Os voluntários de hoje querem ser os unicórnios de amanhã

São perto de dois mil os voluntários que apoiam a organização da Web Summit. Há centenas de estrangeiros que esperam voltar um dia como empreendedores.

Foram os primeiros a aterrar em Lisboa. Para muitos, o trabalho começou antes de a arena abrir as portas. Vestem o já habitual azul-turquesa, para se destacarem na multidão. Falam todas as línguas do mundo. Da Polónia ao Panamá, não há nação que escape ao batalhão de voluntários recrutados para a Web Summit. Para não faltarem ao chamamento, tiram a semana de férias no trabalho ou fazem gazeta às aulas. Pagam para trabalhar mas não se importam. "O que conta é a experiência", podia ser o mantra dos dois mil voluntários que ajudam a pôr de pé a maior cimeira de tecnologia do mundo.

Basta passar por dois ou três grupos de volunteers para perceber que nem todos são tão jovens quanto seria de esperar. Joseph Keegan tem 47 anos e veio de Dublin, na Irlanda, terra natal do evento. É a terceira vez que trabalha como voluntário na Web Summit em Lisboa. Em 2016 foi colocado na Night Summit, a ronda noturna pelos bares lisboetas onde os empreendedores vão brindar aos negócios que fizeram durante o dia. "Para mim é como vir de férias em trabalho. Nos tempos livres posso conviver com as pessoas que conheci, ir a restaurantes e atrações turísticas da cidade", conta ao DN/Dinheiro Vivo.

O consultor de IT gostou tanto da experiência que repetiu em 2017. Na edição deste ano foi promovido: vai ser senior team leader, que é como quem diz, terá a responsabilidade de comandar uma equipa de voluntários. "Toda esta experiência mudou a minha vida. Conhecer pessoas tão diferentes e ver de perto as inovações tecnológicas que vão mudar o nosso futuro" é o que faz o investimento valer a pena, garante.

"Toda esta experiência mudou a minha vida", diz o voluntário Joseph Keegan

Por serem mão-de-obra gratuita num evento onde os bilhetes chegam a custar mais de três mil euros, os voluntários estão habituados às críticas. Mas têm resposta para elas. Marlon Malter é estudante de ciência computacional e veio de Frankfurt. Para os sete dias que vai ficar em Lisboa tem um orçamento entre os 250 e os 300 euros. Muito menos do que gastaria se tivesse comprado um bilhete.

"Na minha universidade vamos lançar agora o primeiro fundo de capital de risco para estudantes, por isso vim com o objetivo de conhecer outras pessoas ligadas a fundos de investimento e startups. Vou faltar a algumas aulas para estar aqui mas não estou preocupado com isso, porque o que vou retirar, em termos de contactos e conhecimento, vai compensar o investimento em tempo e dinheiro", sintetiza.

Partir à descoberta

A visão é semelhante à de Weronika Chabowska. A estudante polaca radicada há um ano no País de Gales não fazia ideia do que era a Web Summit até há alguns meses, quando lhe enviaram um link pelo Messenger. "Fiquei fascinada com o conceito mas depois vi o preço dos bilhetes... 800 euros! Como não podia pagar decidi inscrever-me como voluntária. Fiquei muito entusiasmada quando vi que a minha candidatura tinha sido aceite", confessa.

O voo do Reino Unido para Lisboa custou-lhe 20 libras. Nos nove dias que vai ficar em Portugal, escolheu um hostellow-cost que lhe vai custar o resto das poupanças. "E que só marquei uma hora antes de embarcar para Portugal porque a minha mãe estava a ficar preocupada", revela. Weronika, que respira despreocupação, tem a certeza de que o investimento vai compensar.

"Estou a tirar um curso de comércio online porque quero ter o meu próprio negócio. Depois de Lisboa quero procurar casa em Itália ou em França para me dedicar a isso. Aqui quero conhecer pessoas que me possam ajudar."

A vontade de ser empreendedor não é um dos requisitos para ser escolhido como voluntário para a Web Summit, mas parece. De Barcelona veio um grupo de quatro amigos russos, todos com vontade de criar o próximo unicórnio, como conta Polina Ishchencko, de 29 anos, que vai dar apoio na área do catering.

"Não somos estudantes, viemos conhecer pessoas e tirar daqui alguma inspiração para os novos projetos em que estamos a trabalhar. Estou a criar um negócio e gostava muito de um dia voltar à Web Summit com a minha empresa." Como os outros, não se importa de trabalhar de graça. "O esforço um dia vai compensar."

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