Eu odeio o presidente

Muita gente, provavelmente a esmagadora maioria dos brasileiros, abominava os generais-presidentes do regime militar.

Muita gente acabou também a execrar José Sarney, o civil com tiques de coronel que lhes sucedeu e que, chegado ao Planalto sem voto direto e por causa da morte inesperada do parceiro de coligação, jogou a inflação do país para os quatro dígitos ao ano.

Muita gente, ainda assim, terá sentido saudades de Sarney, ao deparar-se com o detestado governo de Collor de Mello, o primeiro presidente eleito desde a redemocratização, que, entre outras medidas irresponsáveis, confiscou as poupanças bancárias do povo antes de ser deposto.

O governo de Itamar Franco, os dois de Fernando Henrique Cardoso, os dois de Lula da Silva e o primeiro de Dilma Rousseff terão sido, apesar das rivalidades e da sempre exaltada jovem democracia brasileira, menos odiados do que os anteriores.

Mas o segundo de Dilma, que acabaria, como Collor, derrubada por impeachment e com as taxas de aprovação pelo chão após homérica crise económica, daria origem ao mais impopular de todos os chefes de Estado do Brasil: Michel Temer.

O ex-vice, cuja gestão de dois anos contemplou 55 ministros, metade deles ceifados ou atingidos pela Operação Lava-Jato, denúncias contra o próprio mandatário por corrupção passiva, lavagem de dinheiro, obstrução à justiça, formação de quadrilha e organização criminosa, que só não resultaram em prisão porque os deputados, seus juízes de circunstância, foram pagos para o absolver, acaba o mandato em cinzas, como o Museu Nacional, a amargar 94% de reprovação.

A frase-título deste artigo - eu odeio o presidente - adapta-se perfeitamente, portanto, ao homem cujo assessor especial andou a correr pelas ruas de São Paulo com uma mala de dinheiro sujo nas mãos. Mas também, como se viu, aos generais-ditadores, a Sarney, a Collor ou a Dilma - todos eles foram, acima de tudo, detestados, em maior ou menor escala, número, grau, tonalidade.

No entanto, a frase-título refere-se não aos anteriores nem ao atual mas sim ao próximo presidente do Brasil. Seja ele qual for, será mais odiado do que amado.

É o que sente, sem risco de especular, quem ouve o debate político: se Lula, o líder das sondagens que ainda o preveem entre os candidatos, desperta muita paixão, gera ainda mais raiva, aversão e antipatia. Fernando Haddad, o seu mais do que provável sucessor, ainda que com perfil moderado, herdará esse capital de muito amor e ainda mais ódio. E Jair Bolsonaro, o comandante nas pesquisas que já não preveem Lula, sofre de mal idêntico: cria muitos fãs, é certo, mas com menos furor com que cria detratores.

É o que se sente e é o que os números contam: quem for eleito no dia 28 de outubro, data marcada para a segunda volta, é mais rejeitado do que aprovado pelos brasileiros, de acordo com um levantamento realizado no início de agosto pelo barómetro político Estadão-Ipsos com 1200 entrevistados de 72 municípios

Mesmo o fenómeno Lula tem um saldo negativo de quatro pontos: é desaprovado por 51% dos brasileiros e aprovado por 47%.

Aquele que apresenta pior saldo entre a linha encarnada, a da rejeição, e a azul, a da aceitação, é, no entanto, Geraldo Alckmin (70 contra 17), o ex-governador de São Paulo, que representa o PSDB. Lá perto está Ciro Gomes, do PDT, com um registo negativo 65-18.

Não gostam de Henrique Meirelles (MDB), Fernando Haddad (PT), Marina Silva (Rede) e Jair Bolsonaro (PSL) entre 60% a 61% dos entrevistados. Se os dois primeiros têm taxas de aprovação muito frágeis (5 e 8 pontos, respetivamente), a ambientalista e o capitão na reserva são, pelo menos, apreciados por 30% e 24% dos brasileiros.

Depois do recordista de impopularidade Temer, a maioria dos brasileiros, não a maioria dos eleitores, continuarão pois nos próximos quatro anos a repetir mais vezes a frase "eu odeio o presidente" do que "eu adoro o presidente", com tudo o que isso transporta de perigoso.

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