Margarida confessa que tem uma angústia tremenda que é "ver que alguns estão a envelhecer e ainda não haver grandes respostas para esta fase. Eles próprios têm noção de que vão ficar sem família e o que vai ser feito deles. É uma preocupação, é isto que me assusta. Medo? Não."

Quando o trabalho passa a ser uma missão

E o que fazer? Elas têm sonhos, elas sabem o que gostariam de fazer e proporcionar aos seus clientes, termo que foi introduzido na linguagem técnica de quem presta cuidados. Deixaram de ser alunos porque a Cercica não é escola, deixaram de ser utentes porque não presta só cuidados, passaram a ser clientes porque prestam um serviço certificado com qualidade.

Mas para elas todos os que ali estão têm um nome, uma história que conhecem de fio a pavio. Partilham alguns detalhes apenas para se perceber como é urgente começar a intervir nesta fase na da terceira idade, porque qualquer pessoa com deficiência também lá chega. E o que lhes acontece? "Normalmente são separados das famílias quando ainda as têm, os familiares vão para lares e eles têm de ir para instituições que receba pessoas com deficiência."

A resposta deixa-nos com um murro no estômago porque o que seria óbvio, o poderem envelhecer juntos, não é o óbvio para esta faixa da população, não é o possível. "Os lares que recebem as famílias não os podem receber a eles, não estão preparados para a deficiência intelectual ou mental", sublinham.

"É tremendo", continuam, "famílias que lutaram a vida inteira pelos filhos, às vezes com tantas dificuldades, acabam por ser separadas no fim do vida." Famílias pequenas, algumas monoparentais, deveriam ter um espaço onde pudessem ficar com os filhos e receber os cuidados de que uns e outros precisam", defendem e sonham que um dia isso seja possível.

Joana Bettencourt tem um sonho. O de, um dia, a Cercica, que já tem uma sala para seniores e unidades residenciais para receber os mais dependentes em idade avançada, possa também ter um espaço para receber famílias, que permita o envelhecer juntos.

"Muitos ficam connosco até ao fim dos seus dias." O cliente mais antigo da Cercica tem 60 anos, está lá quase desde o início. Já não tem família, apenas umas primas que são as tutoras, mas vive numa das unidades residenciais da instituição.

Joana tem este sonho. Daniel e Margarida são fãs dele, talvez um dia seja possível, porque a Cercica está sempre a crescer. Neste momento tem em construção mais uma unidade no concelho, em Rana, uma antiga escola primária que a Câmara de Cascais cedeu e que a instituição está a recuperar para ali construir um lar, um espaço para os mais dependentes.

A Cercica "talvez seja das Cerci do país com mais atividades", dizem. Dá resposta em várias áreas: intervenção precoce na infância, que vai dos 0 aos 3 anos; intervenção junto de crianças que estão sinalizadas e que frequentam agrupamentos escolares através do Centro de Recurso para a Inclusão; formação profissional, com cursos de duração de dois anos nas áreas da hotelaria, limpeza, manutenção e jardinagem, em que os formandos são depois encaminhados para o mercado de trabalho; o CAO, que recebe os que não conseguem fazer formação profissional; na terceira idade com uma sala para seniores, que nasceu da necessidade de pessoas com mais idade não estarem misturadas com os mais novos ou a fazerem as mesmas atividades; residências autónomas para os clientes mais dependentes e um serviço domiciliário que abrange todo o concelho e que já tem a particularidade de ter ex-formandos integrados nas equipas.

Mas falta mais, dizem... faltam mais acordos com a Segurança Social para podermos dar resposta a todas as pessoas que nos procuram, algumas em lista de espera há vários anos. Joana confirma que só para o CAO há uma lista de espera que vai sendo alterada hora a hora, dia a dia, mais de cem pessoas. Ao todo, estão na Cercica cerca de três mil clientes, distribuídos por todas as valências, 210 técnicos e 34 voluntários.

Desde 1976 que dá resposta a crianças, jovens, famílias, e tem crescido, tem mudado, muito pela diretora que tem, Rosa Neto, psicóloga, dizem-nos. Neste ano a festa de Natal vai ter também uma novidade... vai ser fora, porque ali já não é possível acolher tantos clientes e famílias que querem estar presentes. Tudo porque o pensamento que as faz caminhar "não é mudá-los a eles, aos clientes, mas ao meio que os rodeia, para lhes dar aquilo de que precisam."

Ler mais

Exclusivos

Premium

Daniel Deusdado

Começar pelas portagens no centro nas cidades

É fácil falar a favor dos "pobres", difícil é mudar os nossos hábitos. Os cidadãos das grandes cidades têm na mão ferramentas simples para mudar este sistema, mas não as usam. Vejamos a seguinte conta: cada euro que um português coloca num transporte público vale por dois. Esse euro diminui o astronómico défice das empresas de transporte público. Esse mesmo euro fica em Portugal e não vai direto para a Arábia Saudita, Rússia ou outro produtor de petróleo - quase todos eles cleptodemocracias.