Mário Cláudio: "A minha obra é vasta porque tenho medo de sair de casa"

Mário Cláudio está a celebrar 50 anos de vida literária e garante que nunca se confrontou com um tema que fosse tabu. Mas revela que sofre de agorafobia - medo de espaços abertos - e essa é a razão de ter escrito uma obra tão grande.

"Foi tudo muito depressa", diz o escritor Mário Cláudio no ano em que comemora 50 anos de vida literária. Uma situação que não o assusta: "Suponho que isso acontece com toda a gente a partir dos 40 anos. Passamos a ter uma passagem do tempo mais marcada pela fugacidade." Daí que afirme que "ainda ontem era um adolescente, depois um adulto, seguiu-se um sujeito de meia-idade e agora... 50 anos de trabalho".

Surpreendente é a opinião sobre o uso que dá ao Facebook: "É uma boa ferramenta para treinar os vários registos", e perguntado diretamente se veio estragar a escrita, Mário Cláudio nega: "Acho que não." No entanto, confessa que está dependente dessa rede social.

Também não aprecia a falta de cultura do presidente do PSD, Rui Rio, bem como a corrupção do poder político e do estado da justiça portuguesa, além de se opor a figuras como Boris Johnson, Trump e Bolsonaro na vida política.

Publicou recentemente o Tríptico da Salvação, cuja ação decorre no tempo de Martinho Lutero. No romance, uma das personagens assassina o seu amo para ficar com um tríptico que representa a crucifixão, a deposição e a ressurreição de Cristo - as três partes do livro - para colocar na igreja onde foi batizado. É neste cenário que surge o pintor Lucas Cranach e Lutero.

Mário Cláudio não escreveu o Tríptico da Salvação com intenção de marcar o aniversário: "Não foi pensado como isso, é uma coincidência." Já o facto de estar dividido em três grandes partes já foi propositado: "A tríade faz parte da minha vida ao longo dos anos, até porque considero que todas as vidas se podem dividir em três partes, infância, a idade adulta e a velhice."

Quando se lhe pergunta se a terceira parte, a ressurreição, alguma vez lhe aconteceu, o escritor confirma: "Pode acontecer todos os dias a cada um de nós, depende do modo como encaramos a vida. Acontece, por exemplo, quando afago um dos meus cães ou assisto ao desabrochar de uma planta dentro de casa. É um constante renascimento e morte a que assistimos - a ressurreição pode ser o início de uma vida e não necessariamente o fim."

O romance que coincide com os 50 anos de vida literária já foi saudado pelo Presidente da República, que, diz o escritor, "gosta do que escrevo". Não é a primeira vez que Marcelo Rebelo de Sousa manifesta esse entusiasmo: "Portanto, não foi uma surpresa." É evidente, acrescenta, que "foi estimulante e uma notícia que me agradou receber, não tanto por ser o Presidente mas pelo facto de ser um leitor com experiência e muitas leituras".

Durante estes 50 anos, a reação dos leitores a novos livros foi mudando muito. A publicação de um romance quando começou era tão 'banal' como é hoje?
Não era, quando publiquei o primeiro romance era muito difícil encontrar um editor. Tive sorte e o apoio de figuras consagradas da altura, Eugénio de Andrade e Jorge de Sena, que contribuíram com dois textos para as badanas. Foi difícil entrar nesta vida, depois o percurso foi sendo feito de uma forma lenta e muito compassada. Nunca fui um best-seller, embora algumas vezes tivesse estado nos topos das vendas, e ainda bem que assim foi porque os best-sellers têm por norma um tempo de duração muito limitado. Quem vive da escrita num registo de vendas um pouco inferior tem uma garantia de maior durabilidade - isso é um dado da sociologia da leitura.

"Sinceramente, dificilmente [Rui Rio] poderá ser um grande político quem não tem essa dimensão. Poderá ser um bom gestor, um excelente burocrata ou um ótimo contabilista, mas dificilmente mais do que isso."

Quando lê os autores que vendem mais não fica surpreendido?
Raramente encontro livros que me interessam nessas listas, isso é um facto, porque o que se vende hoje muito são artigos de supermercado e coisas que aparecem nas áreas de serviço. Uma literatura de grande consumo em que não me insiro, nem o pretendo, por isso é natural que haja este divórcio. Contudo, estou sempre preparado para ser surpreendido por um desses livros, e já tem acontecido que um ou outro autor tenha sido estimulante para mim e encontre nele uma grandeza insuspeitada para mim - pelo menos transitória naquele livro.

Como não falhar no rigor histórico exigido por este novo livro?
Não se trata de um romance histórico, mais o consideraria de tese e num tempo que não é o nosso. Mas poderia ser o nosso, pois ninguém considera um romance da Marguerite Yourcenar como histórico, uma autora que admiro e que muitas vezes tenho em mente como pertencente à mesma família de autores biografantes ou biógrafos em que me insiro. Houve um trabalho grande neste livro, como me é habitual, de investigação que levou a muitas leituras num período que é anterior ao início da escrita e que se pode prolongar durante ela porque há sempre dúvidas a desfazer, esclarecimentos a colher ou lacunas a preencher.

Não sendo um romance histórico, é um romance que entra na história, quanto mais não seja porque uma das personagens é Martinho Lutero, uma figura polémica...
... E muito controversa. E foi isso que justamente me interessou, mostrar as inúmeras contradições que existem naquele homem. Lutero era simultaneamente corajoso e timorato, conseguiu dar a volta ao mundo em termos ideológicos e pô-lo do avesso, teve a coragem espantosa de se opor ao mesmo tempo ao imperador e ao Papa. Mudou a face do mundo, não há qualquer dúvida, apesar de ser um simples monge lá num eleitorado recôndito da Saxónia. Além disso, era um homem progressista mas com traços de conservadorismo e até muito retrógrado, que ficou do lado dos camponeses desfavorecidos, traduziu a Bíblia para alemão de modo que toda a gente a pudesse ler em vez de ser só uma obra para clérigos. No entanto, quando houve a revolta dos camponeses, mudou de campo e pôs-se do lado dos senhores porque lhe convinha e eles defendiam os seus interesses; iconoclasta no princípio, depois, até por ser amigo do pintor Lucas Cranach, passou a admitir as imagens nos templos. Ou seja, passou a vida inteira nessas contradições.

Algum dos papas com quem tem convivido ao longo da vida lhe inspirará um romance?
De certeza que não, porque já não vou ter tempo para isso e também porque são figuras que não me inspiram muita curiosidade. Claro que quero saber como as coisas vão evoluindo em termos de pensamento da Igreja, mas a verdade é que é tão lento que é preferível nem se acompanhar.

Enquanto narrador vai sendo surpreendido pela vontade das personagens ou é daqueles capazes de as dominar?
São as personagens que controlam a ação, disso não tenho dúvidas. Já tenho experiência bastante para dizer que não sou eu quem escreve os livros, mas sim as personagens. Tenho sempre um plano inicial, um esqueleto que procuro cumprir, no entanto há uma espécie de vontade autónoma de cada uma das personagens que as faz enveredar por caminhos completamente diferentes e, muitas vezes, opondo-se àqueles que eu queria trilhar. Antes de eu lhes dar vida, é como se elas estivessem vivas.

Este romance exige conhecimentos que, creio, não teria antes na sua totalidade. É o caso das técnicas de pintura...
Senti-me sempre muito atraído pelas artes visuais de uma maneira geral e, sobretudo, pela pintura antiga, contudo a verdade é que tive de fazer alguma investigação nessa área. Designadamente, em termos dos materiais que se usavam, como os pigmentos que variavam muito de lugar para lugar e de época para época. Houve um esforço de investigação que fui fazendo conforme podia, mas há outros dados que são pequenas minudências, por exemplo, quando me debatia com o tamanho dos quadros que não obedeciam ao sistema métrico mas à polegada, as medidas medievais. Foi preciso acertar muitos pormenores para não saírem disparates.

"Estou dependente do Facebook neste momento. Já fiz várias tentativas de saída, por esta ou por aquela razão, e tenho muita dificuldade em manter-me de fora mais do que um certo tempo."

Os leitores ligam a essas minudências?
Espero que sim e sei que os meus leitores ligam. Também sei que isso não interessa a todos, e aí está como um autor pode e deve escolher os seus leitores. Eu insisto em escolher os meus.

Sente-se reconhecido por esses leitores ao fim de 50 anos?
Tenho tido provas de afeto, de boa receção, de solidariedade e mesmo de entusiasmo da parte de muitos leitores, pessoas que nem conheço e que através das redes sociais ou num ou noutro encontro na rua exprimem o seu apreço.

Tenho-o visto no Facebook. É uma nova linguagem para si e que quer manter?
O Facebook é uma máquina perversa que tem um lado bom e um lado mau. Em termos de linguagem, dei-me conta de que exige lá uma completamente diferente da que utilizo nos outros textos, mas é uma boa ferramenta para treinar os vários registos. Há autores que dizem que escrever no Facebook estraga a escrita que pretendem levar a cabo, mas acho é que têm uma relação difícil e pouco saudável com o Facebook, que é a meu ver uma extensão da própria escrita. Eu não vejo isso como tal, antes uma espécie de paleta em que posso experimentar as cores da minha escrita e depois optar por esta ou por aquela que me parecer melhor.

O Facebook não estraga a escrita?
Acho que não.

A interação com a internet é para si uma prática normal ou ainda prefere uma enciclopédia?
É mais fácil e rápido hoje encontrar na internet determinadas informações do que andar à procura num livro. Basta ver ao nível mais primário, o do próprio acesso ao dicionário no telemóvel. Essa consulta é feita com maior rapidez do que com o acesso a vários dicionários clássicos em livro - há aí muitas vantagens. A grande desvantagem das redes sociais - não do uso da internet - é a viciação que cria. Não tenho dúvida, e digo-o frontalmente, de que estou dependente do Facebook neste momento. Já fiz várias tentativas de saída, por esta ou por aquela razão, e tenho muita dificuldade em manter-me de fora mais do que um certo tempo.

Não consegue controlar essa dependência?
Não consigo controlá-la porque acabo sempre a apostar numa dimensão do diálogo interpessoal com pessoas que nem sequer conheço, os chamados amigos do Facebook, que me fazem falta. Então, mantenho esse diálogo por um tempo mais longo. E também acontece haver um conteúdo qualquer ou alguma ideia que me ocorre e me apetece partilhar de imediato, e a única maneira de o fazer é através do Facebook. Mas só estou nesta rede, não nas outras.

Acaba por ser uma correspondência quase à antiga só que mais imediata?
Imediata sim, mas uma correspondência que se evapora rapidamente e não deixa rasto. Neste momento as redes sociais estão a liquidar vários géneros literários, como a diarística que foi substituída pelos blogues e a epistolar pelas mensagens. Tudo isso desapareceu sem deixar rasto. É o fim de alguma escrita mais intimista que se perde nas redes, porque é tudo levado pelo vento.

A tecnologia que domina neste novo milénio alterou a sua escrita?
Creio que não, porque há dois processos independentes: o da minha escrita fora das redes e a delas. Embora acredite que posso afinar a minha escrita normal, a extraeletrónica, através das experiências que vou tendo com a escrita no computador.

E a lusofonia, que influência tem em si e aonde levará a literatura?
Essa é uma questão muito antiga, pois fazemos parte de mundos muito diferentes ligados por uma língua comum e que, segundo alguns mais pessimistas, está condenada a desaparecer, como é o caso do português. Se isso vai ou não acontecer, não tenho meios para saber, mas a verdade é que há uma contaminação recíproca que pode ser saudável ou não. Veja-se a quantidade de vocábulos brasileiros que entraram no nosso léxico e que hoje já não conseguimos dispensar, como determinado tipo de fraseado e de formulação das frases. Por exemplo, o "será que ele virá?" Dantes não existia, e perguntava-se simplesmente "ele virá?" "ou ele vem?". Agora adota-se essa quase redundância para fazer tais perguntas - é uma importação do Brasil.

Como o português que Aquilino Ribeiro utilizava e os portugueses já não compreendiam na altura?
Já no tempo do Aquilino o seu português era para meia dúzia. Lembro-me de ouvir dizer que ele escrevia para o dicionário da Academia; eu não creio que isso fosse verdade e tenho uma enorme admiração por ele. Também penso nele quando me dizem que precisam de um dicionário para ler os meus livros! É uma figura inultrapassável na nossa história literária, situação que também se verifica em Guimarães Rosa, que é um autor tão mais difícil, e já não falo no James Joyce, que é intraduzível. Há um grupo de autores que não fazem isso propositadamente, antes veem a língua como uma área de grande plasticidade e querem utilizá-la em todas as suas valências. Essa é uma atitude defensável e que pode ou não agradar a A ou a B, mas também não me agrada a redução da língua a meia dúzia de vocábulos que se repetem constantemente, ou essa escrita no osso ou a neutra em que a adjetivação desaparece. Não me interessa essa questão porque gosto de uma escrita opinativa e a forma de tomarmos posição perante o mundo é justamente através do adjetivo. Dizermos "era uma mulher" em vez de "era uma mulher bonita" é completamente diferente.

Mesmo quando usa a palavra crucifixão em vez de crucificação?
Está mais próximo do latim, mas acho crucificação uma palavra muito feia e a outra foi muito utilizada, e acho que se pode apostar nela como estando ainda atual.

Tem vindo a explorar a sensualidade em vez da sexualidade. Porquê o faz?
Aqui está outra vez a relevância do adjetivo, pois este sensualiza as situações e é através dele que sensualizamos a vida. Eu sou um escritor dos cinco sentidos e acho que todos são importantes. Penso muito com os sentidos, não só com o cérebro, desligado dos sentidos. Não sou um racionalista radical, portanto a sensualidade e a sensorialidade são valores muito presentes no que escrevo.

Faz-nos lembrar de vez em quando Lolita de Nabokov...
Lolita, como todos os livros de Nabokov, é um grande romance, inesquecível e uma história que suscita vários problemas em sede das relações humanas e da fenomenologia do amor. É de preservar, sobretudo numa época em que se discute tanto a pedofilia e comportamentos anómalos em termos de diferenças de idade. Isso torna-o um romance fundamental.

São temas quase proibidos de falar atualmente, mas faz questão de os abordar em alguns dos seus últimos livros. Simples irreverência?
Não, são temas trepidantes. Não tenho dúvida sobre isso e em O Fotógrafo e a Rapariga havia uma sombra de pedofilia. Creio que não existem temas proibidos e que se pode abordar tudo. O que deve ser proibido é transformar em fantasmas situações que nada têm de fantasmáticas e que devem ser analisadas de uma forma objetiva para nos sabermos defender delas. Quando as pessoas tomam esses comportamentos que são claramente muito agressivos, a pedofilia é agressiva sem dúvida, e se toma isso como algo de que não se pode falar, o que estão é a recusar tratar o tema de maneira a poupar as crianças a esse perigo. Mas há outras situações em que isso acontece, daí para mim não haver temas tabus. A literatura lida com todos os temas e às vezes os temas tabu são os mais interessantes na literatura.

Ao fim de 50 anos de vida literária já existem temas cujo tratamento a idade já facilita?
Sem dúvida! A partir de uma certa idade ficamos muito imunes à opinião dos outros e do que possam dizer sobre o que somos, os valores que temos ou não. A partir de certa idade é completamente indiferente, porque o envelhecimento significa uma libertação - também uma prisão em termos de limitações físicas -, no entanto deve significar uma libertação mental para pessoas que gostam de pensar independentemente do que pensam os outros. Pelo menos, a independência possível à que os outros praticam.

Já se confrontou com um tema proibido?
Proibido não, mas há um tema que gostaria muito de ter abordado e nunca o fiz porque me diz diretamente respeito: a agorafobia. Explico: tenho uma obra grande que resulta de uma circunstância muito limitadora da minha vida e que me tem acompanhado sempre, que é o medo de sair de casa e de espaços abertos. É uma patologia, cada vez mais propiciada pelo ritmo de vida atual nas cidades. Com altos e baixos, tenho sofrido disso desde os meus 30 e poucos anos, e devo à agorafobia a extensão da minha obra e uma prática de escrita muito mais intensa do que aquela que têm as pessoas com a liberdade de sair. Eu saio mas acompanhado, sozinho raramente me podem ver. Gostaria muito de ter abordado esse tema, mas nunca o fiz nem nunca falei dele publicamente até hoje. É a primeira vez que o estou a fazer. Esse seria o grande tema que gostaria de abordar e, mais do que um ajuste de contas comigo, seria também uma maneira de ajudar as pessoas que em número cada vez mais crescente enfrentam essa situação limitadora.

Uma grande parte da sua obra é voltada para a biografia. É uma opção literária ou é porque lhe é mais fácil?
Gosto muito de frequentar os outros em vários sentidos e ver como são feitos por dentro. A verdade é que cada um de nós é uma ficção e não uma realidade, daí interessar-me a descoberta dessa ficção naquilo que parece ser real. Todos nós somos um outro além daquele que aparentamos e essa condição humana e viagem pelos outros é muito provocadora. Para mim é muito importante, principalmente quando são outros que admiro por alguma razão, como a de terem que ver com o mundo das artes, como já abordei na minha obra, porque me atraíram não como biografado - pois não faço biografia - mas uma ficção de personagens num registo que apenas respeita a sua cronologia de vida, a sua imagem física e pouco mais. Gosto é da leitura do que está lá dentro e do que não se vê ao primeiro olhar.

Hoje temos uma vida política pouco ortodoxa. Como assiste à situação nacional?
Com duas reações: preocupação e até alguma mágoa e, por outro lado, com pasmo. E não é só em Portugal, pois vemos serem eleitas para lugares de grande responsabilidade figuras que são autênticos clowns, como recentemente aconteceu no Reino Unido, como já tinha acontecido nos Estados Unidos e no Brasil. Além disso, vemos pessoas a ter comportamentos criminosos na área económica, muita corrupção e crimes inacreditáveis, por isso a minha reação só pode ser de espanto e mágoa. Questiono-me como é que isto vai acabar e se vai acabar. E não é só no poder político, também em tudo o que vai atrelado, como no poder judicial. Situações que me surpreendem, intrigam e permitem alimentar todo o tipo de teorias da conspiração. Se tivesse descendentes ficaria muito preocupado.

Quem vive a norte do país critica a falta de representação política em Lisboa. Como vê a prestação de Rui Rio à frente do PSD?
É uma pessoa que admiro pela sua retidão na área política, mas que me merece várias reservas no que respeita à sua formação humanística. Porque é um homem pouco cultivado e mal informado em termos de artes e de letras. Sinceramente, dificilmente poderá ser um grande político quem não tem essa dimensão. Poderá ser um bom gestor, um excelente burocrata ou um ótimo contabilista, mas dificilmente mais do que isso. E nós precisamos de vozes que se ouçam em termos civilizacionais e não de um gabinete de finanças.

O que vai ficar da sua obra literária?
Provavelmente muito pouco, mas não me preocupo com isso. Todas as obras desaparecem a curto ou a longo prazo e acompanhei muitos autores, sobretudo portugueses, que foram famosos e hoje estão completamente esquecidos. Recentemente estive a ver a lista do Prémio Goncourt nos últimos 40 anos e praticamente nenhum nome ficou, todos passaram à história. Havia um de quem era amigo e que mantivemos correspondência, Michel Lott, bem como o caso de Yves Navarre, que na altura foram saudados como extraordinariamente talentosos, que iriam bloquear a história da literatura francesa contemporânea durante décadas, no entanto, a verdade é que não ficaram e desapareceram. Mesmo a nível do Prémio Nobel, a sobrevivência do escritor e da obra é sempre muito problemática.

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