Política a grande escala

Ao longo dos últimos cinco anos, a Comissão Europeia apresentou, ao Parlamento Europeu e ao Conselho, 551 propostas. Em média, mais de cem por ano, portanto. Daqui resultam duas coisas que podiam ser óbvias: que quando se diz que a legislação europeia representa uns 60% da legislação nacional é disto que estamos a falar; e que é impossível, nas vésperas das eleições europeias, discutir as próximas 551. Mas podemos conversar sobre as grandes prioridades, que é o que os eleitores conseguem mais facilmente perceber.

Para quem não precisa de utopias, a Europa importa por ser a única escala a que algumas políticas podem ser resolvidas. É onde a Alemanha é pequena, e Portugal minúsculo, que a escala do continente interessa. Mais do que os fundos - de que ainda dependemos mais do que seria bom.

Na política externa, temos a circunstância nova (que sabemos que não é temporária) de já não sermos o centro do mundo para os americanos. Se o Médio Oriente nos preocupa, é bom que pensemos em como gerir a nossa influência na vizinhança, porque os americanos não estão muito para aí virados. E o mesmo se diga da vizinhança a leste. A Rússia é, hoje, sobretudo uma potência regional, mas a sua área de influência é a nossa fronteira oriental, pelo que será errado desconsiderá-la. Até porque controla, ainda, muita da energia de que precisamos. Ao mesmo tempo, há outros, menores do que nós, que são bons aliados pelo mundo fora. O Japão e a Austrália são bons exemplos. A Índia, muito maior, também tem de ser. É com a importância do nosso mercado que temos de saber ser influentes e manter boas relações com estes aliados.

Segundo vários especialistas, é na capacidade de regular o mundo da economia digital que a UE pode ter uma vantagem competitiva. Resta saber se sabe usá-la sem conseguir, apenas, tornar a nova economia europeia menos competitiva do que todas as outras. É que não basta dizer que se vai liderar a regulação do digital para se conseguir fazê-lo e, sobretudo, se conseguir fazê-lo com sucesso e utilidade.

À velocidade a que a tecnologia acelera, ao contrário do que muitas vezes se diz, o tempo pode gerar cada vez mais infoexcluídos, gente que até já cresceu em ambiente digital mas cujas competências vão ser desactualizadas a alta velocidade. Se assim for, aquilo que estamos a ver pode ser apenas o começo de uma crescente massa de gente que se sente deixada para trás. Gente que, sentindo-se ultrapassada muito rapidamente, tem um potencial de descontentamento que pode ser aproveitado pelos movimentos políticos mais radicais.

Ao longo dos próximos cinco anos, a Comissão Europeia há-de apresentar outras 551 iniciativas que os governos, no Conselho, e os deputados, no Parlamento Europeu, terão de discutir e votar.

Infelizmente, no final do debate na SIC, na semana passada, o maior elogio foi para o jornalista, Bento Rodrigues, por ter evitado que o debate fosse uma salganhada. É meritório, mas é pouco. As eleições europeias mereciam que se fizessem perguntas sobre a Europa, para além do futuro dos subsídios.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG