Conceição Monteiro, antiga secretária de Sá Carneiro: "Nada farei para que Santana desista"

"Andámos sempre juntos em todas as batalhas. É com desgosto, não nego, que o vejo sair do partido." Conceição Monteiro, antiga secretária de Sá Carneiro, não esconde a mágoa por ver o "amigo" bater com a porta ao PSD.

Com 84 anos, e "sempre ao serviço do partido", Conceição Monteiro diz ao DN que "é com honra e prazer que esteve sempre ao lado de Santana". A antiga secretária de Sá Carneiro foi uma das duas pessoas com quem o antigo líder social-democrata falou antes de anunciar publicamente que vai ajudar a fundar uma nova força política.

"Para mim é um enorme desgosto. É um filho muito querido e o partido é o meu filho mais velho também", diz Conceição Monteiro. Mas acrescenta: "Nada farei para que Santana desista!" Diz compreender as razões que o levam a bater a porta "ao PPD/PSD", depois de "anos a ser maltratado" dentro de portas. "Sofri muito ao lado dele", afirma.

Conceição Monteiro, que não foi apenas a secretária de Sá Carneiro mas também sua amiga e confidente, garante: "O Pedro sabe muito bem o que quer e para onde vai." Lembra que o recém-opositor de Rui Rio ainda tem 62 anos e futuro político. "Tem ainda muito tempo para fazer muita coisa."

Sempre o acompanhou, mas agora não o vai fazer. Não consegue quebrar os laços com o "filho mais velho", mas vai manter-se sempre próxima do "mais novo".

Volta a insistir que o PPD/PSD tratou mal, vezes demais, Pedro Santana Lopes. "Ouviam-no sempre com muito entusiasmo, mas depois nunca faziam o que ele defendia", argumenta. Dá o exemplo mais recente ao recordar que, depois de ter defrontado Rui Rio nas diretas do partido e ter perdido, aceitou encabeçar a lista juntamente com o novo líder do PSD ao Conselho Nacional. "Nunca mais ninguém quis saber dele, nem do excelente programa com que se apresentou às eleições. Nenhuma das pessoas que esteve com ele foi chamada a participar na vida do partido." E remata: "Soube-lhes bem no congresso a atitude do Pedro, teve o apoio dos seus acompanhantes, mas depois foi tudo letra morta."

"Ouviam-no sempre com muito entusiasmo, mas depois nunca faziam o que ele defendia"

Recorda que já passou por uma situação dolorosa no partido quando em 1977 Sá Carneiro decidiu entregar o cartão do partido para se desvincular da liderança. "Foi uma situação muito diferente desta, mas também foi difícil na altura", diz.

Agora numa barricada diferente da de Santana, Conceição Monteiro não tem dúvidas: "Ele é o meu grande companheiro de luta. Continuaremos a ser amigos e a conversar." Não quer revelar muito do que falou com ele sobre a saída do PSD, mas quer deixar claro que "não é nada fácil para ele". Nunca a desafiou a acompanhá-lo nesta aventura. "Nunca faria isso, sabia que não era possível."

Conceição Monteiro esteve com Sá Carneiro de 1974 a 1980, ano da morte do antigo primeiro-ministro. Depois de 4 de dezembro de 1980 - data em que o Cessna onde viajava Francisco Sá Carneiro, Snu Abecassis e Adelino Amaro da Costa caiu em Camarate -, Conceição continuou a trabalhar como funcionária do PSD, tendo ocupado as funções de chefe de gabinete do grupo parlamentar entre 1981 e 1983.

Aníbal Cavaco Silva, que ela conhecera no governo AD como ministro das Finanças, ganhou a liderança do partido, em 1985, convidou-a para trabalhar com ele. Na primeira maioria absoluta de Cavaco, em 1987, Conceição Monteiro foi eleita deputada por Lisboa, mantendo-se na bancada social-democrata até 1995.

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