Premium Gás disfarçado de perfume volta a envenenar relações Reino Unido-Rússia

Reino Unido acusa dois agentes da secreta militar russa GRU pelo envenenamento dos Skripal com gás nervoso Novichok, em março, em Salisbury. E apresenta nesta quinta-feira provas na ONU. Moscovo fala em informação manipulada e embaixador dos EUA manifesta apoio a Londres

As relações entre o Reino Unido e a Rússia voltaram a registar um novo pico de tensão depois de a procuradoria britânica ter acusado dois espiões da secreta militar russa GRU de conspiração para matar Sergei e Yulia Skripal. O ex-espião russo e a filha foram envenenados, a 4 de março, em Salisbury, com gás nervoso Novichok. Estiveram hospitalizados. Mas acabaram por sobreviver ao que a primeira-ministra Theresa May descreveu nesta quarta-feira no Parlamento britânico como uma operação autorizada "certamente fora da GRU a um nível superior do Estado russo".

May falava aos deputados na Câmara dos Comuns depois de a procuradoria britânica ter identificado aqueles dois agentes russos da GRU como Alexander Petrov e Ruslan Boshirov. E de a Scotland Yard (Polícia Metropolitana) ter divulgado fotografias do rosto dos dois, imagens de câmaras de videovigilância destes na estação de comboios de Salisbury, mas também do recipiente em que foi encontrado o referido gás nervoso desenvolvido pela União Soviética na era da Guerra Fria.

Trata-se de um frasco de amostra de perfume, mais especificamente o Premier Jour de Nina Ricci, que foi alterado e desenhado para incluir um aplicador que permite borrifar o agente nervoso. A Scotland Yard, refere o Telegraph, acredita ter sido assim que o Novichok conseguiu ser introduzido no Reino Unido. O frasco foi encontrado na casa de Charlie Rowley e Dawn Sturgess, casal que foi exposto ao Novichok em junho, em Amesbury, a poucos quilómetros de Salisbury. Hospitalizados, Charlie sobreviveu, mas Dawn, mãe de três filhos, acabou por morrer, a 8 de julho. A polícia relaciona este incidente com o dos Skripal.

"Nós não acreditamos que Dawn e Charlie foram visados deliberadamente, mas tornaram-se vítimas como resultado da imprudência com que um agente nervoso tão tóxico foi descartado", acusou o comissário adjunto Neil Basu, responsável pela unidade de combate ao terrorismo da Scotland Yard. Peritos da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) confirmaram que a substância era Novichok e que o mesmo tipo foi usado nas duas ocasiões.

"Sabemos que a GRU tem desempenhado um papel fundamental na atividade nefasta da Rússia nos últimos anos. E hoje nós expusemos o seu papel por detrás do desprezível ataque de armas químicas nas ruas de Salisbury. As ações da GRU são uma ameaça para todos os nossos aliados e para todos os nossos cidadãos. Estamos a aumentar o nosso conhecimento do que a GRU está a fazer nos nossos países, a evidenciar as suas atividades, a expor os seus métodos e a partilhar com os nossos aliados", declarou a primeira-ministra britânica, no dia em que a polícia divulgou imagens dos suspeitos.

Os casos de envenenamento agora em causa não são as primeiras ações hostis contra russos em solo britânico. Em 2006, Alexander Litvinenko, ex-membro dos serviços secretos russos FSB (ex-KGB) tornado crítico do Kremlin, foi envenenado em Londres com polónio-210, uma substância radioativa. E morreu.

As movimentações de Alexander Petrov e Ruslan Boshirov, nomes que as autoridades britânicas pensam ser provavelmente falsos, ficaram registadas. Os dois suspeitos chegaram ao aeroporto de Gatwick a 2 de março, ficaram alojados num hotel em Londres, foram a Salisbury, tendo sido filmados na estação de comboios da cidade onde os Skripal foram encontrados inconscientes num banco no meio da rua. Os dois homens deixaram solo britânico, no dia 5 de março, num voo da Aeroflot, que saiu do aeroporto de Heathrow. No City Stay Hotel, na zona leste de Londres, foram encontrados vestígios de Novichok.

Além das acusações formais de conspiração para matar, os dois espiões da GRU são alvo de mandado de captura na UE, embora as autoridades britânicas não tenham feito pedido de extradição à Rússia, uma vez que, sublinha o Telegraph, o país governado por Vladimir Putin não tem por hábito extraditar os seus nacionais. Assim que a acusação foi conhecida, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia publicou, na sua conta de Twitter, o vídeo de Theresa May a dançar na África do Sul, episódio que tinha sido amplamente ridicularizado nas redes sociais na semana passada.

"A GRU", vincou no Parlamento a chefe do governo britânico, "é uma organização disciplinada, com uma cadeia de comando bem estabelecida. Esta não foi uma operação não autorizada. Quase certamente foi aprovado fora da GRU, a nível superior do Estado russo." May indicou que o Reino Unido, enquanto membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, usará "canais de comunicação [de que dispõe] para deixar claro que não pode existir em nenhuma ordem internacional civilizada espaço para o tipo de atividade bárbara a que assistimos em Salisbury em março".

A primeira-ministra conservadora não anunciou, porém, uma nova expulsão de diplomatas russos do seu país. Em março, Londres expulsou 23 diplomatas russos identificados como agentes secretos russos não declarados. E 28 países aliados e a NATO expulsaram igualmente, em solidariedade, um total de mais de 150 elementos de agências de informações russas. Portugal não optou por esta via, chamou apenas o embaixador português que estava em Moscovo, defendendo que às ações unilaterais se deve sobrepor sempre uma concertação entre todos os Estados membros da UE.

Um porta-voz de Downing Street, citado pela Reuters, precisou que Londres vai apresentar provas na ONU: "Nós pedimos uma reunião do Conselho de Segurança para esta quinta-feira para darmos conta da investigação sobre Salisbury. A reunião está marcada para cerca das 15.30 [16.30 em Lisboa]."

A Rússia desvalorizou as provas apresentadas pelos britânicos e denunciou manipulação. "Apelamos uma vez mais aos britânicos que acabem com as acusações públicas e com a manipulação de informação", declarou a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Maria Zakharova, citada pela agência TASS.

"Os nomes e as fotografias que publicaram nos media não nos dizem nada", acrescentou a porta-voz da diplomacia russa, pedindo a Londres para "cooperar" com a Rússia na investigação sobre o envenenamento com Novichok. Segundo Zakharova, "numerosos" pedidos de informação sobre o caso do envenenamento foram feitos pela Rússia ao Reino Unido, mas estes permaneceram sem qualquer resposta. Pelo menos até agora.

Segundo a Interfax, citada pela Reuters, o embaixador britânico em Moscovo, Laurie Bristow, reuniu-se com um responsável do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Igor Neverov, nesta quarta-feira, para lhe dar conta da investigação sobre o caso Skripal.

Numa intervenção na televisão pública russa, Artyom Sheinin, conhecido apresentador de um talk show no Channel One, afirmou que as imagens divulgadas pelos britânicos mostram "dois cidadãos normais". Quem acusa, sublinhou, tem de mostrar provas convincentes. "Já não estamos em 1937", exclamou.

Os EUA, através do seu embaixador em Londres, reafirmaram que estão ao lado do Reino Unido. "Importante declaração da primeira-ministra May. Os EUA e o Reino Unido estão firmemente empenhados em responsabilizar a Rússia pelo seu ato de agressão em território britânico. #Saliusbury", escreveu o embaixador dos EUA em Londres, Woody Johnson, no Twitter.

No mês passado, os EUA anunciaram que iriam impor sanções à Rússia por causa do envenenamento de Skripal e da filha, em Salisbury. As sanções implicam o congelamento de bens e capitais de empresas russas nos Estados Unidos e a proibição de negócios com entidades ou cidadãos norte-americanos, restringindo, na prática, o seu acesso ao sistema financeiro norte-americano. Na lista negra estão, entre outras, o banco Primorye e a empresa de transporte marítimo Goudzon.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, considerou, na altura, que as sanções norte-americanas são "contraproducentes e sem sentido". Em julho, na cimeira que teve com o presidente dos EUA, Donald Trump, em Helsínquia, na Finlândia, o chefe do Estado russo classificou como "infundadas" as acusações do Reino Unido no caso Skripal.

Nascido em 1951, Sergei Skripal trabalhou até 1999 para a secreta militar russa GRU e, depois, até 2003, no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Foi condenado em 2006 a 13 anos de prisão após ter reconhecido ter dado informações secretas russas aos serviços de informações britânicos (MI6) relacionadas com a identidade de várias dezenas de agentes secretos russos que operavam na Europa. Informações que lhe valeram cem mil dólares.

Skripal foi mais tarde libertado em troca de dez agentes secretos russos expulsos de Washington, nos EUA, entre eles Anna Chapman, uma jovem empresária russa apelidada de "a nova Mata Hari". Residia em Nova Iorque, mas também já passara por Londres, onde casara com um britânico e adquirira cidadania. O ex-marido de Anna, Alex Chapman, morreu em março deste ano, aos 36 anos, segundo alguns media britânicos vítima de overdose.

Já em liberdade, Skripal refugiou-se mais tarde no Reino Unido. Aí vivia com a filha, Yulia, quando foram envenenados com o gás nervoso Novichok.

"Gostaríamos de ver provas documentadas, mas ninguém nos dá", afirmou Putin, em Helsínquia. "Só vemos acusações infundadas. Porque é que isto está a ser feito desta forma, porque é que o nosso relacionamento se deve deteriorar por causa disso?", questionou o homem forte do Kremlin. Agora, as provas das autoridades britânicas estão aí.

No mesmo dia em que a procuradoria britânica acusou dois espiões da GRU de conspiração para matar Skripal, as autoridades da Estónia informaram ter detido dois suspeitos de espionagem a favor da Rússia. Um deles, que trabalhava na sede das Forças Armadas da Estónia, estaria a passar informações precisamente à GRU.

A GRU é o acrónimo para os serviços de informações militares da Rússia e as suas origens datam de 1918. Lenine considerava que era importante a sua independência dos restantes serviços secretos. A GRU responde diretamente ao chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e ao ministro da Defesa da Rússia.

O atual líder da GRU é Igor Korobov. Está no cargo desde 2016, ano em que se discute se houve ou não interferência russa nas eleições presidenciais dos EUA. Valery Gerasimov é o atual chefe do Estado-Maior. É alvo de sanções da UE por causa da anexação da Crimeia à Ucrânia por parte da Rússia em 2014.

"Estamos a falar de traição. Temos dados para suspeitar de que foram passados segredos de Estado de forma deliberada para os serviços de informações militares russos GRU", afirmou a procuradora estónia Inna Ombler, num comunicado citado pela Reuters.

"A detenção de dois cidadãos estónios sob suspeita de traição é um incidente altamente perturbador", declarou, por seu lado, o primeiro-ministro estónio, Jüri Ratas.

Membro da NATO e da UE, a Estónia tem o trauma da invasão russa e vive numa espécie de estado de prontidão para um eventual confronto. Não forçosamente bélico, Poderia ser, por exemplo, cibernético.

Após o ciberataque de 2007, que sofreu por parte dos russos em retaliação pela retirada da estátua de bronze do soldado soviético no centro da cidade de Tallinn, a sociedade transformou-se a ponto de o país ser apelidado de e-Estónia. Há organizações de voluntários que fazem simulações de treino militar, despistam propaganda falsa na internet.

No âmbito do serviço militar obrigatório, há os cibersoldados (especialistas em novas tecnologias que cumprem o serviço militar de forma orientada para essas capacidades). Haverá, em 2018, um cibercomando com 300 pessoas, operacional a partir de 2020.

A Estónia não é, porém, o único país do Leste Europeu a temer a Rússia. A Polónia é outro exemplo. "A Rússia provou, fortemente, que é uma ameaça à segurança europeia nestes últimos dez anos. Há boas razões para adaptar a NATO a esta situação. É preciso ação no norte de África e no Médio Oriente e também a leste, por causa da Rússia. A readaptação da NATO não seria provavelmente necessária se a Rússia tivesse decidido ser um parceiro construtivo, mas decidiu ser outra coisa", declarou, em maio, em entrevista ao DN, o secretário de Estado dos Assuntos Europeus polaco, Konrad Szymanski.

Neste mês de setembro, entre os dias 11 e 15, a Rússia vai organizar as suas maiores manobras militares desde o tempo da Guerra Fria. Os exercícios militares Vostok (palavra que significa leste) vão mobilizar 300 mil militares, mil aviões, 36 mil engenhos militares e unidades da China e da Mongólia. Vão realizar-se na Sibéria Oriental e no Extremo Oriente. Os EUA já avisaram que vão observar, de perto, estas manobras militares promovidas por Moscovo.

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