Rui Pinto em prisão preventiva após recorrer da extradição

Tribunal Metropolitano de Budapeste decidiu extraditar português ligado às revelações do Football Leaks.

O português Rui Pinto recorreu da sentença de extradição para Portugal, decidida na terça-feira em Budapeste, ficando a aguardar a conclusão do processo em prisão preventiva.

Um dos denunciantes do caso Football Leaks, que revelou vários escândalos no futebol internacional, o hacker Rui Pinto - que estava em prisão domiciliária -, viu a juíza do Tribunal Metropolitano de Budapeste rejeitar o apelo para permanecer na Hungria. "É uma questão de vida ou de morte" não ser extraditado, face às ameaças de que tem sido alvo, sustentou.

O seu advogado, Francisco Teixeira da Mota, explicou depois, numa nota à Lusa, que um dos pressupostos do recurso assenta na inexistência de um mandado de detenção português quando Rui Pinto foi preso no âmbito da investigação ao seu alegado acesso aos sistemas informáticos do Sporting Clube de Portugal e do fundo de investimentos Doyen Sports (sediado em Malta).

"Um dos motivos por que não deve ser cumprido o MDE [mandado de detenção europeu] é o facto de o mesmo ter sido emitido invocando um mandado de detenção nacional que não existia e que só veio a ser emitido um mês depois da detenção de Rui Pinto em Budapeste ao abrigo do MDE", referiu Francisco Teixeira da Mota.

"O MDE, que determinou a detenção de Rui Pinto, referia a existência de um mandado de detenção nacional emitido em 15 janeiro mas, há poucos dias, as autoridades portuguesas vieram comunicar que o mandado de detenção nacional tinha sido emitido em 15 de fevereiro", lê-se no mesmo comunicado de Francisco Teixeira da Mota.

Como tal, "a inexistência de mandado de detenção nacional prévio e distinto do mandado de detenção europeu tem como consequência que o mandado de detenção europeu não é válido", argumentou o advogado.

Rui Pinto, que vive na Hungria, foi detido a 18 de janeiro e está indiciado pela prática de seis crimes: dois de acesso ilegítimo, dois de violação de segredo, um de ofensa a pessoa coletiva e outro de extorsão na forma tentada.

O tribunal de Budapeste rejeitara, em fevereiro, o recurso do Ministério Público húngaro para Rui Pinto ser colocado em prisão preventiva enquanto decorria o processo de extradição para Portugal.

"Não me arrependo de nada"

No final da audiência, algemado, Rui Pinto disse aos jornalistas que voltaria a fazer as mesmas denúncias e deixou fortes críticas à justiça portuguesa.

"Fiz o que tinha a fazer, não me arrependo de nada, faria tudo outra vez", afirmou Rui Pinto, insistindo que as suas denúncias não visaram "um clube em específico" porque o caso "é internacional" e envolveu a divulgação de situações com outros clubes.

Um deles foi o próprio FC Porto, de que é adepto, pois teve acesso a informação que indicia a existência de "comportamentos um pouco estranhos" por parte de figuras ligadas ao clube e até que possa haver "desvio de fundos", contou.

O Football Leaks "publicou documentos [relativos a] irregularidades" no FC Porto, insistiu Rui Pinto, negando ainda a acusação de receber quaisquer verbas pela venda do livro sobre os casos de corrupção no futebol que denunciou.

"Portugal está podre" e "não vai acontecer nada" para alterar o estado de coisas no futebol português, ao contrário de outros países que disse "quererem mudar" a realidade que o Football Leaks permitiu conhecer, acusou Rui Pinto.

"Em Portugal não há cultura do desporto, há a cultura do clubismo. Temos magistrados e juízes que infelizmente levam a paixão clubística muito a sério", lamentou Rui Pinto.

Rui Pinto terá acedido, em setembro de 2015, ao sistema informático da Doyen Sports Investements Limited e aos contratos que celebrou com clubes de futebol e sociedades anónimas desportivas (SAD).

O hacker é também suspeito de aceder ao correio eletrónico de administradores e advogados do Sporting e ao sistema informático da respetiva SAD.

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