João Monge: "O meu desejo é que Timor nunca tivesse sido um hino"

São de João Monge muitas das palavras de quem canta em português. Aos 10 anos percebeu que nunca seria músico e pouco depois começou a escrever "versinhos em guardanapos".

Mariana Pereira
João Monge em sua casa, com vista para a Lisnave, que inspirou todas as letras de Rio Grande.© Paulo Spranger / Global Imagens

Quem canta em português deve-lhe os Loucos de Lisboa, Timor, Aerograma e tantas letras dos Trovante ou da Ala dos Namorados. Tal como lhe deve a Lambreta, cantada por António Zambujo, a convencer-nos a deixar de pensar no tal Vilela, letras de modas alentejanas como a do Meu Chapéu, cantada pelo Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento, e de tantos fados ouvidos na voz de Camané, Aldina Duarte ou Hélder Moutinho.

João Monge tem 61 anos. É professor de Educação Visual no 2.º ciclo. Escrever é outra coisa, é como ter fome e comer, haveria de dizer no fim da conversa. Encontramo-lo em Almada, terra provável para quem vem de uma família alentejana. Foi de uma da janela ali perto que olhou, numa de tantas vezes, para os operários da Lisnave e decidiu escrever as letras de Rio Grande. "Querida mãe, querido pai. Então que tal?" são versos com gente dentro, como todos os outros que escreveu, espera.

É alentejano ou filho de alentejanos?

Filho, neto, sobrinho. Nasci por acaso em Lisboa.

Os seus pais estavam cá há muito tempo?

Sim. Os meus pais são de certa forma protagonistas do Rio Grande [projeto com Rui Veloso, Tim, João Gil, Jorge Palma e Vitorino]. Casaram e vieram para cá, para fugir do campo.

Tem muitas memórias de infância no Alentejo?

Sim. São memórias muito fortes. Isto é sempre uma coisa estranha, a saudade é assim uma espécie de memória sem arestas, não é? Lembramo-nos de qualquer coisa, se aquilo tem arestas a gente lima e arredonda, para sobrevivermos. A memória que tenho de infância: uma grande liberdade. Não havia medos, na aldeia [em Vila Verde de Ficalho] não há medos, não há pessoas más, ninguém me assaltava, ninguém me raptava. Aliás, eram verbos que nem se utilizavam. E fazia aquelas coisas que, quem não teve esse privilégio, não passou por isso, terá passado por outras coisas... Quem nunca albardou um burro, nunca foi dar de beber água a um burro, e nunca foi para o campo montado num burro, pode andar muito de carro, mas não sabe o que é andar de burro.

O que é? Nunca andei.

Não é nada de especial. Mas se o burro for do nosso avô e ele for a pé à nossa frente com o burro à arreata, é uma coisa que a gente não esquece para o resto da vida.

É na zona da Avenida de Roma que conhece o João Gil. Ele diz que o João estava a tocar George Harrison na guitarra. Lembra-se?

Disso não me lembro. Foi lá que conheci grande parte dos amigos que ainda são grandes amigos hoje. A malta parava toda no café, na pastelaria Madrid. Aquilo era um bando grande.

Que afinidade descobriu com o Gil e o resto do bando?

Não é uma coisa que se descubra, é uma coisa que se constrói. Nós éramos amigos e ele fez lá o grupo, Trovante. E eu, apesar de estudar música, sempre interiorizei que não seria músico.

Porquê?

Então, porque há pessoas que cozinham e que não são cozinheiros. É da natureza da vida, é assim.

Quando é que percebeu isso?

Logo quando comecei a estudar, com 10, 11 anos. Tive logo essa perceção: eu para um palco não vou. Mas fazia versinhos em guardanapos desde puto.

Falavam de quê?

Palermices da adolescência, aqueles amores, o sonho com o mundo perfeito.

E não fazia nada com aquilo?

Não. É um impulso. Às vezes as pessoas interrogam-me sobre o meu comportamento como se fosse muito esotérico.

Aquela coisa romântica de comprar um Moleskine e de escrever com caneta de tinta permanente comigo é mentira.

Que comportamento?

Sei lá: como é que um puto de 15 ou 16 anos vai para o Café Roma ler o Diário de Lisboa e fazer versos? É normal. Há quem vá para lá fazer sudoku. É a mesma coisa, a única diferença é o foco mental.

Então aquilo não vinha por tentativas?

Não, vinha por impulso. E nunca tive a angústia do papel em branco, ou do ecrã vazio. Eu quero lá saber se sai ou não sai. Eu agora só escrevo em computador. Aquela coisa romântica de comprar um Moleskine e de escrever com caneta de tinta permanente comigo é mentira.

E quando tem encomendas?

No sentido estrito da palavra não tenho encomendas, tenho propostas, projetos que por vezes partem da minha iniciativa. Quem gosta de trabalhar comigo sabe como é que é o meu ritmo de trabalho, é um ritmo sem compromisso. Se me disserem: "Monge, preciso que me escrevas um disco para setembro." Eu digo: "OK, setembro de 2025, tudo o que vier antes é ganho."

Quando lhe fazem uma proposta dessas definem o tom do disco em conjunto?

Às vezes não. Às vezes dão-me liberdade total. Também se não me derem eu não trabalho, que nós já passámos 48 anos sem liberdade. Mas prezo muito o trabalho. Por exemplo, o Hélder Moutinho [escreveu Manual do Coração] disse-me que gostava que eu lhe escrevesse um disco inteiro.

Ele diz-lhe uma coisa dessas e depois?

E eu gosto muito do Hélder.

Isso é importante?

É, porque se eu não gostasse não escrevia. Quando eu escrevo para ele foco-me naquele ser humano, naquela voz. Mas aquilo poderia ser cantado por outra pessoa? Eu agora reproduzo-lhe um anúncio que dá na televisão: podia, mas não era a mesma coisa. Porque se fosse para essa outra pessoa eu provavelmente teria escrito outra coisa qualquer.

Como é que se escreve para uma voz?

Isso não sei. Eu não sei os truques do meu ofício. Nunca perdi muito tempo a pensar neles. Basicamente há assim um chavão: uma canção é uma coisa que demora três minutos e durante três minutos aquilo tem de ser verdade, doa a quem doer. Pode acontecer que a mesma canção numa outra voz, que pode ser igualmente fabulosa, seja mentira.

Se não gostarem é porque provavelmente aquilo é mesmo uma trampa. Eu não escrevo para mim.

Como é que distingue os seus poemas das suas letras?

De vez em quando saem-me assim umas hóstias que, se eu puser alguém a cantar aquilo, ninguém percebe patavina, porque não é para ser cantado. Isto quer dizer o quê? Que há ali uma fronteira? Não. Há grandes poemas da literatura que viraram grandes letras de canções, e toda a gente consegue trautear aquilo. Portanto, há zonas de confluência. E provavelmente haverá letras de canções que as pessoas poderão ter prazer em ler, sem ouvir a canção. Eu sou desses. Tenho livros de letras, do [Carlos] Tê, do Boris Vian, do Chico [Buarque], do Vinicius, vou à net buscar letras do Aldir Blanc.

Espera que façam isso consigo também?

A falsa humildade deve ser a maior vaidade do mundo. Se eu puser uma letra no Facebook e verificar que há muita gente que gosta, é evidente que fico feliz. Quem é que não fica feliz com uma coisa dessas? Acho que faz parte da natureza humana ficarmos felizes com o trabalho que se realiza. Seja uma letra, uma aula que se deu, uma história que se conta num copo com amigos. Se não gostarem é porque provavelmente aquilo é mesmo uma trampa. Eu não escrevo para mim.

Tem uma vida paralela de professor de Educação Visual. Era um plano B para a vida?

Não, não. Foi mesmo o plano A.

Porquê?

Porque fui fascinado por professores, tive alguns que me fascinaram. Quando comecei a dar aulas pensava: como é que ele se desenrascava perante esta situação?

Há algum em particular?

Há, chamava-se José Pedro Machado. Foi meu professor de Português, autor de dicionários etimológicos. Aquilo já não eram bem aulas, era uma cena do outro mundo.

Que idade é que o João tinha?

17, 18 anos.

Ele falava de quê?

O problema era esse: falava de tudo, era um sábio. Ele era tão bom que se uma turma do meu curso não tinha aulas e o José Pedro Machado estava a dar uma aula, a malta ia bater à porta a perguntar se podia assistir. Então na parede do fundo estavam 30 gajos em silêncio a assistir aquilo. Ele tinha qualquer coisa. Pôs-me a ler, pôs-me a escrever. Com ele tudo se tornou sério, importante, definitivo. Pôs-me nas bibliotecas, a estudar, a fazer trabalhos de 50 páginas à mão.

Como é que conjuga as duas atividades?

Não sei. A minha atividade fica no portão da escola. Durante muitos anos não sabiam na escola.

Além de tudo isto ainda fez publicidade, letras para anúncios da TMN, Pepsi, Armazéns do Chiado...

Sim. Naquela altura faziam-se muitos jingles publicitários. Era uma coisa que me dava um prazer muito grande, porque eu recebia briefings de três A4 e depois tinha 12 segundos para pôr aquilo. Era um desafio e era o contrário daquilo que eu faço: era trabalhar sob uma pressão incrível.

Há grupos que o João acompanhou de forma muito próxima, Trovante, Rio Grande, Ala dos Namorados. Como é vê-los no palco?

Agora estou habituado. É uma sensação estranha, porque às vezes sou o mais feliz da sala, e às vezes sou o mais nervoso.

Sou o gajo que está de braços cruzados na plateia a fazer figas.

Não há uma sensação de estar a faltar à festa?

Por não estar no palco? Não. Eu nem sequer quero estar ao pé dos VIP nem nada. Peço sempre os meus convites no meio do povo, lá para trás. Agora já começo a ser conhecido, mas era giro estar a meio da sala no CCB e ouvir bocas do lado e de trás em relação às letras, porque não me conheciam. Isso era tão bom. Se eu agora for para a frente, para o pé dos VIP, toda a gente gosta, mesmo que aquilo seja uma porcaria: "Ah Monge, parabéns!" Não faço ideia do que é estar em palco. Sou o gajo que está de braços cruzados na plateia a fazer figas.

Gostava de voltar à sua afinidade com o João Gil, com quem fez tantas canções juntos, dos Trovante ao Baile Popular e depois disso.

Nós temos uma coisa em comum: temos várias cabeças dentro da cabeça. Há um gajo que é meio maluco e se lhe apetece escreve um disco de modas, depois um disco pop, e dali a um ano um disco de fado. Esse maluco sou eu. O Gil tem uma cabeça muito parecida com a minha. Trabalho com muita gente, mas é o único compositor que é completamente imprevisível, da mesma maneira que eu sou imprevisível. O meu ponto de encontro com o Gil tem muita tralha.

A saudade não é olhar para trás. É a gente andar com o que veio de trás debaixo do braço e andar para a frente.

É tralha feita de quê?

Da vida de cada um. O que me move muito é a saudade. Deve ser o maior motor, a chave de ignição é mesmo a saudade.

Olhar para trás?

Não. A saudade não é olhar para trás. É a gente andar com o que veio de trás debaixo do braço e andar para a frente. Eu escrevi para o Hélder e qualquer dia vou ter saudades de escrever fados. Eu sei. E quando me der a saudade eu sento-me e escrevo um disco de fados. Enquanto não me der, não me sai nenhum.

Pode contar a história por detrás de Loucos de Lisboa?

Era um doente mental do Júlio de Matos que andava na Avenida de Roma e que era nosso amigo. Parava naquele café onde parava o tal bando. Sentava-se na nossa mesa e cravava bicas, cravava beijinhos às meninas.

Escreveu muitas canções assim, com pessoas dentro?

Eu espero que sim, que as minhas canções tenham sempre pessoas lá dentro. Senão não servem para nada.

Quando escreveu Timor não fazia ideia de que se poderia tornar um hino?

Não. Aquilo nasceu como música para um filme da Margarida Gil [Flores Amargas]. Depois do filme o Gil disse-me: "Olha lá, não queres fazer uma letra para isto?" Ah pois quero.

Como se relacionava com o que se estava a passar com Timor na altura?

Com uma grande indignação. O facto de o Papa [João Paulo II] na altura se ter negado a beijar o chão de Díli, porque já tinha beijado o chão de Jacarta, foi a mola para eu escrever a letra. "Lavam-se os olhos, nega-se o beijo." É isso. Dedicado ao santo padre que se esqueceu de beijar o chão de Díli. Esqueceu-se, coitado. É assim. Isso indignou-me profundamente, ainda mais num povo extremamente católico. A canção foi feita antes do massacre de Santa Cruz e aquilo era apenas mais uma canção dos Trovante. Era só uma canção. Depois do massacre transforma-se num hino pelas piores razões. O meu desejo é que aquilo nunca tivesse sido um hino, que Timor tivesse sido independente para aquilo não ser nenhum hino. Era a canção que estava disponível para falar de uma situação muito concreta. E o povo pegou naquilo e foi para a rua cantar, pelos maus motivos.

Vejo um monte de operários e deu-me um vaipe: vou escrever a história da vida daquele gajo.

Quer contar como nasceram as letras de Rio Grande aqui em Almada, a olhar para a Lisnave?

Eu vivia naquele prédio [aponta para a Avenida 25 de Abril], o mais alto de todos, no 14.º andar. Estava alinhado com a Lisnave, com a doca 13. Aquilo era a minha peça de teatro. Vi tudo aquilo. Acompanhei o tempo das bandeiras negras, o desmantelamento, o toque para a saída ouvia-se em minha casa. Com muita frequência acompanhava o trabalho dos operários nos barcos, fascinava-me a dureza daquele trabalho. Quando eles decapavam o interior dos navios, o barulho ouvia-se em minha casa. Imaginava aquela malta dentro de um navio, deve ser um inferno. Um dia, foi mesmo um impulso, eu estava à janela, toca a sirene da saída, vejo um monte de operários a encaminhar-se para os barcos, para beber um copinho, ou para apanhar as camionetas, e deu-me um vaipe: vou escrever a história da vida daquele gajo que vai ali. Apontei para um qualquer. E escrevi aquela coisa, que tem componentes pessoais muito fortes. Parte substancial da minha família também ficou pela Margem Sul. Os que tiveram mais sorte na vida conseguiram atravessar o Tejo, é o caso do meu pai. E apeteceu-me escrever sobre aquilo.

Não foi um exercício de imaginação pura. Conhecia muita gente assim.

Sim. E há algumas letras do Rio Grande que são histórias verdadeiras em verso, a rimar. Aquilo passou-se mesmo. Os casamentos eram mesmo assim,
O Dia do Nó, a saudade do regresso à terra é mesmo assim, como está na Ponte do Guadiana, as cartas que o pessoal do Alentejo escrevia para arranjar emprego, para mudar de vida, para fazer uma coisa que eu ouvia quando era criança, que era "tirar a mulher do campo", e que é uma coisa incrível, lindíssima. O sonho de muito homem era "tirar a mulher do campo". Aquilo é verdade. Se fosse mentira as pessoas não gostavam, estavam a ser enganadas.

Se os seus pais passaram para o lado de lá, porque é que o João voltou para Almada?

Por causa deste processo a que se dá o nome de gentrificação. Mas isto não é uma coisa que tenha começado agora. Provavelmente começou com a fundação da cidade. A capital expulsa aqueles que não têm poder de compra para se manter na capital. Depois por acaso fui colocado na Margem Sul.
A minha vida tinha duas possibilidades: ou comprava uma escola ao pé de casa ou uma casa ao pé da escola. Como não tinha possibilidades de comprar uma escola, virei suburbano e estou aqui há 30 e tal anos.

Anda a escrever?

Não, agora estou à espera que estreie uma coisa que fiz com o Manuel Paulo, o Gato Pintor [dia 19 no festival Sol da Caparica]. São canções infantis.

Alguém tem de escrever sobre aquilo, porque aquilo existe

O que é que acontece aos temas de sempre à medida que o tempo passa?

À medida que a malta vai envelhecendo os assuntos não morrem. Temos obrigação de cada vez cavar mais fundo no mesmo assunto. Eu não posso fazer uma coisa levezinha como faria aos 25 anos, com uma paixão que eu tive. Agora tem de se ir mais ao nervo, seja qual for o assunto. Há pouco tempo escrevi uma letra para o Gil chamada Mãe Loba, que fala de uma mulher sem-abrigo que está com uma porcaria de cartão a pedir dinheiro e ao mesmo tempo a amamentar um bebé na Avenida da Liberdade. É uma coisa dura, mas ao mesmo tempo alguém tem de escrever sobre aquilo, porque aquilo existe. É preciso ir ao fundo, falar das pessoas, e é para aí que o caminho nos leva.

O que é que o preocupa hoje?

A solidão dos velhos da cidade. É uma coisa do outro mundo. Eu quis escrever uma letra sobre a solidão. Andei à procura de uma das coisas mais sós da natureza. Lembrei me da flor do cardo, que é lindíssima mas ninguém a apanha, senão pica-se. Está destinada a morrer sozinha. Escrevi um fado [cantado por Aldina Duarte em Crua, disco todo escrito por Monge]. Preocupa-me a diferença cada vez mais abissal entre os muito ricos e os muito pobres. Vivi o 25 de Abril e nunca pensei que isto viesse a ficar assim. Nunca pensei ver o que vejo hoje: 40 e tal anos depois que a malta estaria a discutir se o ordenado mínimo eram 600 paus. Nunca pensei que houvesse jovens licenciados a ganhar 600 ou 700, explorados como se fossem carne para canhão. Tudo isso me preocupa.