Há fome na comunidade madeirense na Venezuela

O padre Alexandre Mendonça diz com todas as letras: há fome. A fome atinge a comunidade madeirense radicada no país. Cada dia que passa a situação piora. O sacerdote deixa um apelo à solidariedade.

Nicolau Fernandez
O padre Alexandre nunca viu tanta gente a deixar o país. Cada dia que passa as dificuldades são maiores.© Nicolau Fernandez

Sucedem-se os relatos de situações dramáticas que atingem os venezuelanos, de um modo geral. Uma situação que também afeta elementos da comunidade madeirense ali radicada. Há carências de vária ordem. A falta de alimentos é uma delas. Há quem passe fome. A luta pela sobrevivência é diária. Os apelos à solidariedade são lançados com veemência. É o caso do padre Alexandre Mendonça. Recebeu-nos no Centro Português de Caracas, um clube da comunidade lusa, com capela e missa dominical, depois de um almoço domingueiro. Em cima da mesa, num saco de plástico transparente, um saco de medicamentos. "Acabei de recebê-lo. Vindo de Portugal. Toda a ajuda é pouca."

O sacerdote, confrontado com a pergunta, é direto na resposta: "Há fome, muita fome na Venezuela, incluindo na comunidade portuguesa. A grande maioria da população passa graves, graves situações. Há um aglomerado de realidades que tornam a cada dia a situação ainda mais difícil... e talvez aí resida a razão para a saída de muitos." O sacerdote sublinha que tem 50 anos na Venezuela, 30 de sacerdócio, 28 dos quais com a comunidade portuguesa, e nunca viu tanta gente a abandonar o país, sobretudo jovens formados, muitos sem qualquer ligação às comunidades estrangeiras, os próprios venezuelanos.

O responsável pela Missão Católica Portuguesa de Caracas é o interlocutor de muitos pedidos de ajuda. Sabe quem precisa. Mas nem sempre é possível acudir a todos. Medicamentos, alimentos, dinheiro, roupas. Sobre a atuação dos governos, quer da Madeira quer de Portugal, não deixa de dizer que "é preciso mais apoios. A situação é deveras preocupante". Fica, no entanto, a ressalva, pedida com insistência: "É preciso sempre agradecer toda a ajuda já disponibilizada, através da Embaixada de Portugal e através de várias instituições. Nunca é de mais agradecer."

Por fim, o padre Alexandre diz que se há um elemento identificador da comunidade portuguesa é a solidariedade. Ao longo dos tempos. "Sempre foi atenta e generosa com os que têm necessidade. A vida nunca foi fácil neste país, claro que, agora, está muito mais difícil."

Outro dos problemas da Venezuela é a distribuição de energia elétrica. Os apagões são frequentes. Falta de manutenção da rede e roubo de vários tipos de material, como o cobre, podem explicar algumas destas situações que obrigam as empresas de grande dimensão a um investimento suplementar, a aquisição de geradores. Além de o preço dos combustíveis ser irrisório neste país, o custo da energia elétrica é também residual se tivermos em conta o equivalente em dólares ou em euros. Talvez por isso não é valorizada e, como tal, há de facto um desleixo, como por exemplo no desligar de aparelhos como o ar condicionado ou as simples lâmpadas.

Nas ruas de Caracas, a iluminação pública apresenta muitas falhas. Há locais completamente às escuras. Novamente a falta de manutenção e de material, como lâmpadas, está na origem do problema. Por vezes, os particulares são obrigados a iluminar a rua, por exemplo, para identificar quem chega à porta através de videovigilância. Nas principais vias, dentro e fora da capital, é frequente a ausência de luz elétrica. Há quem veja aí um símbolo deste país abençoado em riqueza e beleza naturais, mas sem esperança de futuro para cada vez mais gente.

Este texto foi originalmente publicado no Diário de Notícias da Madeira