Premium "Já fui o Tom, o Porky Pig e o Bugs Bunny, agora sou simplesmente eu próprio, Filipe"

Filipe Cerqueira é pintor. Assim se está a afirmar aos 29 anos. Fala três línguas, português, inglês e espanhol. Tem a síndrome de Asperger e uma certeza também: "Eu sei tudo das coisas que eu sei."

Esta história é contada também na primeira pessoa. Filipe é adulto, faz 30 anos a 15 de fevereiro. Tem a síndrome de Asperger. A memória para datas não o atraiçoa. E a visual também não. Fã de animação desde pequeno, começou por investigar os desenhos animados de que gostava. Primeiro as personagens, depois as pessoas que lhe davam as vozes, as que dirigiam, as que produziam, os argumentistas e, por fim, quem dava voz às personagens em várias línguas. Como se não bastasse, Filipe sabe imitar as vozes de todos eles. Por isso, do alto da sua sabedoria, imensa, diz: "Eu sei tudo das coisas que eu sei."

Falar sobre o Filipe não é fácil. Descrevê-lo também não. É preciso conhecê-lo. Olhá-lo nos olhos, ouvi-lo - a corrigir as técnicas da Cercica ou os pais sempre que se enganam numa data ou num pormenor, ou a contar alguns dos episódios que o marcaram. É preciso observar o entusiasmo com que fala do seu trabalho, da T-shirt que traz vestida - branca, simples, com imagens de Os Três Estarolas, as personagens preferidas - ou de como reage às pessoas que encontra e de quem gosta.

É preciso observar a autenticidade com que fala de tudo o que o marcou, quer seja das atividades em que não se integrou, como a jardinagem, ou das que abraçou e depois se fartou. O caminho tem sido feito passo a passo e sempre adaptado às suas necessidades. Mas se há algo de que não há dúvida é que a vida de Filipe é na arte. Esta é a sua primeira competência.

Hoje é ele quem fala dele, dos seus medos, da fase em que não queria ser ele, em que não queria sair do mundo da infância para ser adulto. É ele quem conta como em criança vestiu a pele de várias personagens, Tom de Tom & Jerry, depois Porky Pig e, por fim, Bugs Bunny. Recorda o tempo no colégio O Veleiro, em Lisboa, onde os colegas o tratavam assim e ele não gostava.

Recorda quando deixou o ateliê Artes do Fogo, onde pintava azulejos porque alguém lhe repetia constantemente a mesma frase. Reconhece que se cansava das coisas, que se irritava, às vezes muito, mas diz também que isso passou. "Agora já não me irrito nem fico zangado, não vale a pena. Só digo: eu não simpatizo."

É preciso conhecer o Filipe para o ouvir dizer esta e tantas outras frases, com a autenticidade própria de quem vive num outro mundo, naquele em que não há espaço para qualquer outra interpretação senão a que verbaliza.

Durante anos, uma das suas personagens preferidas era o Pateta, a irmã dizia-lhe que ele tinha de ser ele próprio, mas não aceitava. Mas, afinal, "a minha irmã Soraia, que vive em Londres, tinha razão, eu deveria ter sido o Filipe mais cedo". O pai comenta: "Mas isso agora não interessa, pois não? És o Filipe, o passado não se pode mudar." E ele responde: "Já sei, mas porque é que toda a gente diz que o passado não se pode mudar?" O pai, Henrique Cerqueira, ri-se.

Filipe foi o Pateta até aos 23 anos. Um dia, um domingo de manhã, pediu à mãe que saísse do quarto dela e o deixasse entrar. "Ele andava muito agitado há umas semanas, zangado, triste também, pensei: vou sair e deixá-lo entrar. Ele esteve lá dentro uns 15 minutos. Não sei o que fez, quando saiu disse-me: "Mãe mandei o Pateta e os bonecos que estavam dentro de mim no elevador para se irem embora e fazerem a vida deles. É muito pesado tê-los dentro de mim." Para Maryam este foi o dia em que o filho se livrou do medo, do medo de ser quem era, para passar a ser, como ele diz, "simplesmente Filipe, de carne e osso".

Depois destruiu a máquina de transformação que andava sempre consigo, a máquina desenhada em papel que o transportava sempre que queria ir para o mundo das personagens. Agora, o Filipe gosta de si e do que faz, gosta de gostar dos outros, de estar com os outros, de socializar, de falar das suas emoções, dos seus medos, contam as técnicas que o acompanham.

Até quando surge um toque por parte dos outros, a reação já é diferente, pelo menos "aceita melhor". "Se há coisa que percebemos é que os portugueses falam com as mãos. Era terrível quando ele era mais pequeno e lhe tocavam. Havia uma crise, agora já é mais aceitável para ele. Tudo depende da situação e de quem lhe toca, mesmo assim responde ao comentário dos pais: "Ainda não gosto muito."

Maryam fala de quando recebeu pela primeira vez um beijo do filho, e que não foi assim há tanto tempo. "Dirigiu-se a mim para me dar as boas-noites e deu-me um beijo na cara. Nunca tinha recebido. Ele não gosta, dá só a cara." E o Filipe corrige: "Mas agora dou."

Os pais de Filipe abriram as portas de casa para falarem do filho que têm e que começaram a perceber que teria uma diferença por volta dos 12 meses. Ele quis estar presente, claro. Ele fala por si. "Eles podiam enganar-se nalguma data e eu não quero", explicou. "Quando tinha um ano e meio ele não falava e sentava-se virado para uma parede. Era capaz de estar assim uma tarde inteira a brincar com um carrinho sempre na mesma direção", contam.

Falaram com o pediatra, que desvalorizou a situação "por haver crianças que desenvolvem mais cedo algumas capacidades do que outras. Era o argumento. Naquele tempo também era mais difícil diagnosticar estas situações".

Quando o Filipe tinha 2 anos viram um programa na BBC e perceberam que ele tinha autismo. "Depois do programa virámo-nos um para o outro e dissemos: o nosso filho é autista. Falámos com o pediatra e ele encaminhou-nos para um outro pediatra especialista nesta área. O professor Dias Cordeiro, que foi sempre quem depois acompanhou o Filipe."

Henrique aceitou de imediato. "Sou mais prático, percebi que tínhamos de agir e avancei para o que se podia fazer para o ajudar", diz. "Mas nunca fomos uns pais passivos. Tentámos sempre e continuamos a atirá-lo para a frente, a tentar adaptar as coisas à sua evolução e necessidades."

Maryam reconhece que o diagnóstico do filho foi um processo duro e complicado. "Foi um grande choque. Não aceitava. Bloqueei. Para mim, tudo tinha de ser perfeito, tudo o que fazia tinha de estar perfeito. Henrique tratou da Soraia e eu tive de fazer todo um trabalho com o Filipe. Foi preciso desconstruir a minha personalidade para construir a minha relação com o Filipe", explica Maryam, iraniana, há mais de 30 anos em Portugal. Um dia, conheceu Henrique em Londres, onde ambos estudavam e se apaixonaram, casaram em 1981 e vieram para cá.

Recorda que este foi o pior momento para ela, mas depois da aceitação escolheu sempre o caminho em que o filho se sentia mais feliz. "Nunca o escondemos e tentámos sempre que ele fosse o mais independente e autónomo possível."

Henrique confessa que o mais difícil para ele foi o momento em que Filipe começou a andar de transportes públicos. "Foi em 2007", diz logo Filipe. "Ele estava na Cercica e podia ir de transportes públicos. Tivemos de o treinar. Em pouco tempo ficou a saber tudo sobre os autocarros do concelho. Para mim era uma coisa contranatura. Ter um filho especial e dar-lhe asas. O normal era agarrar, proteger, muitos pais ainda olham para nós como loucos. Mas ele aprendeu num instante e hoje fala do antigamente, de antes de ter aprendido a ter esta autonomia, hoje é dono da autonomia dele e isso vale tudo."

Quando aprendia a andar de transportes, Filipe deparou-se com uma situação que quase o fez desistir. "A espera pelo autocarro incomodava-o, deixava-o cansado", conta o pai. "Um dia pediu-me dinheiro para ir de táxi. No primeiro dia dei-lhe, mas depois continuou a pedir e pensei: não pode ser. E disse-lhe que tinha de ir de autocarro", acrescenta Maryam. "Eu tive de lhe dizer que se ele soubesse as horas - uma coisa que ele não tinha aprendido, apesar da insistência da psicóloga que o acompanha, a Dra. Patrícia, e da nossa - não teria de esperar tanto tempo. Via o horário e saía de casa e da Cercica à hora certa."

Então que pediu ao pai: "Explica-me o que é isso das horas. E passado pouco tempo veio dizer-me que já sabia como era. Nos dias seguintes tive de o seguir para ver o que fazia. Ele tinha percebido mesmo." Portanto, o Filipe aprende tudo o que quer desde que seja do seu interesse.

Maryam diz a rir: "Nós é que passámos a ter a síndrome do autismo. Temos as mesmas rotinas, os mesmos horários e tivemos de aprender muita coisa com ele." Henrique e Maryam não deixaram de trabalhar, de ter uma vida, para além da diferença do Filipe.

Mas cedo tiveram de aprender a lidar com o "reforço positivo", o que significava, simplesmente, como dar a volta ao Filipe. "Ele lidava muito mal com o não, ainda hoje lida com as coisas negativas, uma pessoa diz-lhe alguma coisa de que não gosta e ele nunca mais se esquece." E o Filipe entra em ação: "Pois é, lembraste da palmada que me deste..." "Pois, dei-lhe algumas palmadas e hoje ele lembra-se de todas, e aquilo continua a ter uma dimensão incrível."

Henrique e Maryam tiveram de aprender a reverter, sempre, tudo o que poderia ser negativo para ele, para lhe mostrarem uma outra faceta, a positiva, algo do seu interesse. "E agora ele aceita."

Henrique lembra-se de uma das piores fitas que fez. "No Jumbo de Cascais, quando lhe disse que não poderia levar para casa um brinquedo que queria e voltei a colocá-lo na prateleira. Às tantas ficou completamente descontrolado, chorava, havia umas 50 pessoas à nossa volta, e quantas mais havia mais ele chorava. Senti muitos olhares a dizerem-me que com uma palmada passava. A Maryam também estava no meio da multidão e não sabíamos o que fazer..."

"Fui salvo por uma miúda"

Depois desta não houve repetições. Filipe estava a crescer e a perceber o que lhe diziam, o que estava bem ou mal no seu comportamento. "Nós falámos e nunca mais fizeste. Tu próprio não gostaste da situação, ficaste incomodado, não foi?" Filipe, que apesar da idade, era muito pequeno, lembra-se e diz: "Pois foi, mas agora já não me zango. Quando não gosto digo: não simpatizo."

Filipe teve de aprender também a andar sozinho na rua, a estar sozinho em casa. Embora seja autónomo, os pais têm noção de que "nunca será a 100%". Por exemplo, "não cozinha ao fogão. Isso a mãe não o deixa fazer, tem receio. Ficar em casa à noite sozinho pode ser natural, mas se houver um imprevisto nunca se sabe como pode lidar com a situação". E mete-se na conversa para explicar que se sente inseguro nessas situações, tal como se sentiu quando foi atacado por um "gangue de hooligans junto ao seu bairro. Daqueles que usam barrete na cabeça e se sentam assim... Com gestos imita-os sentados, dobrados, olhos quase fechados e de braços cruzados".

Os pais riem-se e acrescentam: "Vá, agora conta por quem foste salvo." E ele: "Por uma miúda, conseguiu mandá-los embora." Filipe conta o episódio a toda gente. Na altura ficou orgulhoso por ter sido salvo "por uma miúda", que o foi levar a casa. Depois, sentiu-se inseguro e não queria andar pelas ruas de Cascais. "Tivemos de lhe explicar por onde podia andar, fizemos uma volta com ele de carro para conhecer todos os lugares e, depois, ele fez um mapa da vila que dividiu em dois, uma zona amarela e outra vermelha, onde não podia andar."

Em criança frequentou o Colégio Saint George, que já não existe, depois passou para O Veleiro. Pelo caminho, teve de aprender a falar, foi difícil, mas aos 4 anos dizia tudo, em duas línguas, em inglês também, porque era essa a língua que se falava em casa. "Eu aprendi o inglês britânico, mas agora gosto mais do americano", interrompe. Não fossem o cinema e a animação a sua paixão.

Aprendeu a contar dinheiro, a lidar com piadas e a perceber o que era a mentira, para não ser enganado. Os pais surpreenderam-se quando a psicóloga lhes disse que estava na hora de aprender tudo isto. "O Filipe é genuíno. É das pessoas mais felizes que conheço. Hoje dá-me menos preocupações do que, se calhar, a minha filha, que vive em Londres", assume o pai. Mas "levava tudo a sério, não percebia o que era uma piada ou o que poderia ser mentira ou trafulhice. Aprendeu, mas não mente, quando muito não fala sobre uma coisa de que sabe que vou zangar-me. Como ir ao McDonald's", diz o pai a rir. Agora sabe que ao McDonald's só vai almoçar ao sábado. "Pois é, é só nesse dia", confirma ele. "O resto da semana estou a dieta."

O caminho de todos, apesar de difícil, tem sido sempre o de aprender algo. "A coisa mais importante que aprendi com o Filipe foi que na vida temos muita coisa de que não precisamos. Ele rejeita tudo o que não interessa, e aprendemos que há uma quantidade de coisas desnecessárias que aturamos porque achamos que é o politicamente correto, e que de facto não são necessárias. Isso tem sido incrível", afirma Henrique.

Para trás ficam os amigos que perderam, as situações que os marcaram pela discriminação da sociedade ou das barreiras que "são tantas e temos de estar sempre a ultrapassá-las. Mas há uma coisa boa no meio disto. São mais as pessoas que têm ajudado o Filipe do que as que o têm prejudicado".

Maryam relembra um caso, não há muito tempo. "Filipe sempre foi grande e no café aqui ao pé de casa estávamos os dois e ele afastou-se um pouco. De repente, ouço muito barulho. Fui ver e um homem agarrava-o pelo pescoço. Filipe tinha falado com os filhos dele, ele não deve ter percebido e começou aos berros a dizer que estava farto de atrasados mentais. Tive vontade de fugir, de ir para um deserto com ele. Foi uma das situações, como mãe, que mais me marcaram."

É ele quem trata de si, mas os pais ainda não sabem se haverá um dia em que poderá viver sozinho. É ele quem fala dele, do que agora quer fazer, do mundo que é o seu e por onde quer ir. Nas resoluções para o próximo ano, que já redigiu, sabe que quer tirar a carta de condução. "Agora vamos ter de descobrir o que vamos fazer", comenta o pai.

Não diz: "Vamos ver se é possível fazer alguma coisa." Para eles é e foi sempre "fazer alguma coisa, arranjar uma solução. Se calhar daquelas motos com quatro rodas. Vamos ter de testar", diz. No papel que redigiu e entregou na Cercica escreveu que "quer ter mais amigos, ter novas exposições e projetos de trabalho, passear pelos lugares sozinho e ter mais visitas em casa".

Sabe que "sou bom a respeitar as pessoas, sou bom a desenhar, sou bom a falar e a explicar em três línguas. Sou bom em estar sozinho". E aceitou levar-nos a conhecer o seu mundo, uma manhã de sexta-feira, pelas 10.00, na Cercica.

É lá que nos recebe com a educadora Daniela. Tinham traçado o percurso que iríamos fazer para nos mostrarem todas as fases por que passou na instituição. Está lá há 11 anos, já não todos os dias de manhã à tarde, apenas três manhãs por semana. Uma situação que foi pensada pela família e pela instituição para adaptarem melhor o que ele quer às suas necessidades.

Na próxima exposição quero cá o Marcelo e a Madonna

A T-shirt que veste num dia de frio denunciava boa disposição. É assim que gosta de andar vestido. Quando olha para o telemóvel, pergunta: "É isso que vai gravar a minha voz?" E começa a contar todas as etapas por que passou, desde a jardinagem, de que não gostou, à cozinha, que também não foi o seu forte, até chegar ao ateliê de Artes do Fogo. À azulejaria, em que esteve uma série de anos. "Quando passa no túnel da praia do Tamariz é capaz de indicar todos os azulejos que lá estão e que pintou."

Estava a ficar cansado e saiu. Passou para o ateliê onde está agora, o de Arte Criativa, com a Daniela, onde trabalha por temas que lhe são propostos e que requerem orientação, mas que têm sempre que ver com os seus interesses.

Filipe abre uma gaveta de onde retira uma mão-cheia de trabalhos. "Ele é muito produtivo", afirma Daniela, que interrompe: "Às vezes fico a pensar noutras coisas e tu dizes-me: em que estás a pensar? E eu volto a trabalhar."

Mostra desenhos com Os Três Estarolas, Os Metralha, os seus vilões favoritos, com as personagens Bucha e Estica ou Laurel e Hardy, e tantos outros com o Mickey, o Pluto, a Cinderela, da Disney, e o Pateta.

Em português, o Batatinha é uma das personagens preferidas, tantas vezes adaptado aos seus trabalhos, e o Vitinho. "Ainda vejo o Vitinho no YouTube", confessa.

A pintura cresceu com ele. Os pais contam que chegava ao consultório dos médicos que o acompanhavam e sentava-se no chão a desenhar, "sem tirar sequer o lápis ou a caneta do papel", recorda o pai. Era assim que comunicava.

Ele pinta em papel, tela, azulejos, painéis, faz colagens com imagens de personagens de que gosta e integra o seu rosto. Hoje sente-se atraído pelas novas tecnologias, por desenhar em computador e é isso que investiga.

Nos corredores ou nos ateliês da Cercica, identificam-se facilmente. O traço é inconfundível. Alguns já são vendidos. "Numa visita oficial, na altura em que era ministro, Paulo Portas perguntou de quem eram aqueles trabalhos e, no final, foi comprou três quadros do Filipe", conta o pai.

Fez três exposições, a última há dois anos, na galeria Abysmo, em Lisboa. Foi ele quem conduziu uma das visitas que houve para uma escola de crianças com síndrome de Asperger. Falou do seu trabalho, de como é, e houve quem lhe dissesse: "Ei Filipe, eu reconheço esse. Esse sou eu", conta-nos. O ter percebido o que tem foi importante, sabe melhor como se socializar e juntar aos outros.

Neste percurso tem tido a ajuda da orientadora, educadora, no ateliê de Arte Criativa, Daniela - como lhe chama - designer de comunicação, foi professora de Educação Visual mas um dia decidiu entrar no ensino deste mundo da pessoa com deficiência. Está lá há 17 anos. Filipe e os pais reconhecem: "Devemos muito ao trabalho da Daniela, ajudou-o a passar para outro patamar, mais profissional. O Filipe encontrou-se, encontrou o que quer mesmo fazer e aquilo que é a sua primeira competência", argumenta Henrique.

Filipe é pintor, ator, não apenas quando nos fala de uma das suas personagens, mas também quando nos fala de alguém, de uma situação. Tem dois blogues o senhorcerqueira.blogspot.com e o pinturasdofilipecerqueira.blogspot.com.

Tem Facebook. Gosta de música (rock, pop, jazz), de Louis Armstrong, The Beach Boys ou The Fat Boys. Gosta de viajar. Nos anos já sabe que vai a Marrocos. Adorou ir aos EUA, mas gosta de passar as férias de verão no Algarve. E gosta de políticos, de alguns...

Antes de mais, visualiza. Vai a caminho do quarto projeto de trabalho. Tem vindo a trabalhá-lo com Daniela e com a Abysmo, com João Paulo Cotrim, e fez questão de nos dizer que, quando este for apresentado, quer lá ter o Presidente da República. "O Marcelo Rebelo de Sousa já o desenhei e pintei, mas também quero lá a Madonna. Ela agora está cá a viver e já pedi ao João Paulo para lhe enviar um e-mail."

Falar do Filipe não é fácil, é preciso conhecê-lo.

O DN termina aqui o trabalho que publicou ao longo da semana sobre Deficiência: Um Mundo sem Limites.

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Adolfo Mesquita Nunes

Ventos e casamentos do sistema partidário espanhol

Nos últimos cinco anos o panorama político espanhol alterou-se profundamente, fazendo dele uma espécie de súmula dos movimentos de transformação política que ocorrem no mundo ocidental. Olhar para Espanha é um exercício relevante para entender o que pode suceder aqui.O fim do bipartidarismo Quando, em 2011, o PP ganhou as eleições, tudo estava em ordem. Desde 1996 que os espanhóis viviam em alternância. Era agora a vez do PP. O que Rajoy não sabia é que o bipartidarismo morria: em 2015, o PP perdeu a maioria, o PSOE perdeu votos, e irromperam o Podemos e o Ciudadanos. O desarranjo foi tal que ninguém se entendeu. As eleições repetiram-se: o PP pouco cresceu, o Podemos não superou o PSOE, o Ciudadanos desceu e o PSOE teve o seu pior resultado; o bipartidarismo, esse, não regressou. Rajoy lá formou um governo que, pouco depois, caiu numa moção de censura. Agora, sem eleições, o PSOE governa de forma ainda mais minoritária. Quando se tornou evidente que o sistema tinha quatro partidos nacionais, as eleições andaluzas revelaram a irrupção de um antes moribundo Vox, um partido que apela a temas rotulados como de extrema-direita, e que as sondagens já veem no Parlamento nacional. Passarão a ser cinco? Como é que em poucos anos tudo mudou? Penso que há quatro fatores que ajudam a explicar esta transformação.A crise de 2008 Fundado a partir do movimento dos indignados (que liderou as manifestações contra os efeitos da crise), o Podemos concorreu às europeias de 2014 e teve 8%. Em 2015, nas legislativas, teve 20%. Nunca a esquerda anticapitalista, antissistema, adepta da democracia direta, tinha tido tanto voto. Mas enquanto o PSOE era a cara da crise e o PP aplicava a austeridade, Iglesias tinha tudo a favor: outsider, fora de casos de corrupção, podia prometer, dominava as redes sociais e não saía da televisão. Era o tempo em que o Podemos sonhava com o sorpasso. Parecia imparável. E é normal. Em tempos de crise, de desespero, não é possível exigir às pessoas que não cedam a discursos fáceis: as pessoas querem autenticidade e política - o economês deixa de relevar e as caras antigas soam a passado. Entretanto, o Podemos foi perdendo votos e vigor à medida que se foi revelando. O seu n.º 3 empregava precários, o seu n.º 2 recebia dinheiro da Venezuela, e Iglesias comprou casa de milionário, exigiu a tutela dos serviços secretos e ainda nesta semana pediu desculpa por coisas que disse há anos. O Podemos continua relevantíssimo, mas ninguém o imagina imparável. Não colhe a tese de que temos de nos converter ao populismo para ganhar. O maior inimigo do populismo é o tempo. Mas não podemos confiar apenas no tempo ou achar que o populismo surge inevitável em determinados contextos: o populismo tem de ser combatido diariamente. Porque o Podemos esteve quase lá.Uma corrupção entranhada Nem PSOE nem PP têm bom registo em matéria de corrupção. Mas durante a governação de Rajoy a sucessão de casos envolvendo o PP foi tal que o partido passou mais tempo a explicar-se do que a apresentar os resultados da economia. Foi um vendaval. O filão era bom demais. A cada caso, lá vinham Iglesias e Rivera falar de ética, apresentando o seu bom cadastro. O PSOE bem tentou, mas tanto vidro no telhado não ajudou. A corrupção entranhada, sistémica, é hoje mortal: expulsa os eleitores, empurrando-os para quem souber assumir a renovação, independentemente das suas ideias. Já não dá para esperar que passe. Tem de se agir depressa, e isso nem sempre é fácil, até perante o risco de judicialização da política. Um sistema político, por mais estável que seja, pode hoje ser transformado de alto a baixo por causa de um caso de corrupção. Uma má decisão judicial, uma errada avaliação administrativa, um qualquer caso que há anos passaria incólume, podem ser o gatilho de um movimento imparável, agregando o descontentamento. É bom que se tenha noção disso. Em 2011, o PP parecia destinado a governar oito anos sem problemas. Hoje, todas as figuras de 2011 estão na sombra. Uns presos, outros demitidos, outros no meio de escândalos. E nenhum partido é imune a casos destes - a diferença está na forma como se reage a eles.A reação ao independentismo O Ciudadanos nasceu na Catalunha em 2006, com um discurso contra o independentismo tão vigoroso que dirigentes nacionais do PP o elogiavam. Conseguiram dar o salto nacional em 2015, quando a questão catalã se tornou nacional graças às ameaças do governo autónomo, que preparava aventuras referendárias e provocações várias, muitas xenófobas. Para a maioria dos espanhóis, que é soberanista, o independentismo é uma ameaça ao seu mundo, ao seu modo de vida. A tibieza de Rajoy a lidar com os independentistas e de Sánchez a demarcar-se deles tornaram o Ciudadanos uma opção: ganhou as eleições na Catalunha e foi, além do soberanista Vox, o único a crescer na Andaluzia; a nível nacional, ficaram em quarto, atrás do Podemos, mas as sondagens mostram-no a crescer consistentemente. O tempo é um bom aliado. Rivera nunca precisou de ser extremista, o que é resposta aos que dizem que só os extremismos podem crescer. E percebeu que em questões políticas - o independentismo e a corrupção - as pessoas querem respostas políticas. Os bons resultados da governação não chegam para animar. É aliás visível que o novo líder do PP já percebeu isso, e ainda bem. Do que as pessoas precisam, num momento em que o seu mundo é colocado em causa, é de assertividade e de liderança política, e para isso não é preciso lunatismo. Mudança sensata era um dos slogans de Rivera. Não se deu mal com a afirmação da sensatez.A indignação com a influência dos radicais O atual governo do PSOE converteu-se numa normalização de partidos pró-ETA, de independentistas e de extrema-esquerda. Têm hoje um papel político e mediático mais central do que nunca. É impossível não esperar indignação, uma contrarresposta, não só dos moderados mas também de outros radicais que, nessa normalização, encontram legitimidade. Essa normalização começou antes de Sánchez. O Podemos conseguiu um relevo mediático ímpar desde a fundação, passeando-se pelo espaço público com uma superioridade moral inaceitável num simpatizante de ditaduras e ternurento com terroristas. O PSOE não soube o que fazer, temendo a pasokização: aproximar-se podia ser fatal, distanciar-se podia ser amuo. O PP ignorou-lhes o magnetismo, confiando que os resultados da economia bastavam. Deixaram-no a sós na arena. Foi um erro colossal. Por um lado, porque foi enganando muita gente, com o jeito manso que esconde o fanatismo. Por outro, porque o eleitorado moderado, atacado, acusado, caricaturado, por um Iglesias cada vez mais cheio de si e ofensivo, sentiu-se órfão. E quando os moderados se sentem órfãos, quando os seus partidos parecem não reagir, podem bem encontrar espaço noutros radicais. A relativização de um extremo é um erro que se paga caro, uma espécie de convite ao extremo oposto. A irrupção do Vox explica-se assim. E, sem o Ciudadanos, o Vox, que já existia, teria irrompido mais cedo.Portugal Não podemos extrapolar estes fatores diretamente para Portugal, mas eles podem ajudar a detetar tensões e movimentações, assim como podem servir de aviso ou guia de reação. Não penso que estejamos imunes a fenómenos destes. Há populismo de esquerda em Portugal, tão aceite e entranhado que há quem só esteja à espera de um gatilho para reagir. Mas sobre Portugal terei tempo de escrever noutra oportunidade.

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Crónica de Televisão

New Amsterdam: a crise na saúde

É uma inevitabilidade clínica. Por muitos cuidados que tenha com a saúde, por mais que procure fazer exercício ou manter dieta equilibrada, há um risco a que qualquer televisão está sujeita: a estreia de um novo drama passado num hospital. Resistindo a todos os esforços para a erradicar, a "série sobre médicos" continua a florescer, irrompendo em surtos pontuais, tão ou mais comuns e incontroláveis do que os surtos das suas congéneres etiológicas, a "série sobre advogados" e a "série sobre polícias".

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Margarida Balseiro Lopes

Um país em greve

Ao fim de três anos de governo é cada vez mais aplicável a máxima de que "podes enganar todos durante algum tempo e alguns sempre, mas não podes enganar todos sempre". Apesar da propaganda inicial, é claro aos olhos de todos que afinal o governo falhou aos seus compromissos e noutros casos oscilou entre a incompetência e a displicência. Quem prometeu tudo a todos vê-se agora que afinal nunca esteve em condições de cumprir.

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João Taborda da Gama

Amor elétrico

Há uma enorme fungibilidade na cama entre o homem e o saco de água quente. Tenho pensado muito nisto neste inverno que tardava, mas que mal chegou me desaconchegou. A existência de um objeto que satisfaz uma necessidade torna o antigo provedor dessa função desnecessário. E sem função, mais solto, o ludismo apodera-se do espaço deixado, qual Quim Júlio que percebe que o que atraía nele era quilojoule, e não ele em si, a sua perna, o seu cheiro, e coloca parte da sua masculinidade em casa em causa. Parte da sua masculinidade numa versão reconstruída, moderna, antropocêntrica, romântica, porque se ele pensasse na sua masculinidade enquanto tal percebia depressa que lá no âmago sempre esteve o calor. A infidelidade térmica é das mais frias que se pode cometer, precisamente porque no início o que juntou foi o quentinho. Contra este problema há estratégias várias, ignorar, atacar, argumentar. Na argumentação a melhor é a da segurança, que os sacos de água quente, dildos térmico-emocionais, são responsáveis por milhares de acidentes terríveis no mundo inteiro, pernas queimadas, famílias dilaceradas. Basta uma pesquisa rápida e não há tabloide sem sexagenária escaldada, a perna diabética, adormecida, apenas a dar o alerta quando a água do saco já tinha cozido a carne toda. Um dia acontece-me a mim, se o tsunami chegar ao meu lugar da cama. Não há lugares cativos. Aquilo que pode ser substituído deve ser substituído, há um problema de transição, um dever de apoiar e ajudar na transição, mas uma sociedade não pode manter por manter funções em que alguém pode ser substituído por uma máquina. Penso nisso sempre que passo numa portagem e entrego um cartão a uma pessoa que mo devolve com um talão. Receber dinheiro, fazer trocos, dar talões é uma função que ninguém devia ter de desempenhar, e o objetivo devia ser que ninguém tivesse de o fazer num curto espaço de tempo, ajudando na transição aqueles que isso fizeram e fazem. Mas no inverno que chega tarde mas abrupto ninguém se preocupa com transições. Uma das coisas mais fascinantes é a importância e tempo que as nossas cabeças dedicam às coisas. Por exemplo, passei mais de meia hora agora mesmo a procurar informação sobre o papel que a temperatura corporal joga na atração sexual, encontrei informação fascinante. Mas o mais fascinante de tudo foi um livro sobre a cama conjugal, conjugal leia-se partilhada - Two in a Bed: The Social System of Couple Bed, do Paul C. Rosenblatt, psicólogo americano, de 2006. Estudar, pensar, escrever sobre isto, há quem tenha vidas interessantes, mais interessantes do que a minha. Mas enquanto li sobre isso, que pouco me ajudará a mim e ao mundo, não li sobre coisas mais importantes do que isso tudo. E é essa a dúvida, por que não conseguimos estar sempre e apenas focados naquilo que interessa? Porque não somos máquinas, dirão uns. Enquanto escrevo há uma máquina a trabalhar por mim. O novo aspirador automático Roomba, no quarto lá de dentro, a limpar (não escrevas o esterco) as marcas normais de uma família com numerosas crianças, inteligente com sensores a calcular o percurso, a voltar atrás onde há mais marcas, e tudo acompanhado pela app no telemóvel, a sensação (ilusão) de controlo. Chama-se Rodolfo o aspirador, foi a Laura que escolheu o nome, nome de homem que limpa a casa, um puxa trenós do pó do chão. Quando a Laura nasceu, na primeira vez que saiu de casa fomos todos andar de elétrico com ela. Uma espécie de batismo de cidade, batismo de rua, de gente, de gentes da gente. Enquanto aquilo sacolejava pensámos que talvez quem dizia que éramos irresponsáveis tivesse razão, podia a bebé (as pessoas que alertam dizem sempre a bebé no feminino) morrer esmagada entre um o varão e um turista calmeirão, americano do Colorado, very typical the baby. Foi há 11 anos, no 28. Ontem foram 28 os feridos do 25, elétrico que descarrilou na Lapa, talvez farto de uma vida toda nos eixos.

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Maria de Belém Roseira

Maria de Belém: uma nova Lei de Bases da Saúde para quê?

O projecto de Proposta de Lei de Bases da Saúde, elaborado pela Comissão criada por despacho do ministro da Saúde, Adalberto Campos Fernandes, de 31 de Janeiro deste ano, decorreu de uma leitura constitucional global e integrada das previsões que envolvem e enquadram o direito à protecção da saúde. O projecto tem ainda em conta o modo como as jurisprudências internacional e constitucional densificam o direito à protecção da saúde enquanto direito humano na ordem internacional e enquanto direito fundamental na ordem interna.