Estreia. BlacKkKlansman: o passado é agora

Vencedor do Grand Prix, o segundo maior galardão do Festival de Cannes, o novo e brilhante filme de Spike Lee chega hoje às salas portuguesas.

Inês N. Lourenço
Adam Driver e John David Washington, a dupla que se infiltra na Ku Klux Klan© DR

Falar de BlacKkKlansman: O Infiltrado como o "grande regresso" de Spike Lee tem o seu quê de ambiguidade. Pegamos neste termo que tem dominado a imprensa internacional, com uma justíssima qualidade de louvor, apenas para esclarecer a imprecisão que contém: a ser um "regresso", isso significaria que o realizador de Não Dês Bronca esteve afastado do cinema nos últimos anos. Não é verdade. Hoje, já sexagenário, Lee continua a fazer da sétima arte a expressão de uma identidade - e poucos como ele levam tão à letra esse desígnio, simultaneamente pessoal e coletivo. O que acontece é que os seus filmes recentes não tiveram a mesma visibilidade do que este novo. E tal ideia de "retorno" é algo que incomoda o próprio Spike Lee, como confessou numa entrevista concedida à revista Time: "Ele está de volta? Onde é que eu fui? Tenho feito isto nos últimos 30 anos."

Mas, à parte a inexatidão jornalística, é mesmo preciso receber BlacKkKlansman com as devidas honras. Estamos perante uma das mais eloquentes obras deste ano cinematográfico - e a mais importante da rentrée - com a garra política e a frescura estética que caracterizam os melhores trabalhos do realizador. O projeto chegou-lhe às mãos através de Jordan Peele, o produtor (oscarizado pelo argumento de Get Out), e é baseado na história verídica de Ron Stallworth, o primeiro detetive afro-americano a trabalhar para o Departamento da Polícia de Colorado Springs, na década de 1970. Ao longo de mais de duas horas (de resto, muito bem aproveitadas), Lee encarrega-se de nos manter tão divertidos quanto tensos, para no fim estabelecer um paralelismo perturbador com a América do presente, a América de Trump - mais precisamente, mostrando imagens dos violentos acontecimentos do ano passado em Charlottesville.

Do que falamos então? De racismo puro e duro, uma vez que esta é a história do homem negro que ousou investigar, a partir de dentro, a organização racista Ku Klux Klan. Não podendo apresentar-se fisicamente - por razões óbvias - diante do grupo a que aderiu através de uma simples chamada telefónica, formou uma dupla com um colega do departamento, fazendo as jogadas mais arriscadas através de conversas ao telefone e enviando o outro aos encontros no seu lugar... Eis a dinâmica que é brilhantemente assegurada por John David Washington, um protagonista cheio de rasgo (filho de Denzel Washington), e Adam Driver; ambos num registo equilibrado entre o pragmatismo da ação e o humanismo mais idealista.

Cinema político

A contrapor ao cenário dos supremacistas brancos temos aqui também a ameaça dos Panteras Negras e, para complicar, Stallworth/Washington está apaixonado por uma jovem que pertence a esse partido. Colocado entre as duas realidades extremas, o herói acaba por afirmar uma personalidade moderada, funcionando como uma espécie de guia que nos orienta dentro das complexidades sociais, com as dúvidas que extravasam a cor da pele, e na boa companhia das referências da cultura pop. Porque é assim, com uma personagem entalada entre o preto e o branco, que Spike Lee, uma das vozes mais distintas da sociedade americana contemporânea, procura incutir a reflexão política.

Sobre isso, ainda na entrevista que deu à Time, o cineasta afro-americano diz que filmes como E Tudo o Vento Levou (1939), de Fleming, e O Nascimento de Uma Nação (1915), de Griffith - os dois que são citados em BlacKkKlansman através de excertos certeiros -, lhe foram mostrados na escola sem que as implicações sociais e políticas dos mesmos fossem objeto de discussão, para lá do elogio da técnica... Com efeito, é esta essencial dimensão pedagógica do seu cinema que se conjuga com o gesto da câmara. Digamos que o olhar de Lee é tão ferozmente temático quanto sofisticado na mise en scène.

BlacKkKlansman é então um filme que dança e nos convida a dançar com ele, ao sabor de uma época impecavelmente captada pela película de 35mm. Mas quando a música para, percebemos que a mensagem deixada é muito mais séria do que a deliciosa paródia a que fomos submetidos. O velho Harry Belafonte, na aparição que aqui faz (e que bela surpresa!), surge como o digno porta-voz dessa mensagem, isto é, desse desejo de despertar os americanos para as linhas duras da sua própria história, que se repete.

**** (Muito Bom)