Premium Jorge Silva Melo: "A mesa está posta, façam o favor de comer"

Faz hoje 70 anos e prepara um livro com o título A Mesa Está Posta. Jorge Silva Melo diz que já fez a maior parte do seu trabalho. Mas a quantidade de projetos desmente esse anúncio de fim.

A conversa decorreu na área de entrada do Teatro da Politécnica, com a sala de ensaios a funcionar. De vez em quando, alguém saía e voltava a entrar. Jorge estava dividido entre a conversa e a necessidade de ir para o ensaio, mas quis contar o que está a fazer e as dificuldades de um ano que foi o pior de que se lembra.

Lá dentro, os atores preparavam a peça O Vento num Violino, do argentino Claudio Tolcachir, com estreia marcada para 5 de setembro e que ficará até 13 de outubro ali no pequeno teatro. É uma peça "cómica, dramática, inquietante, calorosa", segundo o encenador, que, como sempre, já tem pronto o livrinho com o texto integral.

O autor deparou-se com a crise da Argentina, quando era preciso inventar uma nova maneira de fazer teatro. Claudio Tolcachir, nascido em 1975, inventou. "Fez a peça A Omissão da Família Coleman que era representada na sua própria casa, com a sua avó, a sua mãe... Aquilo encheu a casa, que era grande, depois passou a teatro, fez o CCB, a Schaubühne [Berlim], foi um êxito no mundo inteiro."

Personagens à procura de amor

Criou então a companhia Timbre 4 e escreveu esta peça que é interpretada por Andreia Bento, Isabel Muñoz Cardoso, Margarida Correia, Pedro Baptista, Pedro Carraca e Sara Inês Gigante, pela primeira vez sem ser pela companhia de Tolcachir. Na síntese de Jorge Silva Melo: "É uma peça muito curiosa sobre amores. Duas mães que protegem absolutamente os seus filhos, duas raparigas que se amam e querem ter uma criança. Fazem um ato condenável - violam um rapaz, com uma faca apontada - mas acabam todos felizes: as duas avós e as duas mães ficam radiantes com o bebé, o pai também."

Em suma, "sentimos que todas as personagens estão à procura de amor, dentro desta sociedade moderna em que o amor tem formas que não eram previstas antes, e tudo com uma franqueza total e maravilhosa. A peça é cristã, de certa maneira: o bebé reconcilia toda a gente, como o Menino Jesus no Natal, até vou usar A Minha História do Chico Buarque, baseada no Gesù Bambino do Lucio Dalla".

Do mesmo autor, Jorge Silva Melo quer encenar no final de 2019 a peça Emilia e quer dar a Lia Gama o grande papel que foi feito recentemente no Piccolo Teatro de Milão pela grande Giulia Lazzarini, a atriz favorita do encenador que o fundou, Giorgio Strehler.

Mas muito antes disso, já em outubro próximo, os Artistas Unidos vão estrear em Viseu a peça Do Alto da Ponte, de Arthur Miller, com um elenco de 17 atores, e que há de ter mais de 50 representações por todo o país, incluindo no Teatro São Luiz, em Lisboa. Mas não foi fácil concretizar estas duas produções porque, explica Silva Melo, "esta foi a temporada mais difícil de preparar de que me lembro". Neste momento só conta com um técnico e teve vários atores que acabaram por optar por outros trabalhos, dado o enorme atraso no processo do financiamento da Direção-Geral das Artes. "Eles foram saindo, saindo, perdemos 20 pessoas. E arranjar outros? Começámos em junho a tentar arranjar, mas como?"

Não pode ser só o Centeno a mandar nisto

Para o próximo ano, o diretor artístico dos Artistas Unidos teme que volte a haver atraso, porque só serão conhecidas as prestações em janeiro. "Quando li isso fiquei em pânico mas já não podia não assinar. Imagine que a primeira prestação cai em junho como neste ano. Eu não quero estar a dizer às pessoas não te pago agora, espera. Isto é louco, porque eles dizem que o apoio é sustentado e quadrienal. Quadrienal o tanas, só cobre três anos e meio. E sustentado não estou a ver como. Não pode ser só o Centeno a mandar nisto. No Ministério da Cultura tem de haver dinamismo. Nós pagamos muito pouco, 1200 euros. É evidente que um ator que tem uma telenovela onde ganha seis ou sete mil euros prefere a telenovela. Há uns que preferiam trabalhar connosco mas não lhes posso garantir nada.

E confessa: "Não posso continuar a viver assim anos a fio. É um desprezo completo. Espero que agora o Miguel Lobo Antunes e o seu grupo de trabalho venham pôr um bocadinho de ordem neste processo que é sinistro e que o Miguel Honrado só complicou, mais do que simplificou. Foi um ano catastrófico e vamos sentir as consequências em 2019 e 2020."

Arthur Miller, a imigração e a denúncia

Do Alto da Ponte, diz Jorge, coloca questões muito atuais. "Fala da imigração, dos clandestinos e da denúncia, o grande tema do Arthur Miller. A peça acaba com o protagonista a denunciar um jovem operário clandestino. Podemos ou não denunciar? É possível perdoar um denunciante? Temos de aceitar as razões daquele que denuncia? Os Artistas Unidos voltarão a Arthur Miller para A Morte de Um Caixeiro Viajante, mas só no final de 2020.

Depois de O Vento num Violino, o Teatro da Politécnica vai estrear a 31 de outubro Retrato de Uma Mulher Árabe Que Está a Olhar o Mar, de Davide Carnivali, "uma peça muito estranha sobre as relações sexuais óbvias entre a Europa e o orientalismo que o [Edward] Saïd bem descreveu. A Europa quer as raparigas árabes, as odaliscas, deseja-as com apetite sexual. Isso é possível? Não é possível? Como é que o árabe responde a isso?

E, finalmente, como está Jorge Silva Melo a viver os 70 anos? "Parece que foi ontem. Já me sinto mais cansado, o tabaco tem ajudado a envelhecer, mas é agradável fazer uma certa idade. Vai sair um livro com a recolha de quase todos os meus artigos sobre teatro e que é uma despedida. Chama-se A Mesa Está Posta, no sentido de que já acabei a maior parte do meu trabalho. A mesa está posta, agora façam o favor de comer.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.