"A terceira temporada de 'A Casa de Papel' não é uma traição à série, até vai ser melhor"

Todos o conhecem mais por Arturito do que por Arturo Román ou que pelo nome verdadeiro, Enrique Arce. Também se desconhece que seja autor de um romance, em que se inspira em muito na sua grande crise pessoal e espiritual.

Entre os atores da série A Casa de Papel havia um que estava sempre a criar problemas, Arturo Román, Arturito, o diretor da Casa da Moeda que o grupo de mascarados à Dalí assaltou e que durante duas temporadas teve um sucesso à escala mundial. Só mesmo em Espanha, como revela o ator Enrique Arce, é que a série teve pouco impacto, o mesmo não se podendo dizer da Turquia, onde o presidente Erdogan proibiu a entrada de qualquer um dos atores, da Argentina, onde o presidente Macri telefonou a Arce a convidá-lo para jantar ou mesmo no Brasil, onde Paulo Coelho não resistiu a colocar mensagens no Instagram do ator a dizer "Adoro o teu personagem Arturito".

Enrique Arce está em Lisboa, onde veio ontem lançar o seu romance de estreia: A Grandeza das Coisa sem Nome. Trezentas páginas que contam a história de um ator espanhol que vive em Nova Iorque e na noite em que recebe o mais prestigiado prémio para o teatro, o Tony, recebe um telefonema do pai a dizer que a irmã tinha morrido e a mulher pede o divórcio. A partir daí, o leitor pode acompanhar a viagem até o protagonista bater no fundo e a sua ressurreição. Um livro que nem parece um primeiro romance, logo de um ator, mais entusiasmante do que outros de escritores profissionais, em que Enrique Arce coloca um pouco de si e de quem conhece: "Um primeiro livro deve ser escrito sobre o que se sabe."

Enquanto a terceira temporada não chega aos ecrãs, Enrique Arce está como gosta, dividido em duas filmagens: as filmagens de A Casa de Papel - não revela, mas começaram no Panamá - e uma participação na saga Exterminador, de novo sob o comando de James Cameron, e com Arnold Schwarzenegger no principal papel. Garante que o sucesso de A Casa de Papel fez subir os salários de todos os atores - a exceção é em Espanha - e que os convites não faltam. Tanto assim que Enrique Arce está no VIP Lounge no 19.º andar do Hotel D. Pedro em Lisboa e, simpático e falador, não consegue disfarçar o jet-lag de uma viagem desde a Tailândia, onde esteve também em filmagem.

Por estranho que pareça, a escrita deste romance "deve-se" ao treinador português Jorge Mourinho e a um desafio de futebol entre o Chelsea e o Atlético de Madrid, bem como à falta de emprego, ausência de amigos e muita solidão que viveu em 2014.

Está a filmar a sequela 6 do Exterminador e a terceira temporada de A Casa de Papel. Entre estes dois trabalhos como ator lança o seu primeiro romance. Quer aproveitar o sucesso?
Este livro é muito anterior ao que me aconteceu com A Casa de Papel. Eu estava a viver em Londres em 2014 e atravessava uma época muito obscura a nível pessoal, económica e profissionalmente. Nada corria bem na minha vida e nem conseguia um papel em Inglaterra, para onde tinha ido devido à grande crise em Espanha. Tinha feito uma ponta num filme com Pierce Brosnan e fiquei para ver oportunidades de trabalho, mas como nada dava certo, não tinha amigos, caí numa depressão. O que foi uma bênção porque essa solidão fez despertar em mim uma necessidade de contar essa viagem até ao fundo, seguida de uma transformação, que é o que trata este romance. A história do livro é um pouco como a minha situação na altura.

É autobiográfico?
Não, aliás é incrível o que está na base da história, e muita gente pode nem acreditar que o romance foi escrito muito antes do sucesso de A Casa de Papel, é muito do que veio a acontecer-me e igual ao que escrevera para o protagonista, o Samuel. Nas primeiras páginas, ele atingia o ponto mais alto da carreira de ator ao ganhar um Tony e anos depois nós ganhámos um Emmy com a série, ele sofre um processo de transformação espiritual e isso passou-se também comigo. Ao ler o livro muito depois era como se me revisse num personagem de ficção escrito anos antes, em que muito do que lhe acontecia era o que iria passar-se na minha vida depois.

Foi a sua experiência enquanto ator que facilitou a escrita do romance?
Considero que num primeiro romance deve falar-se do que se conhece e não de temas que nos são estranhos. Eu queria falar do "vazio do sucesso", que é o acontece a Samuel no topo da carreira, que sente um vazio por não fazer o que sabe que é correto.

Era capaz de deixar a profissão de ator para se tornar escritor?
Não, ambas complementam-se muito bem em mim. A minha personalidade rima mais com a interpretação e gosto muito de conhecer o mundo, de trabalhar com um grupo de pessoas de forma muito intensa durante semanas. Eu sou uma pessoa que gosta de estar com outras, sou uma pessoa de grupo e, agora porque tenho sucesso, a minha profissão já paga as minhas contas sem os problemas de antes. A profissão de escritor não rima tanto comigo a nível do dia-a-dia porque falta-me a disciplina. Sou muito caótico e sentar-me todas as manhãs a escrever é impossível, além de que a solidão do escritor não me atrai. É agradável porque o tempo e o espaço desaparecem enquanto escrevemos, mas o que quero é ver pessoas falar e a representar.

Como o seu personagem Arturo...
..Arturito! [risos]

... Gostou dele como era ou transformou-o à sua maneira?
Nunca levei o Arturo a sério, o que é uma situação muito diferente de outros personagens que já interpretei. Costumo estar preocupado com a construção e conhecer bem a sua profundidade psicológica, mas com Arturo era tudo diversão. Ria com ele a fazer aquelas parvoíces, tanto que várias vezes perguntava ao diretor se não estava a exagerar. E ele respondia: "Funciona, faz mais assim." Ou seja, não havia limite para o personagem e não precisava de me conter.

Se não fosse o Arturito quem gostaria de interpretar n'A Casa de Papel?
Devido às minhas características físicas, o melhor para mim seria o Berlín. Mas também gosto muito do professor, do Denver, que é um grande ator e adoro trabalhar com ele.

O sucesso da série apanhou-vos de surpresa?
Por estranho que pareça, em Espanha não foi um sucesso, até estiveram a ponto de cancelar a emissão dos três últimos episódios por falta de audiência.

No entanto a outra série em que participou, Periodistas, foi um gigantesco sucesso.
Sim, eram milhões a assistir entusiasmados. A explicação está na forma como hoje se vê televisão, que mudou muito. As pessoas não querem anúncios pelo meio ou apenas um episódio semanal, desejam consumir o que tiverem vontade. Segundo os estudos, a média de episódios que as pessoas gostam de ver de seguida é seis e meio, mas A Casa de Papel - que é a segunda série mais vista atrás de A Guerra dos Tronos - em Espanha era emitida uma vez por semana e com 15 minutos de publicidade no meio. Ninguém já quer ver assim, desligam. A montagem da Netflix era diferente e tinha menos dez minutos do que a da Antena 3.

Os atores de A Casa de Papel não se deslumbraram com todo esse sucesso?
Não tive medo que isso acontecesse, porque o sucesso foi bom para todos nós. Desde logo a nível económico, pois as ofertas de papéis agora são maiores e mais bem pagas, recebemos chamadas de Hollywood porque gostaram do nosso trabalho na série e só em Espanha é que não temos procura. É o que se passa comigo, que estou a trabalhar mais em filmes internacionais do que antes.

Põe um personagem a dizer que o teatro é bem visto em Nova Iorque. Em Espanha, isso não acontece?
Não, o ator de teatro não é tão importante como em Nova Iorque. Ou em Londres, onde é impossível encontrar bilhetes para ver Hamlet com o Benedict Cumberbatch, por exemplo. Como os espanhóis não vão ao teatro, o ator pode passar muita fome.

Já fez mais de uma dúzia de filmes, de peças de teatro e de séries. Que género prefere?
Sempre quis voltar ao teatro, mas só o farei segundo as minhas condições.

Há quem diga que este livro também acaba por ser de autoajuda. Concorda?
Não, nem pensar. A autoajuda é um bom género para muita gente - já li muitos - mas são mais didáticos. Esta é uma história de ficção que tem uma mensagem. Eu não quero escrever sem mensagem, quero falar da viagem do herói que bate no fundo, da conquista de uma capacidade própria para enfrentar a vida.

A origem deste romance começa numa briga num bar em Londres...
Sim, por culpa de um português, Jorge Mourinho, porque eu estava a ver um jogo de futebol entre o Atlético de Madrid e o Chelsea e, apesar de ser do Valência, fiquei do lado da equipa espanhola. Só que comecei a falar merda, como se faz em Espanha durante os jogos, no entanto em Londres isso é muito perigoso. Dizia que o Mourinho estava ultradefensivo e que o detestava, resultado: uns gajos saltaram-me em cima e deixaram-me todo marcado no rosto e com um derrame ocular. Fiquei três meses sem poder ir a castings ou trabalhar. Era o resultado de ter muito ódio dentro de mim, de estar numa época bastante má da minha vida. Tivera tudo e perdera tudo; estava sem dinheiro, sem família. Como tive de parar, foi bom porque reencontrei-me com a vida. É aí que o romance tem início. Aliás, na verdade o livro começa numa igreja.

Como assim?
Eu entrei numa igreja protestante porque estava tão sem forças, quase como se estivesse a morrer. Recordando o meu tempo de criança nos Maristas, disse para alguma entidade superior: "Se é verdade que existes mostra-me um sinal, por favor, porque isto está a correr muito mal." Curiosamente, as coisas começaram a ser melhores a partir daí - não estou a mentir - na minha vida e tudo mudou. Terá sido uma resposta ao meu pedido de ajuda?

Quando era criança já pensava escrever?
Não, mas o meu pai sempre disse que eu era um escritor que escolheu representar. Escrevia muito quando era jovem e só deixei de o fazer aos 16 anos.

O seu pai era tão duro como o deste livro?
Não, são a noite e o dia. A minha relação com o meu pai é fantástica, mas o personagem precisava de ser forte porque tinha que ver com viver a época pós-franquista. A maioria dos pais espanhóis dessa época são como os do personagem.

Como foi o trabalho de construção dos personagens?
Eu não queria inventar muito, Samuel poderia ser um médico ou um advogado, mas como queria falar do meu mundo, até porque não se tem escrito assim tanto sobre o universo do teatro e da representação - porque o conheço bem e é sobre o que posso filosofar -, era natural que fosse um ator, mas ao contrário de mim na altura teria de ser bem-sucedido. O Larry, o agente, é decalcado do meu representante em Los Angeles, nem precisei de fazer qualquer esforço.

Sem desvendar, pode dizer-se que o romance se encaminha para um final feliz. Só podia ser assim?
Para mim as histórias devem acabar bem, só assim me comovem e permitem ver o que de bom nos acontece. De qualquer modo, nem tudo o que eu pensava para os personagens aconteceu. Eu queria isto ou aquilo para eles, mas os personagens é que mandavam. A ideia inicial ficou muito diferente de como acabou.

Precisou de fazer muita investigação?
Bastou-me a minha experiência, no entanto a parte sobre a síndrome de Down exigiu algum estudo porque queria rigor.

Quais são os escritores que o influenciam?
Durante este livro estive muito com Charles Dickens, lia-o muito porque gosto das suas histórias e do seu estilo. Depois, Gabriel García Márquez e Dostoievski. Leio muitos clássicos e quase nada de autores modernos.

E espanhóis?
Antonio Muñoz Molina, que está a viver em Portugal e escreveu um dos meus romances favoritos: Inverno em Lisboa. E tenho uma grande dívida para com grandes autores portugueses, principalmente Camões e Fernando Pessoa.

Se este livro não fosse um sucesso como reagiria à primeira experiência?
Ficava triste. Quando terminei o livro, e não vou ser hipócrita, pensei que seria bom que fosse um sucesso - como acontece com toda a gente. Até porque estimula os próximos livros. No dia em que recebi uma caixa com 25 exemplares, gostei muito de tocar na capa e folhear as páginas. Era uma coisa completamente minha, que tinha começado numa página em branco e se transformara num romance. Eu era o dono da história, não é como em A Casa de Papel ou num filme, em que há muita gente a participar. E como as críticas e as opiniões dos leitores têm sido positivas, melhor ainda.

Houve quem dissesse que era impossível que fosse o verdadeiro autor do romance. É?
Essa pergunta já me foi feita muitas vezes, Escreveste mesmo tu? As pessoas acham que quem é bom ator não pode fazer bem um livro ou outra coisa. Principalmente em Espanha, onde acham que ninguém pode ser criativo noutra arte. Há casos de pessoas que aproveitaram o seu sucesso pessoal e contrataram alguém que escrevesse um livro por elas, mas não é o meu caso. Garanto. Digam-me o principio de uma frase e eu acabo-a. Houve muito trabalho, além de que é anterior a A Casa de Papel e ao Exterminador.

Este livro vai ser adaptado ao cinema e sente-se nele um tom cinematográfico. Foi de propósito?
É-me impossível não o fazer assim pois as histórias que mais me comoveram eram do cinema. A maneira de narrar e a construção dos personagens estarão mais perto de mim se forem como as de um filme. É o que faço há 20 anos! Aliás, quando comecei a escrever era como se fosse um guião de cinema, depois a história exigiu outro estilo. Escrevi três capítulos, mostrei a amigos que gostaram e disseram para continuar. No entanto, já sei que vai ser adaptado.

E quem será o ator?
Serei eu, guionista é que não.

Vai rever-se no que escreveu ou reclamará como todos os escritores fazem quando lhes cortam o livro em bocados?
Isso não acontecerá, porque darei a minha opinião, além de que tenho confiança no guionista e se se desviar eu tratarei do assunto. Vou comportar-me como se fosse um censor.

Uma espécie de James Cameron neste Exterminador, segundo se diz...
Ele é uma pessoa muito especial e um grande contador de histórias, mas precisa de exercer o controlo constantemente e de estar sempre atento.

O Exterminador tem um orçamento de 225 milhões...

... Sobre isso não vou falar nem uma palavra. Eu confirmei esse valor a um jornal espanhol - apenas disse: acho que sim - e dias depois os advogados da Paramount enviaram-me um e-mail a dizer "Enrique, deste uma entrevista a um jornal local em que referias o custo do filme. Não podes falar nada sobre isso." É como na Netflix, ninguém fala sobre a terceira temporada de A Casa de Papel.

Então, sem violar a confidencialidade, como estão as filmagens da terceira temporada?
Eu já estou a gravar as minhas partes...

O que muda?
É muito mais... É como se a terceira temporada de A Casa de Papel levasse uma injeção de esteroides... É muito mais... É lógico, porque agora há muito mais dinheiro e a criatividade do Álex Pina, o criador da série, é muito grande. Sem dinheiro é uma coisa, com todo o dinheiro que se quiser, é outra.

É mais Hollywood!
Sim, pode dizer-se isso.

Os fãs vão continuar a gostar?
Sim, claro que sim, são os mesmos personagens. A terceira temporada de A Casa de Papel não é uma traição ao estilo, até acho que ainda vai ser melhor...

É filmado em Espanha?
Quase tudo, mas começa noutros lugares - quem viu a série sabe que no fim foram todos embora.

O presidente Erdogan não gostou muito de A Casa de Papel...
Não, proibiu a série na Turquia. O ator que fazia Helsinki era para ir lá e teve de cancelar porque Erdogan ameaçou que aterrava no aeroporto e ia diretamente para a prisão. Ele acha que a série incita à revolução civil, porque as pessoas fizeram uma manifestação e utilizaram as mesmas máscaras da série.

Fez recentemente uma parte do Caminho de Santiago. O que buscava?
Fiz, sim. Tenho amigos que já me tinham convidado para fazer o Caminho, mas eu preferia Ibiza e Formentera, muitas festas. Só que a minha transformação foi muito intensa e comecei a ver a vida de uma maneira diferente. O que antes não era importante passou a ser, e o que antes era importante deixou de o ser. O Caminho foi a melhor experiência pessoal a muitos níveis: foi muito espiritual. Tanto que agora quero fazer o percurso inteiro. Fez parte do meu despertar para a vida espiritual, tal como este romance.

A Grandeza das Coisas sem Nome

Enrique Arce

Editora A Esfera dos Livros, 302 páginas

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